Impacto artístico no imaginário brasileiro: Rio de Janeiro a partir das aquarelas de Debret e fotos de Malta

 

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O Rio de Janeiro foi retratado por incontáveis mãos habilidosas, a partir dos olhares sensíveis de artistas sobre a cultura carioca. Das icônicas aquarelas de Jean-Baptiste Debret, parte do imaginário popular brasileiro sobre o período colonial, às fotografias de Augusto Malta ao longo do século passado, a cidade nunca parou de ser representada. Nos anos 1930, Heitor dos Prazeres jogou luz sobre a atmosfera boêmia e musical, sobretudo do samba, enfatizando as tradições afro-brasileiras. Nas décadas seguintes, o fotojornalista Flávio Damm eternizou a cidade com fotos objetivas, porém carregadas de significado sobre nostalgia e liberdade.

Em 2026, o Rio contemporâneo se reinventa constantemente. As expressões artísticas continuam a moldar o olhar coletivo sobre a Cidade Maravilhosa e ressignificam as primeiras representações cariocas.

Em diferentes momentos da história, Debret e Malta tinham um objetivo em comum: capturar a essência da então capital do Brasil. O pintor francês mostrou ao mundo a lógica escravista do país, o último a abolir a escravidão, e os privilégios das elites brasileiras. O fotógrafo, por sua vez, capturou o projeto de modernização do Rio de Janeiro e de alinhamento cultural aos valores europeus no início do século passado: a “Paris Tropical”. As obras impactaram – e ainda impactam – a imagem internacional do país.

Heitor dos Prazeres em seu ateliê na Praça Onze, em 1963

Patrick Ward

Fotografia de Flávio Damm tirada no Rio de Janeiro, em 2002.

Flávio Damm / Divulgação

O pintor Jean-Baptiste Debret chegou ao Brasil em 1816, a convite de D. João VI. Ele atravessou o oceano como parte da Missão Artística Francesa, acompanhado de um grupo estrangeiro que visava desenvolver as artes no país. Além de estabelecer a Academia de Belas Artes, o viajante tinha outra ambição: registrar as transformações do Brasil no século 19 após a chegada da corte portuguesa em 1808.

O artista viveu em terras tupiniquins até 1831 e produziu centenas de registros visuais sobre a vida cotidiana, paisagens e costumes do país. Após 15 anos, Debret retornou à França com aquarelas, gravuras e desenhos, posteriormente publicados no livro “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” (em tradução, “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil”). De 1834 a 1839, a experiência internacional e as obras foram compartilhadas em três volumes, que abordam respectivamente os costumes indígenas brasileiros; a escravidão e a cidade do Rio de Janeiro; e as instituições políticas e religiosas do país.

A professora de História da Arte na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ana Cavalcanti destaca que Debret, apesar de ter se integrado ao Brasil, ainda era um estrangeiro. A estudiosa afirma que a postura do francês era diferente da observada em artistas viajantes, que, sozinhos ou em expedição, faziam registros documentais de paisagens, culturas, populações e cenas do cotidiano em desenhos e pinturas. Durante a jornada, esse tipo de observação exigia distanciamento.

Aquarela "Voto d’uma missa pedida como esmola" pintada por Jean-Baptiste Debret em 1826

Agência O Globo

— Debret realmente conviveu com os brasileiros: trabalhou e conheceu o Rio de Janeiro. Quando fez as aquarelas, tinha o olhar de um estrangeiro, curioso com tudo que era diferente da Europa.

"Graças ao hábito da observação natural em um pintor de história, fui levado a aprender espontaneamente traços característicos dos objetos que me envolviam; por isso, meus esboços feitos no Brasil reproduzem, especialmente, as cenas nacionais ou familiares do povo entre o qual passei dezesseis anos", registrou Debret em “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil”.

A obra com as aquarelas reproduzidas em gravuras demorou praticamente um século para ser traduzida para o português. “Viagem pitoresca e histórica ao Brasil” foi publicada em volume único em 1939, já no período republicano do país. Porém a população só teve acesso ao livro décadas mais tarde.

A publicação tardia se deu pela recepção negativa da obra por parte dos brasileiros contemporâneos do pintor, sobretudo críticos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Quando Debret enviou um exemplar ao país, os membros da comissão consideraram as pinturas da segunda edição chocantes. Os trabalhos mostravam o cotidiano das pessoas escravizadas e cenas da vida popular carioca com realismo.

