Indiciamento de Bacellar e TH Jóias cita 'estado paralelo' dos 'capos da política'; veja tudo o que a PF aponta no caso
A Polícia Federal (PF) enviou ao Supremo Tribunal Federal (STF), no fim de janeiro, o relatório final que indiciou Rodrigo Bacellar, presidente licenciado da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), e o ex-deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, por ligação com o Comando Vermelho (CV). De acordo com o documento, assinado pelo delegado Guilhermo Catramby, foi identificada uma "teia de interações e relacionamentos escusos", que revela "a existência de um verdadeiro estado paralelo, capitaneado pelos capos da política fluminense".
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TH foi preso em setembro do ano passado, no âmbito da Operação Zargun, por usar seu mandato parlamentar para favorecimento do CV. No entanto, a PF aponta que houve vazamento da ação que iria prendê-lo, o que levou às prisões de Bacellar e do desembargador Macário Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), três meses depois. TH, Bacellar e outras três pessoas foram indiciadas pela Polícia Federal, conforme informado pelo blog do jornalista Lauro Jardim, do GLOBO, na última sexta-feira. Já o caso do magistrado foi remetido para a Procuradoria-Geral da República (PGR). Agora, cabe à PGR oferecer ou não denúncia e enviar o caso à Justiça.
Macário Ramos Júdice Neto, desembargador do TRF-2, preso em dezembro de 2025
Reprodução
Segundo o relatório da PF, que aponta que Bacellar exerce "a liderança do núcleo político" do CV, o "maior ativo" do então presidente da Alerj — solto ainda em dezembro, após votação dos deputados estaduais, mas com medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, como o afastamento da presidência da Casa — nessa posição era a "capacidade de interlocução e persuasão em todos os poderes do Estado do Rio de Janeiro".
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Entre os exemplos elencados pela PF, além de adiantar para TH que ele seria alvo de uma operação (a polícia observa que não foram encontrados pertences relevantes em seus endereços, o que já indicou vazamento), esteve um pedido do ex-governador Sérgio Cabral para que Bacellar, enquanto presidente da Alerj, "intercedesse junto à Sexta Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça do Rio": a intenção era que o julgamento de um processo contra Cabral fosse retirado de pauta.
O adiamento do julgamento acabou acontecendo, o que levou o ex-governador a agradecer a Bacellar, chamando-o de "irmão", "um querido" e até enviando um "Te amo, amigo" por meio de mensagem de texto. Ainda de acordo com o relatório do delegado Guilhermo Catramby, o "atendimento desse tipo de demanda aproxima Bacellar" de Macário Júdice Neto, também investigado pela PF. A investigação identificou "diversos julgados e votos" relacionados a Cabral e a Adriana Ancelmo, sua ex-mulher, com decisões do desembargador federal com "caráter favorável ao ex-casal" em sua maioria.
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"Constatou-se que o maior ativo de Rodrigo Bacellar é a sua capacidade de articulação espúria em todos os poderes fluminenses, a ponto de conseguir o atendimento de favores e contraprestações que colocam os pedintes em posição de gratidão e vulnerabilidade", avalia a PF sobre a atuação do parlamentar nos casos de TH e Cabral.
Ainda segundo o documento enviado ao STF, Bacellar, "exercendo uma macroinfluência em todos os setores políticos do Rio de Janeiro, detinha ascendência hierárquica sobre os demais membros e controlava sua atuação", como a orientação do que TH deveria movimentar ou não em sua casa antes da chegada da Polícia Federal, quando o ex-deputado foi alvo da Operação Zargun.
Foto do momento em que TH Jóias chegou à Superintendência da PF, na Praça Mauá, ao ser preso, em setembro de 2025
Fabiano Rocha / Agência O Globo
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Bacellar exerceu também uma "fagocitose do Executivo" fluminense, avalia a Polícia Federal, graças ao "contexto de fragilidade" do governador Cláudio Castro "em relação aos escândalos que permearam sua gestão à frente do Palácio Guanabara", como o da Fundação Ceperj, ao qual Castro e Bacellar respondem a um processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Na avaliação da PF, a "parcela majoritária da organização criminosa é composta por agentes públicos", referindo-se ao Comando Vermelho, apontado para Bacellar como alguém de atuação com "grau acentuado de vulneração à ordem pública, visto que se trata do então Chefe do Legislativo estadual e, portanto, figura central no combate à criminalidade violenta no Estado do Rio de Janeiro".
