Indicada ao Oscar por dois docs diferentes, Geeta Gandbhir reflete sobre seus filmes: 'Justiça social está no cerne'

 

Fonte:


Desde 22 de janeiro, os dias da cineasta Geeta Gandbhir têm sido “corridos”, mas “maravilhosos”. A americana, de 55 anos, é a primeira mulher a dirigir dois documentários diferentes indicados na mesma edição do prêmio.

Continuação: 'Guerreiras do K-Pop 2' é confirmado pela Netflix

Quiz: Está preparado para o Oscar 2026? Teste seus conhecimentos sobre a cerimônia da Academia

Um deles é o longa “A vizinha perfeita”, que estreou na Netflix em outubro passado. Ele retrata, majoritariamente por imagens de câmeras corporais de policiais, a tensão numa comunidade multirracial da Flórida, que culmina no assassinato de uma mãe negra (Ajike Owens) por uma vizinha branca (Susan Lorincz). Na lista de curtas, está “O Diabo não tem descanso” (HBO Max), cuja direção ela assina com Christalyn Hampton, sobre o trabalho numa clínica de aborto legal na Geórgia a partir da visão da chefe de segurança, que lida diariamente com manifestantes na porta.

—Nos dois filmes, há questões de justiça social no cerne. Essas indicações nos dão mais plataformas para falar sobre esses problemas. O real objetivo é gerar mudança — diz Geeta ao GLOBO numa chamada de vídeo, com trechos a seguir.

'A vizinha perfeita'

Divulgação Netflix

O GLOBO: Você costuma dizer que “A vizinha perfeita” é um projeto pessoal. Por quê?

Geeta Gandbhir: Ajike Owens era a melhor amiga da minha cunhada, que mora na Flórida. Quando foi assassinada, ficamos devastados. Imediatamente, nos tornamos uma ponte com a mídia para a família, porque sabemos que, sem a pressão da imprensa, a aplicação da Justiça muitas vezes não funciona para pessoas pretas e pardas. Na Flórida, existem as leis de Stand Your Ground, que as pessoas costumam invocar para alegar legítima defesa quando cometem crimes. Susan estava tentando essa estratégia, e ficamos profundamente preocupados que saísse impune. Felizmente, foi presa.

Quando percebeu que as imagens das câmeras corporais eram a melhor maneira de contar a história?

Elas chegaram até nós pelos advogados da família. Daí nasceu a ideia de fazer um filme. Geralmente, com imagens de câmeras corporais, o que se tem é algo após a ocorrência, uma ou duas horas de material. Mas, nesse, eram 30 horas, de dois anos antes. Susan chamava a polícia com muita frequência, por causa de crianças com menos de 12 anos brincando num quintal ao lado da casa dela, onde todas tinham permissão para estar. Essas câmeras capturaram a linda comunidade multirracial antes do crime, o melhor da nossa sociedade. Mas também testemunharam como Susan tentava planejar uma defesa para um assassinato que poderia vir a cometer. Ela costumava fabricar medo e usou o racismo como arma.

Quando e como escolheu o nome do filme?

Sempre encontro o título no final. “A vizinha perfeita” é como Susan chama a si mesma. Ela diz: “Sou quieta, quase invisível”, quando, na verdade, assedia a comunidade. Achamos isso irônico e esperamos levantar a questão sobre o que é um vizinho perfeito. Para nós, ele é engajado, intercede por você, cuida dos seus filhos numa crise. Esse filme funciona como um espelho social e reflete todos os males que estão nos impactando: o racismo, o medo fabricado... São ferramentas que um governo autoritário usa para nos dividir e nos fazer pensar que o vizinho perfeito é aquele que fica em silêncio. Não é verdade: ele está nas ruas de Minneapolis se recusando a deixar que seus vizinhos sejam levados pelo ICE (a polícia de imigração). O vizinho perfeito também está nas ruas protestando contra a guerra no Irã e o genocídio em Gaza.

Isso me remete à questão da violência doméstica: o vizinho perfeito chama a polícia quando ouve algo.

É aquele que liga, que nos diz: “Estou atento, vou proteger seus filhos e você.”

Além do fato de a saúde reprodutiva ser um assunto que diz respeito a todas nós, “O Diabo não tem descanso” também é um filme pessoal?

Profundamente. Nós temos filhas que hoje vivem com menos direitos (em 2022, a Suprema Corte revogou o direito ao aborto, que vigorava por 50 anos e, um ano depois, vários estados impuseram restrições). O que me fascina nesse filme é Tracy, a segurança da clínica. Ela é uma cristã bastante devota, mas encontrou um espaço na interseção entre a fé e os direitos reprodutivos das mulheres. Isso é uma janela para algo que não tínhamos visto, pois a religião, não apenas nos EUA e nem só no cristianismo, é usada como arma contra nós. Tracy achou uma trilha em que ambos são possíveis.

Como tem sido seu caminho no cinema, como uma mulher não branca e filha de imigrantes indianos?

O (diretor) Spike Lee me abriu portas. Quando saí da faculdade, me contratou para a equipe de edição de “Malcolm X” (1992). A comunidade negra foi muito importante para mim. Tentei aproveitar ao máximo as oportunidades que recebi, mas também garantir a abertura de portas para os outros.

Foi anunciado nesta semana que você vai dirigir um doc sobre a Whoopi Goldberg.

Sempre a vi como uma revolucionária, que se recusou a deixar que Hollywood a definisse. Além de um talento incrível, tem sido muito resiliente — a pessoa na linha de frente é quem leva todas as bombas. O mundo precisa dela, mas Whoopi também merece ser exaltada.

Como brasileira, preciso perguntar: assistiu a ‘“O agente secreto”?

Sou votante, não sei se posso falar muito... Mas assisti. É emocionante. Os filmes estão fantásticos, é um ano forte.