Incêndio força retirada de principal porta-aviões dos EUA envolvido em combate com o Irã
O porta-aviões mais avançado da Marinha dos Estados Unidos está se retirando do Mar Vermelho após um incêndio ter começado em sua lavanderia, frustrando os planos de usar a embarcação nuclear de 100 mil toneladas para projetar poder na guerra contra o Irã. Após o incidente, que deixou ao menos dois dos 4 mil tripulantes com ferimentos sem risco de vida, o USS Gerald R. Ford seguirá para a ilha grega de Creta, segundo uma autoridade americana familiarizada com o assunto ouvida pela Bloomberg. Os militares dos EUA se recusaram a comentar os detalhes do incêndio, mas o jornal New York Times informou que os marinheiros levaram mais de 30 horas para controlá-lo na semana passada. Mais de 600 tripulantes perderam seus alojamentos.
Contexto: Incêndio, desgaste e missão estendida: crise a bordo do principal porta-aviões dos EUA
Dois feridos: Lavanderia do porta-aviões americano USS Gerald R. Ford sofre incêndio no Oriente Médio
O episódio mostra como até mesmo os ativos mais avançados da Marinha estão sob pressão à medida que os EUA ampliam seus esforços militares. O Ford, navio de guerra mais caro já construído, passou meses além do período padrão de mobilização no mar. Sua saída da região deixa apenas um porta-aviões americano, o USS Abraham Lincoln, para apoiar a campanha contra o Irã.
Procurada para comentar, a Marinha não respondeu sobre as condições do porta-aviões nem se seus navios de escolta permanecerão no Mar Vermelho. Um funcionário da Defesa, que pediu anonimato, afirmou que o grupo de ataque do Ford continuará operando na região.
Porta-aviões estão entre os ativos mais requisitados das Forças Armadas dos EUA. Eles funcionam como bases aéreas móveis, permitindo lançar ataques e projetar poder aéreo longe do território americano, mas apenas um número limitado está disponível a qualquer momento devido a compromissos globais e ciclos de manutenção.
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Eles também contam com apoio militar significativo: o Ford é acompanhado por destróieres com mísseis guiados, e sua ala aérea inclui caças F/A-18E e F/A-18F Super Hornet, aeronaves de alerta antecipado E-2D, além de helicópteros MH-60S e MH-60R Seahawk e aviões C-2A Greyhound.
O navio de guerra participava de operações dos EUA contra a Venezuela quando o presidente americano, Donald Trump, ordenou seu deslocamento para o Oriente Médio antes da campanha contra o Irã. Enquanto uma missão normal dura apenas seis meses, o Ford está no mar desde junho do ano passado.
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Missões prolongadas podem desgastar os marinheiros e pressionar suas famílias — algo reconhecido pela Marinha em um comunicado no mês passado que exaltava a resiliência e a prontidão da tripulação do Ford durante sua “implantação estendida”: “Líderes da Marinha reconhecem que longos períodos longe das famílias trazem sacrifícios reais e mensuráveis”, dizia o texto.
Conversar com marinheiros a bordo de porta-aviões é difícil mesmo nas melhores circunstâncias. Durante uma guerra, os navios e as bases militares envolvidas nas operações ficam "às escuras", limitando a capacidade dos militares de se comunicar com o mundo exterior. Os oficiais e marinheiros entrevistados para a reportagem falaram sob condição de anonimato, pois não estavam autorizados a falar publicamente.
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Durante as guerras no Iraque e no Afeganistão, a Marinha manteve porta-aviões em missão por nove meses consecutivos, às vezes um pouco mais. Mas, normalmente, as missões não se estendem por mais de seis meses. Segundo especialistas, períodos mais longos são muito prejudiciais tanto para o navio quanto para a tripulação.
— Os navios também se cansam e sofrem danos por longos períodos de serviço — disse o contra-almirante John F. Kirby, oficial naval aposentado que foi secretário de imprensa do Pentágono e porta-voz de segurança nacional no governo de Joe Biden. — Não se pode operar um navio por tanto tempo e com tanta intensidade e esperar que ele e sua tripulação tenham o melhor desempenho possível.
Segundo dois oficiais, o incêndio da semana passada começou na saída de ar de uma secadora nas instalações de lavanderia do navio e se alastrou rapidamente. O Comando Central dos EUA (Centcom) afirmou, em comunicado, que o incêndio “não causou danos ao sistema de propulsão do navio, e o porta-aviões permanece totalmente operacional”. No entanto, o incidente foi apenas o mais recente de uma série de problemas de manutenção no Ford, que também é o porta-aviões mais novo da Marinha.
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Em janeiro, a rádio pública NPR informou que o Ford lidava com um sistema de encanamento defeituoso, que falhou repetidamente enquanto estava no mar. A Marinha reconheceu o problema, mas afirmou que a embarcação já havia registrado “mais de 6 milhões de descargas de vasos sanitários”, acrescentando que, em geral, a culpa era dos próprios marinheiros.
“Na maioria dos casos, os entupimentos são resultado de itens descartados que não deveriam ser introduzidos no sistema”, disse a Marinha em comunicado, citando o comandante do Ford. “Quando os marinheiros seguem os procedimentos adequados, o sistema funciona de forma confiável”.
Um importante período de manutenção e reequipamento que o porta-aviões Ford deveria passar no início deste ano no estaleiro naval de Newport News, na Virgínia, foi adiado, disseram autoridades militares. Um oficial militar afirmou que o Pentágono estava ciente de que o porta-aviões estava atingindo o limite de sua capacidade operacional. Segundo ele, o USS George H.W. Bush está se preparando para ser enviado ao Oriente Médio e provavelmente substituirá o Ford.
(Com Bloomberg e New York Times)