– O Debret pintou cenas do Rio de Janeiro com a população preta. A gente sabe, pelos relatos nas cartas de viajantes, que a presença negra nas ruas era muito forte. O segundo volume é todo dedicado à vida no Rio. Ele representa cenas da escravidão e de punição, mesmo sabendo que isso podia incomodar os brasileiros — identifica Ana, que estuda manifestações artísticas nacionais no século 19 e relações entre arte brasileira e europeia.

Confira as obras mais conhecidas de Debret do Rio de Janeiro

"Percorrendo as ruas fica-se espantado com a prodigiosa quantidade de negros, perambulando semi-nus e que executam os trabalhos mais penosos e servem de carregadores. Eles são mais raros nos dias de festas, solenizados por procissões e pelo costume singular dos fogos de artifício diante das igrejas tanto de dia como de noite", escreveu Debret, em um trecho da obra.

Pesquisador das heranças africanas e afro-brasileiras no Rio de Janeiro, Pedro Mendes ressalta a importância do regime escravista para o sistema colonial. A lógica era tão forte naquela sociedade que até mesmo as famílias mais pobres tinham escravizados: tê-los “era uma obrigação social”, define o historiador.

– Debret teve a sagacidade de registrar o burburinho das ruas, a cidade suja, poluída, caótica, violenta, mas também extremamente vibrante. Para o Rio do início do século 19, com a presença da corte e de instituições europeias, a escravidão havia deixado de ser um acidente de percurso para se tornar um traço marcante desse Rio de Janeiro que buscava se “civilizar”.

Em 1840, a comissão do IHGB rejeitou o segundo volume de “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil” pela ênfase dada ao papel dos escravizados nas atividades urbanas. Os críticos se preocuparam com a imagem internacional do país, que parecia pouco civilizado a partir dos registros do pintor. O desconforto intelectual surgiu a partir da possibilidade de exposição de uma realidade histórica com a qual o Brasil não queria lidar – e muito menos, gostaria que o mundo soubesse.

Curiosamente, as aquarelas de Debret eram restritas a um público específico: os franceses. No entanto, os livros não fizeram muito sucesso na Europa, pois outros pesquisadores e artistas haviam publicado obras no mesmo estilo anos antes.

Livro de Jean-Baptiste Debret “Voyage Pittoresque et Historique au Brésil", publicado de 1834 a 1839 na França

Acervo O Globo

– Na França, só quem se interessa pelo Brasil conhece [o trabalho do Debret]. No geral, um francês comum não vai saber quem é – opina Ana Cavalcanti, que morou em Paris nos anos 90, quando cursava o doutorado.

Atualmente, essas gravuras são consideradas importantes documentos históricos da época. As imagens frequentemente ilustram estudos e pesquisas sobre o sistema colonial. Não à toa, as obras influenciaram a visão europeia sobre a cultura e os costumes brasileiros.

Ao longo das décadas, o Rio de Janeiro continuou a ser eternizado. O alagoano Augusto Malta foi nomeado como fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio, cargo criado especialmente para ele, em junho de 1903. A iniciativa veio do recém-eleito Pereira Passos, que caminhava em direção à Reforma Urbana. O prefeito realizou uma mudança radical na cidade com inspiração direta nos visuais das capitais europeias, sobretudo Paris, na França.

– Malta foi contratado para registrar um Rio de Janeiro que está desaparecendo com as transformações urbanas do início do século 20. A princípio, não era um trabalho para ser divulgado para o público. Ele escolheu fotografias que mostravam um Rio “europeizado” após a Reforma Pereira Passos – avalia Ana.

O prefeito visava repaginar o Rio, até então capital do Brasil, aos olhos do mundo. Pereira Passos se conectou com valores do “mundo moderno” para desvincular a imagem escravista do país, reforçada internacionalmente pelas aquarelas e gravuras de Debret. As reformas serviram como oportunidade para enfrentar os problemas de insalubridade e mudar a fama negativa da cidade, conhecida por epidemias e pelo saneamento precário.

Conheça as fotos mais simbólicas de Malta do Rio de Janeiro

A historiadora da arte ressalta que o fotógrafo capturou a vida burguesa nos espaços públicos da cidade e evidenciou como as reformas remodelaram o Rio de Janeiro. Ana Cavalcanti avalia que as fotografias revelaram uma “Paris Tropical” e apresentaram a cidade como uma capital europeia no Brasil.