Em nota, o advogado Daniel Bialski, que defende Bacellar, afirmou que “inexiste qualquer elemento probatório para pretender lhe imputar qualquer participação em ilicitude e ou vazamento; ao contrário, só há ilações desamparadas”. A defesa acrescenta que o indiciamento é “arbitrário e abusivo”. Já o advogado de TH negou a participação de seu cliente em atividades criminosas e disse que ele não teve acesso a informações vazadas.
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Márcia Foletto
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Distribuição de cargos:
Com Bacellar e TH Jóias, foram indiciados Jéssica de Oliveira Santos e Thárcio Nascimento Salgado, respectivamente mulher e ex-assessor de TH Jóias, além de Flávia Ferraço Lopes Judice, mulher de Macário;
Bacellar e Macário Júdice são acusados de vazar informações a respeito da operação que, em setembro do mesmo ano, também levou para a cadeia TH Jóias, apontado como integrante do CV;
O relatório da PF atribui a Bacellar a “liderança do núcleo político da organização criminosa em análise” — o CV, no caso;
No dia 8 de dezembro, a Alerj aprovou a revogação da prisão de seu presidente. O documento da PF aponta relação entre a votação pela soltura — 42 deputados a favor, 21 contrários e duas abstenções — e a distribuição de cargos na máquina pública;
Um computador apreendido na sala do chefe de gabinete de Bacellar, Rui Bulhões, guardava planilhas que, de acordo com o relatório, sugerem isso;
Segundo a PF, a planilha funciona como um inventário detalhado do que cada deputado “possui” — cargos e espaços de comando já atribuídos — e os novos pleitos que cada parlamentar faria dentro da estrutura administrativa do governo estadual;
Os pedidos foram organizados por nomes e demandas específicas por órgãos, cargos e poderes de influência em setores estratégicos;
O relatório ainda destaca que 87,88% dos parlamentares cujos nomes constam na planilha votaram a favor da soltura de Bacellar em dezembro;
O documento ainda detalha pleitos específicos de parlamentares: Arthur Monteiro (União Brasil) teria solicitado controle do Poupa Tempo em Duque de Caxias, além de postos no Detran e na Faetec;
Carlinhos BNH (PP), de acordo com o registro guardado no computador, teria pedido o comando de unidades do Detran em Queimados e posições na Fundação Leão XIII em diversos municípios;
Guilherme Delaroli (PL), presidente interino da Casa, aparece como responsável por uma lista de 15 cargos requeridos na Alerj, além do comando do Detran e da Faetec em Itaboraí e Rio Bonito;
Deputado estadual Rodrigo Bacellar, agora afastado da presidência da Alerj
Marcelo Theobald/ Agência O Globo
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Ceperj e Leão XIII:
Na lista encontrada com Rui Bulhões, datada de abril de 2023, estão ainda dois órgãos citados em investigações de loteamento de vagas e desvios de recursos: a Fundação Leão XIII e o Ceperj;
“Sob administração de Bacellar, a Alerj potencializou sua influência na tomada de decisões que estariam inseridas no rol de prerrogativas do governador do estado”, diz um trecho do relatório final assinado pelo delegado federal Guilhermo de Paula Machado Catramby;
"Isso se dá por alguns fatores, dentre eles: a outrora fragilidade política de Cláudio Castro, cuja possibilidade de prisão ou cassação sempre esteve no horizonte, ante os inúmeros escândalos em que ele se envolveu”, completou o delegado;
O documento divide os cargos que 11 deputados já tinham no governo e quais eles estariam pedindo a mais. Um deles é o atual líder do governo, Rodrigo Amorim (União), que fazia parte da chamada “Tropa do Bacellar”;
Segundo a PF, o deputado tinha 20 cargos na Alerj e indicações no Detran e nas operações Segurança Presente e Lei Seca. Mas queria aumentar seus tentáculos. Uma anotação no documento explica o motivo: “cargos para compensar o Ceperj”;
