A tecnologia do impedimento semiautomático implementada pela CBF na 20ª rodada, do Campeonato Brasileiro, ainda é alvo de críticas de torcedores e técnicos de futebol.
No fim de semana, após a 25ª rodada, a discussão sobre a precisão do impedimento automático ganhou destaque após os jogos entre (Fluminense X Athletico) e (Vasco X Cruzeiro).
O sistema utiliza inteligência artificial, visão computacional, câmeras de alta velocidade e rastreamento da bola para auxiliar a arbitragem na marcação de impedimentos.
A promessa é tornar as decisões mais rápidas e precisas, entretanto, a tecnologia ainda dependente da validação humana durante o andamento das partidas do Brasileirão.
Pensando nisso, o TechTudo conversou com o especialista em Visão Computacional e pesquisador em IA aplicada ao Futebol, Estevão Paes Leme, além de Harry Lennard, diretor de operações da Genius Sports, empresa responsável pelo sistema de impedimento no futebol brasileiro, para saber se a tecnologia realmente tem sido eficaz.
Já adiantamos que sim, ela realmente diminui o tempo de decisão da arbitragem.
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Sala do VAR no Campeonato Brasileiro
Divulgação (Fabio Souza/CBF)
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Nesta matéria do TechTudo você encontra:
O que é o impedimento semiautomático e como ele funciona?
O que existe por trás da tecnologia? IA, câmeras e rastreamento em tempo real
O sistema é mais preciso que o VAR tradicional?
Tecnologia promete agilizar decisões no Campeonato Brasileiro
Torcedores e técnicos reagem ao impedimento semiautomático nas redes
Por que a tecnologia demorou para chegar ao Brasil?
1.
O que é o impedimento semiautomático e como ele funciona?
O impedimento semiautomático, também conhecido pela sigla SAOT (“Semi-Automated Offside Technology”) é um sistema que utiliza diversas câmeras distribuídas pelo estádio para acompanhar continuamente a posição da bola e dos jogadores, identificando automaticamente situações de impedimento.
Com modelos de visão computacional e inteligência artificial, o sistema detecta automaticamente pontos anatômicos dos corpos de cada atleta e converte essas coordenadas da imagem em coordenadas reais do gramado, determinando com alta precisão a posição de cada jogador e da bola.
Tecnologia do impedimento semiautomático na Copa do Mundo em 2022
Divulgação/FIFA
A tecnologia é chamada de semiautomática porque, no modelo atual, serve apenas para subsidiar as decisões do árbitro de vídeo e, em última instância, do árbitro do gramado, que tem a palavra final.
2.
O que existe por trás da tecnologia? IA, câmeras e rastreamento em tempo real
O Brasileirão conta com uma solução desenvolvida pela empresa britânica Genius Sports, que também opera na Premier League.
Em cada estádio da Série A, 28 a 32 câmeras de visão computacional com resolução 4K operam a 100 quadros por segundo para rastrear continuamente:
O movimento da bola.
Cada jogador em campo.
Milhares de pontos de rastreamento óptico pelo corpo de cada jogador.
Câmeras do sistema de impedimento semiautomático
Divulgação / CBF
Os dados são processados pelo sistema GeniusIQ, que analisa e processa bilhões de pontos de dados com o objetivo de automatizar diversas etapas essenciais em cada possível situação de impedimento.
Logo após detectar de forma automática um potencial impedimento, o GeniusIQ seleciona os jogadores de ataque e defesa envolvidos, define o ponto exato do chute e gera, em poucos segundos, uma imagem em 3D nítida do lance.
O sistema do Brasileirão também é utilizado nas ligas da Inglaterra, Bélgica e México, e é ligeiramente diferente do empregado na Copa do Mundo deste ano.
No torneio de seleções, foram utilizadas menos câmeras nos estádios, mas um chip na bola para fornecer informações adicionais.
3.
O sistema é mais preciso que o VAR tradicional?
O impedimento semiautomático contorna algumas das limitações do método utilizado até então no Brasil.
No modelo anterior, o árbitro de vídeo precisava selecionar manualmente o frame exato do passe, identificar o ponto mais avançado do corpo de atacantes e defensores e posicionar as linhas de referência para determinar se havia ou não impedimento.
A taxa de frames das câmeras, o dobro da convencional, permite identificar com mais precisão o momento exato do passe.
Já o mapeamento dos pontos do corpo de cada atleta em relação ao campo também elimina, em teoria, possíveis erros devido ao ângulo das câmeras.
Infográfico explica funcionamento do impedimento semiautomático
Divulgação / Genius Sports
Para o especialista em Visão Computacional e pesquisador em IA aplicada ao Futebol, Estevão Paes Leme, o método anterior funcionava, mas tinha ‘gargalos’ em precisão e agilidade.
Na análise dele, o SAOT tende a solucionar as questões.
