Indústria patina e cresce 0,6% em 2025, com fôlego da extração de petróleo

 

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Depois de avançar 3,1% em 2024, a indústria voltou a andar de lado e fechou o ano passado com alta de 0,6%. O setor se manteve no campo positivo graças ao avanço da extrativa, dado o aumento da produção de petróleo, menos sensível ao ciclo econômico. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada nesta terça-feira pelo IBGE.

Em dezembro, a produção industrial caiu 1,2%, reforçando o comportamento já arrastado que o setor vinha desde setembro. Foi a queda mais intensa desde julho de 2024, quando recuou 1,5%, e a maior para meses de dezembro desde 2019 - quando retraiu 1,4%, segundo os números do instituto.

O que esperar da indústria em 2026?

Para analistas, o resultado de dezembro acende um sinal de alerta para o desempenho da indústria em 2026. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) projeta que o setor repita o crescimento de 0,6% neste ano “em função da continuidade da política monetária restritiva sinalizada pelo BC, apesar da indicação de início do processo de flexibilização em março", diz.

A entidade avalia que algumas medidas do governo podem reduzir o ritmo da desaceleração já observada até agora. Entre elas estão a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, a ampliação do Minha Casa Minha Vida, o programa Reforma Brasil, além das mudanças nas regras do crédito imobiliário e da aceleração das concessões de crédito consignado para trabalhadores do setor privado.

"Somadas, tais medidas devem movimentar cerca de R$ 212 bilhões, o que pode aumentar a demanda por produtos industriais”, afirma a Fiesp.

A XP tem projeção ligeiramente superior, de 1% em 2026, mas com leitura parecida. A visão é de que os juros devem afetar o desempenho da indústria de transformação, enquanto o mercado de trabalho aquecido e as injeções fiscais feitas pelo governo devem impedir um ciclo de recessão no setor.

— A indústria brasileira deve continuar praticamente estável no curto prazo — disse Rodolfo Margato, economista da XP.

Juros altos e tarifaço seguram atividade

Para André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE, os números anuais indicam uma clara perda de ritmo do setor industrial. Na primeira metade, chegou a expandir 1,2%. Já no segundo semestre, a atividade estagnou.

Macedo avalia que o resultado fraco é um efeito claro do custo elevado do crédito - a taxa básica de juros, Selic, está em 15% ao ano, maior patamar desde 2006 -, o que desestimula o consumo e faz as empresas segurarem a produção e os planos de expansão.

— Esse menor dinamismo guarda uma relação importante com a política monetária mais restritiva, especialmente marcada pelo aumento na taxa de juros, o que impacta diretamente das decisões de investimento por parte das empresas e de consumo por parte das famílias.

Além da política monetária contracionista, o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também afetou o desempenho da indústria, segundo a Fiesp.

A entidade aponta que as exportações da indústria de transformação brasileira para os EUA caíram 8,6% no segundo semestre do ano passado (período de maior impacto das medidas tarifárias) em relação ao mesmo período do ano anterior.

Petróleo cresce, mas indústria de transformação fica no vermelho

Dos quatro grandes grupos investigados pelo IBGE, dois tiveram resultado positivo no ano. Bens de consumo duráveis, como carros e eletrodomésticos, avançou 2,5%, enquanto bens intermediários, que reúne insumos usados pelo restante da indústria, como aço, papel e produtos químicos, fecharam com alta de 1,5%.

Já os segmentos ligados ao dia a dia das famílias e aos investimentos das empresas tiveram retração. A produção de bens de consumo semi e não duráveis - como alimentos, bebidas, roupas e produtos de higiene - caiu 1,7%, enquanto a de bens de capital, que inclui máquinas e equipamentos, recuou1,5%.

Entre os 25 ramos acompanhados pelo IBGE, 15 cresceram no ano. As principais altas vieram da indústria extrativa, puxada pela maior produção de petróleo e minério, que subiu 4,9%, e do setor de alimentos, com avanço de 1,5%.

Na outra ponta, dez atividades caíram. O que mais puxou para baixo foi o segmento que refina o petróleo e produz combustíveis e biocombustíveis, cuja produção encolheu 5,3%. O resultado mostra certo descompasso da cadeia do petróleo. A extração cresceu, mas a atividade de refino e transformação em combustíveis perdeu força ao longo do ano passado.

— O setor extrativo, especialmente impulsionado pelo petróleo, é o principal destaque positivo. É o que garante o avanço do total do setor industrial, ao passo que a indústria de transformação teve uma perda de 0,2% no ano de 2025 — avalia Macedo.