O escândalo do Ceperj aconteceu meses antes, durante o período eleitoral de 2022;
O governador Cláudio Castro e Bacellar respondem a um processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que deve ser julgado nas próximas semanas;
Investigações do Ministério Público Federal e do estadual apontaram que a fundação pagou mais de R$ 200 milhões a funcionários, alguns fantasmas, na boca do caixa, para que eles atuassem como cabos eleitorais;
Um dos maiores programas estava sob responsabilidade da Secretaria de Governo, que Bacellar tinha comandado anteriormente;
A PF afirma ainda que Bacellar tinha ingerência até na cúpula do governo, ao indicar os “secretários de Fazenda, Assistência Social, Educação, Polícia Militar e, certa vez, Polícia Civil”;
Outro órgão na mira de investigações policiais e que aparece na lista de loteamento de cargos é a Fundação Leão XIII;
O relatório da PF mostra que o presidente em exercício da Alerj, Guilherme Delaroli (PL), e o secretário de Cidades e pré-candidato ao governo, Douglas Ruas (PL), pediram cargos nos postos de Itaboraí e São Gonçalo, seus redutos eleitorais;
A Fundação Leão XIII é responsável por projetos para pessoas em situação de vulnerabilidade. Criada em 1947, a instituição administra três abrigos que atendem cerca de 150 idosos;
A autarquia tem influência direta de Castro desde que ele foi eleito vice-governador em 2018;
O órgão foi alvo de investigações sobre desvio de recursos que foram arquivadas no Superior Tribunal de Justiça (STJ);
Na fundação, Castro foi buscar, semana passada, uma aliada para ser a nova secretária de Educação. Luciana Calaça substituiu Roberta Barreto, indicada por Bacellar.
Organograma de Bacellar:
Agentes da PF apreenderam um caderno de Bacellar com anotações que a investigação classifica como um “organograma de sua futura administração”, com nomes, cargos e setores que o deputado planejava ocupar caso assumisse o governo;
A lista vai de sugestões, como “um nome famoso” na Secretaria de Esportes, a políticos conhecidos;
Atual presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, é aventado para o cargo de vice;
Não há indicação de que os citados tenham sido contatados ou soubessem de sua inclusão na lista;
A Polícia Federal ressalta que a simples projeção de secretariado ou cenários de governo, isolada, não configura crime, embora a apreensão e análise do material faça parte de um contexto mais amplo de investigação;
O relatório funde os universos da política e da criminalidade: em um caso sensível da segunda lista, a PF afirma que TH Jóias teria confirmado para Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, acusado de ser um dos chefes do Comando Vermelho, que recebeu o alerta sobre a iminência de sua prisão do então presidente da Alerj;
Manifestação na porta da Fundação Ceperj, em Botafogo, ironizando os fantasmas dentro da instituição
Leo Martins / Agência O Globo
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O que dizem os citados
Guilherme Delaroli afirmou que indicações fazem parte da dinâmica política e que eram referentes a “serviços prestados que não estavam funcionando”. Já Douglas Ruas disse que ficou surpreso com a citação e que “jamais tratou desses assuntos com Bacellar ou com seus assessores”.
No fim de semana, Castro criticou as conclusões do relatório da PF que apontam loteamento de postos e afirmou que a composição do governo segue a lógica de uma coalizão partidária.
De acordo com a defesa de Bacellar, “só há ilações desamparadas” no relatório da PF.
Confira a imagem: Chefe de gabinete de Bacellar tinha 'manual' para apagar dados de celular ao lado da cama, aponta PF
Procurado, Amorim afirmou que, como líder do governo, tem o dever de participar das discussões administrativas:
— Tenho o dever de interagir e participar do governo. Mera indicação política não é crime, desde que as pessoas trabalhem e sejam qualificadas.
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