Implosão do Titan: viúva e mãe de vítimas lança livro em que relata os quatro dias de buscas até confirmação da tragédia

 

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O que era uma viagem em família, motivada por um grande sonho, acabou por se transformar em tragédia em junho de 2023 para Christine Dawood. Desde então, o que restou para ela foram as memórias e os pertences do marido, Shahzada, e do filho, Suleman. Os dois estavam a bordo do submersível Titan da OceanGate, que realizava uma expedição aos destroços do mítico Titanic, localizados a quase 4 mil metros de profundidade no Atlântico Norte, quando implodiu, matando todos os ocupantes.

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Christine tem buscado, desde então, formas de lidar com os dois lutos. Ela continua vivendo na casa em que morava com o marido e o filho em Londres, na Inglaterra. Itens pessoais dos dois seguem preservados e são mantidos no lugar onde foram deixados. Recentemente, Christine tem dado entrevista sobre o longo processo durante os últimos quase três anos. Agora, ela quer compartilhar detalhes sobre como era a vida dos três antes da tragédia e os dias de angústia quando a viagem mostrou não ter saído como o esperado. A viúva e mãe lançou, na última terça-feira (12), o livro "Ninety-Six Hours: A wife and mother's desperate search for the lost Titan Sub" ("Noventa e Seis Horas: A busca desesperada de uma esposa e mãe pelo submarino Titan perdido", em tradução livre).

O título é uma referência aos quatro dias de espera angustiante que Christine teve que enfrentar até ter a confirmação de que o submersível tinha implodido, provocando a morte de todos os ocupantes. O Titan desapareceu aproximadamente 90 minutos após iniciar a descida no Oceano Atlântico, em 18 de junho de 2023. A equipe que acompanhava a missão em um navio de apoio perdeu o contato. O último registro em som que se tem é de uma gravação de som, captada por meio do rádio de comunicação, do momento da implosão, como apontado no curso das investigações.

Shahzada, de 48 anos, e Suleman, de 19, morreram junto com Stockton Rush, CEO da OceanGate; o explorador britânico Hamish Harding; e o mergulhador francês Paul-Henri Nargeolet. A confirmação da tragédia só foi feita quatro dias depois, em 22 de junho daquele ano. Uma ação da Guarda Costeira dos Estados Unidos encontrou os destroços do submersível, confirmando a implosão.

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"Baseando-se na experiência em tempo real de Christine a bordo do navio de busca – desde o momento em que a comunicação foi perdida até a trágica confirmação da implosão catastrófica – o livro se dirige a todos que já enfrentaram perdas inimagináveis, oferecendo reflexões universais sobre o luto, os laços familiares e a resiliência humana em momentos de crise", diz um trecho da descrição do livro escrito por Christine Dawood sobre os quatro dias que passou.

Christine Dawood lança livro em que conta a perda do marido, Shahzada, e do filho, Suleman, na tragédia do Titan, submersível da OceanGate que implodiu em 2023

Reprodução / Amazon

Ela acompanhava o filho e o marido na viagem e estava a bordo do navio de apoio com a equipe de monitoramento da OceanGate. Em entrevista recente ao jornal inglês The Guardian, Christine falou sobre a última vez que viu os dois antes de embarcarem no submersível.

— Suleman estava com o cubo mágico porque planejava quebrar o recorde de resolução na maior profundidade já alcançada — disse na entrevista ao jornal inglês publicada em 25 de abril. — E nós estávamos rindo, porque Shahzada é desastrado e cambaleou um pouco ao descer as escadas. Acenei para ele. E foi só isso. Eles entraram em um bote inflável e partiram em alta velocidade. A despedida foi muito rápida.

Ela se lembra do momento em que a expedição comunicou sobre a perda de contato com os tripulantes e da atitude que a equipe teve diante de um cenário de incerteza.

— Eles perderam a comunicação — lembrou ela de ter ouvido, além de os verem tentar minimizar a situação, no que completaram: — "Não se preocupe, não é nada de anormal". A tripulação agiu como se nada estivesse acontecendo.

No livro que está lançando, Christine combina um relato em primeira mão dessa tragédia com memórias familiares. A obra de 284 páginas está disponível para compra em inglês, ainda sem título em português, e no site da Amazon pode ser adquirida em formato brochura e em e-book.

— Só recebemos os corpos nove meses depois — disse Christine ao The Guardian. — Bem, quando digo corpos, quero dizer a lama que sobrou. Eles vieram em duas caixas pequenas, parecidas com caixas de sapatos. (...) Não encontraram muita coisa. Eles têm uma pilha enorme que não conseguem separar, tudo com DNA misturado, e me perguntaram se eu queria um pouco daquilo também. Mas eu disse que não, só o que vocês sabem que é o Suleman e o Shahzada.

A lama a que Christine se refere é o material que foi possível ser recuperado do fundo do mar, onde estava o que restou do submersível. O que foi encontrado e resgatado passou por separação e testes de DNA pela Guarda Costeira dos Estados Unidos.

No ano passado, a Guarda Costeira divulgou um relatório que definiu a implosão como uma “tragédia evitável”, atribuindo a responsabilidade à cultura corporativa da OceanGate, ao descumprimento das normas e à “negligência” em relação à segurança.