'"O problema não estava no conceito da ferramenta, mas na quantidade de intervenção humana necessária durante o processo.
São etapas que exigem precisão e que, naturalmente, estão sujeitas a variações de interpretação.
Além de toda ação acontecer sob uma enorme pressão para que a decisão fosse tomada rapidamente’, afirma.
‘O impedimento semiautomático reduz significativamente essa dependência da intervenção humana.
Quanto menor for essa interferência nas etapas técnicas da medição, menor tende a ser a margem para divergências entre lances semelhantes’", explica.
Naturalmente, isso não significa que a tecnologia seja infalível.
Estevão lembra que o desempenho do sistema continua dependendo de uma infraestrutura robusta, da correta calibração das câmeras e da qualidade da captura das imagens.
Vale lembrar, ainda, que a responsabilidade final permanece com a arbitragem — e que, assim, a subjetividade continua presente na marcação dos impedimentos.
Tela exibida em monitor para os árbitros em caso de marcação de impedimento semiautomático
Divulgação / CBF
4.
Tecnologia promete agilizar decisões no Campeonato Brasileiro
Em sua estreia na 20ª rodada do Brasileirão, o sistema de impedimento semiautomático foi utilizado em cinco oportunidades, com tempo médio de checagem de apenas 47 segundos.
Um gol do São Paulo no Maracanã, por exemplo, foi checado em 33 segundos.
Já um gol do Flamengo foi anulado em 64 segundos.
Para efeitos de comparação, no Campeonato Brasileiro de 2025, o tempo médio de interrupção em cada acionamento do árbitro de vídeo foi de 1min40s.
Isso representa uma diminuição de mais de 50% no tempo das checagens.
A Genius Sports, responsável pelo sistema, diz que nas ligas da Inglaterra, Bélgica e México, a redução média foi de 34%.
Nesse primeiro momento, a CBF, a Genius Sports e a imprensa especializada avaliaram positivamente o desempenho do sistema.
"O primeiro fim de semana de utilização oficial do impedimento semiautomático foi extremamente positivo e confirmou que estamos no caminho certo.
A tecnologia entregou aquilo que esperávamos: mais agilidade, precisão e segurança nas decisões, reduzindo significativamente o tempo de análise dos lances e proporcionando maior fluidez às partidas.
Seguiremos monitorando e aperfeiçoando os processos, mas este início demonstra que o futebol brasileiro está incorporando uma tecnologia de padrão internacional, sempre com o objetivo de oferecer uma arbitragem cada vez mais eficiente, transparente e confiável, disse Netto Góes, Diretor de Arbitragem da CBF em comunicado oficial."
Outra mudança para o torcedor são as animações em 3D exibidas, que “congelam” a posição do jogador possivelmente impedido.
Exemplo de animação gerada pelo sistema de impedimento semiautomático
Divulgação / Genius Sports
5.
Torcedores e técnicos reagem ao impedimento semiautomático nas redes
Na coletiva após a partida contra o Fluminense, o técnico do Athletico Paranaense, Odair Hellmann, fez uma das críticas mais duras ao impedimento semiautomático desde que ele chegou à competição.
A tecnologia foi utilizada para anular um gol de Viveros, no segundo tempo, quando o placar estava em 3 a 2 para o Fluminense.
'Esse impedimento semiautomático, meu senhor, dai-me forças...
Estamos dificultando as situações de gol.
Não sei o que estamos buscando para ser gol.
Cada vez é mais milimetricamente para tirar o gol', disse o treinador.
Torcedores que estavam na Arena da Baixada, durante o jogo, também registraram que o telão do estádio exibiu inicialmente 'não impedimento' e depois alterou a informação para 'impedimento', gerando dúvidas quanto à confiabilidade do sistema.
Já no jogo entre Flamengo e Botafogo, a 'comemoração' de um bandeirinha que teve a decisão confirmada pelo sistema semiautomático, levando à anulação de um gol rubro-negro, também repercutiu e gerou revolta.
A marcação da linha, no meio da manga do jogador do Flamengo, foi outro ponto muito questionado.
No jogo entre Cruzeiro e Vasco, pela mesma 25ª rodada, a validação de um gol da equipe mineira em um lance com diferença mínima entre as 'linhas' levantou, mais uma vez, outro ponto: o sistema utilizado no Brasileirão não mostra, com clareza, o momento exato do passe, quando as posições precisam ser marcadas.
Outra mudança para o torcedor são as animações em 3D exibidas, que “congelam” a posição do jogador possivelmente impedido.
No Brasileirão, em lances com uso do impedimento semiautomatico, as transmissões exibem apenas a reconstrução tridimensional das linhas e dos atletas, sem mostrar inicialmente o frame do passe.
Alguns torcedores acostumados com as animações exibidas durante a Copa do Mundo questionaram a diferença, sugerindo que o sistema brasileiro seria menos preciso.
