É importante reconhecer a responsabilidade sem se culpar por tudo

 

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Tem uma frase clássica que atravessa gerações e sempre aparece quando alguém precisa justificar o injustificável: “Não fiz porque meu cachorro comeu o dever de casa”.

A gente ri porque parece absurdo. Mas, se parar para pensar, talvez esteja mais presente na vida adulta do que gostaríamos de admitir, só que com roupagens mais sofisticadas.

Não é incomum encontrarmos argumentos em discussões que beiram o cômico. Só que, em vez do cachorro, entram outros personagens: a chefe, o parceiro, o filho, o trânsito, o cansaço, a vida. E, óbvio, todos eles têm, sim, algum papel nas nossas dificuldades. A questão é quando eles deixam de ser parte da equação e passam a ser a explicação inteira.

É o tal do ganho secundário. Esse lugar quase invisível e, ao mesmo tempo, tão confortável, em que a gente acha que ganha ao se proteger das nossas próprias fragilidades terceirizando responsabilidades.

Se não entrego algo no prazo, é mais fácil dizer que “não deu por causa de X” do que simplesmente admitir: “Eu não consegui”. Se não sei fazer alguma coisa, é mais confortável apontar a falta de apoio do outro do que dizer: “Preciso de ajuda”. Se algo não saiu como esperado, é tentador construir uma narrativa em que sou a parte prejudicada e não alguém que também poderia ter feito diferente.

E aqui entra um ponto delicado e importante: reconhecer responsabilidade não é se culpar por tudo. A vida é, sim, atravessada por fatores externos. Nem tudo está sob nosso controle.

Mas existe uma linha muito tênue entre reconhecer o contexto e se esconder atrás dele. Quando a culpa é sempre do outro, quando o mundo está constantemente contra você, quando há sempre uma justificativa pronta para explicar por que algo não aconteceu, talvez valha a pena parar e perguntar: “O que estou ganhando com essa narrativa?

Porque existe um ganho. Ainda que inconsciente. Pode ser o ganho de não se expor. De não precisar lidar com a frustração. De não confrontar a própria limitação. De manter uma imagem de si mesma que não comporta falhas. Só que esse conforto tem um preço alto: ele nos coloca num lugar permanente de coadjuvante.

E, com o tempo, essa posição vai enfraquecendo a nossa própria narrativa. Porque protagonizar a própria história não é só estar nos momentos de vitória. É também sustentar os momentos em que a gente erra, falha, atrasa, não sabe, não consegue. É dizer: “Não fiz”, “Não dei conta”, “Preciso de ajuda”, “Posso tentar de outro jeito”.

Quando a culpa é sempre do outro, a gente esquece de colocar a nossa própria responsabilidade na mesa. E esse pode ser um dos exercícios mais difíceis e mais transformadores da vida adulta: fazer autocrítica sem se destruir. Reconhecer limites sem se paralisar. Assumir responsabilidade sem carregar o mundo nas costas.

Nem toda história termina da forma idealizada. Mas toda história pode ser vivida com verdade. E a verdade é que a gente também erra muito e precisa admitir o erro sem terceirizá-lo o tempo todo.

É isso que diferencia quem só reage àquilo que acontece de quem, de fato, constrói o próprio caminho.