Lances milimétricos também geraram polêmica e crítica por parte das torcidas que se sentiram prejudicadas.
Houve, ainda, críticas ao rigor imposto pela tecnologia, que, na visão de parte dos torcedores, comprometeria o ‘futebol arte’.
Por outro lado, houve quem tenha gostado do suposto rigor proporcionado pela ferramenta, especialmente em lances muito apertados.
Harry Lennard, diretor de operações de arbitragem da Genius Sports, afirmou ao TechTudo que a introdução da tecnologia exige um período de adaptação, mas que os fãs também devem se beneficiar.
'A implementação de grandes sistemas tecnológicos inéditos em qualquer patamar do futebol demanda um tempo de transição e adaptação.
Contudo, a nossa tecnologia de impedimento semiautomático (SAOT) já teve sua eficácia comprovada na principal liga de futebol do planeta, proporcionando marcações de impedimento rápidas e precisas, o que contribui para restabelecer a fluidez natural do esporte que tanto amamos.
O propósito do GeniusIQ não é substituir a equipe de arbitragem, mas sim servir como um suporte para ela.
O SAOT assegura decisões mais rápidas e uniformes, além de colaborar para que os torcedores compreendam com maior clareza a maneira como essas decisões são tomadas', disse.
O especialista Estevão Paes Leme também avalia que o ceticismo dos torcedores é parte do processo de introdução de qualquer inovação.
'Quando falamos de futebol, o torcedor está emocionalmente envolvido com o jogo e, muitas vezes, a percepção sobre a tecnologia depende do impacto da decisão para sua equipe.
O mesmo ocorreu quando o VAR foi implementado”, acrescenta.
“O principal desafio daqui para frente será a transparência.
Quanto mais claras forem as imagens apresentadas, os critérios utilizados e o processo de tomada de decisão, maior tende a ser a confiança do público.
A tecnologia deve ser precisa, mas também tem de ser compreendida'.
6.
Por que a tecnologia demorou para chegar ao Brasil?
O SAOT começou a ser usado em 2022 e já estava presente na Copa do Mundo do Catar.
No entanto, demorou mais de quatro anos para chegar ao Brasil por exigir a instalação de infraestrutura específica em todos os estádios das competições que adotarem o sistema.
Isso significa que não basta rodar um software: é necessário adquirir, instalar e calibrar os equipamentos, além de treinar pessoas para operar o sistema de maneira confiável.
Câmeras do sistema de impedimento semiautomático na Neo Química Arena
Divulgação / Corinthians
Por causa dessas dificuldades logísticas, o impedimento semiautomático não é usado na Copa do Brasil, que inclui times menores e realiza jogos em estádios menos equipados.
7.
O que ainda pode evoluir no futebol com ajuda da IA?
O impedimento semiautomático é um dos elementos de uma tendência ampla de digitalização do futebol, evidente desde a implementação do VAR em 2018.
Bolas com sensores, câmeras corporais de árbitros, reconstruções em 3D, rastreamento automático de jogadores e sistemas que enviam alertas diretamente aos assistentes já são realidade em algumas competições, transformando o futebol em uma vitrine tecnológica.
Para o diretor de operações de arbitragem da Genius Sports, Harry Lennard, ainda há muito espaço para implementação de inovações no futebol brasileiro e as perspectivas são animadoras.
'Pensando a longo prazo, ao adotar a tecnologia da Genius Sports, a CBF estabeleceu bases sólidas para impulsionar inovações ainda mais surpreendentes no futebol brasileiro.
Agora, a entidade tem ao seu alcance desde ferramentas de análise de dados utilizadas por todos os clubes da Premier League até transmissões ao vivo imersivas e novas ativações dinâmicas de patrocínio', explica
Já o pesquisador Estevão Paes Leme destaca a possibilidade de utilizar sensores, dados e IA em análises que hoje já começam a influenciar decisões táticas, treinamentos e estratégias ofensivas.
Com a mesma infraestrutura de câmeras do impedimento semiautomático, é possível analisar fatores como:
desempenho físico,
velocidade,
aceleração,
distância percorrida,
ocupação de espaços,
compactação entre setores,
pressão sobre o adversário,
organização tática,
risco de gol
risco de lesão
Mas as análises, para o especialista, podem ir além.
“Acredito que o próximo grande salto será a evolução da inteligência artificial de sistemas que apenas detectam eventos para sistemas capazes de compreender o contexto do jogo.
Em vez de apenas identificar um impedimento ou um toque na bola, a IA será capaz de interpretar padrões coletivos, antecipar comportamentos táticos, gerar análises preditivas e oferecer suporte à tomada de decisão do treinador em tempo real”, afirma.
Com informações de CBF (1 e 2); ESPN; FIFA (1 e 2); ge.com (1 e 2 ) e Olympícs.com
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