Augusto Malta assumiu o compromisso de documentar obras, eventos e transformações urbanas cariocas, tal como a criação da Avenida Central (atualmente, Avenida Rio Branco). Apesar do caráter “publicitário”, as fotografias se tornaram testemunhos históricos.

As reformas impactaram profundamente a configuração urbana do Rio de Janeiro. Com a demolição de cortiços e o avanço das obras de modernização, grande parte da população de baixa renda foi forçada a deixar o centro e se deslocar para áreas periféricas. O processo elevou o valor dos imóveis na região central e acentuou a desigualdade no acesso à cidade. Essas intervenções contribuíram para o surgimento das primeiras favelas cariocas.

– O Rio de Janeiro era a capital de uma república pós-escravista ainda muito racista. E queria de todas as formas se livrar de sua fisionomia colonial. Assim como Debret, Malta teve a sagacidade de capturar essa cidade em transformação – observa o historiador Pedro Mendes.

Em 1905, o fotógrafo, encantado pelo mundo dos cartões postais, filiou-se à Sociedade Cartófila Emmanuel Hermann. Na década seguinte, começou a editar o próprio material e criou a série “Edições Malta”. Estampadas nos bilhetes, as fotografias da cidade europeizada começaram a ser amplamente reproduzidas.

Fotografia do Beco da Batalha, no Rio de Janeiro, tirada por Augsuto Malta em 1907

Augusto Malta/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles

Por outro lado, a professora universitária destaca uma parte pouco conhecida do trabalho de Malta: registros do “velho Rio”. O fotógrafo clicou demolições em andamento, prédios antigos antes de serem destruídos e pessoas pobres pelas ruas.

– O que acho interessante no trabalho do Malta são as fotografias que não foram feitas para virar cartão-postal, como cenas das casas que ainda seriam demolidas e dos quiosques com os “populares” (pessoas mais pobres). Nessas imagens, o Rio se aproxima das ruas retratadas por Debret – atenta a professora da UFRJ.

Fotografia de um quiosque ao lado da Câmara dos Deputados do Rio de Janeiro, na rua Primeiro de Março, tirada por Augusto Malta em 1911

Augusto Malta/Coleção Gilberto Ferrez/Acervo Instituto Moreira Salles

Os pesquisadores Ana Cavalcanti e Pedro Mendes concordam que as aquarelas francesas têm grande importância como registro da história do Rio de Janeiro. Ela lembra que “os próprios brasileiros não estavam retratando” esse aspecto da terra natal.

– Por mais que a gente pense que é apenas uma leitura da realidade, trata-se de uma visão que se aproxima dela. Esse conjunto de pinturas nos permitiu ter um vislumbre de como era o Rio de Janeiro naquela época. E as do Malta também viraram fotos do Rio “antigo” [nos dias de hoje] – destaca Ana.

As fotografias de Augusto Malta podem ser pesquisadas nos acervos online do Arquivo da Cidade e do Instituto Moreira Salles. As aquarelas de Jean-Baptiste Debret estão expostas no Itaú Cultural, no Espaço Olavo Setubal, na Pinacoteca de São Paulo e no Museu do Ipiranga, na capital paulista. No Rio de Janeiro, é possível vê-las no Museu Castro Maya.

Segundo o pesquisador, as marcas do Rio “moderno” ainda são visíveis pela cidade: o Porto e as Avenidas Rio Branco, Mem de Sá e Salvador de Sá, no centro. Mendes descreve que “as delimitações da zona Sul como áreas das elites de classe média e classe média alta aconteceram no tempo de Augusto Malta como fotógrafo”.

Aquarela "Aplicação do castigo do açoite/negros no tronco" de Jean-Baptiste Debret no início do século XIX (entre 1916-1831)

Acervo O Globo

– A cidade de Debret não desapareceu por completo e a de Malta ainda está entre nós de muitas formas. O Rio continua obcecado em parecer atual aos olhos do mundo, mas escolhe o que decreta como moderno e esconde o resto. É sempre uma modernização conservadora e excludente.

– As duas produções nos fazem entender melhor a evolução do Rio de Janeiro e da população carioca. Acredito que todo registro é bem-vindo. Precisamos preservar e cuidar. Fala de nós mesmos. Nos ajudam aos poucos a entender quem somos – completa a professora.

Para Pedro Mendes, Jean-Baptiste Debret e Augusto Malta foram mais do que documentaristas, retratistas e cronistas do cotidiano: atuaram como historiadores da cidade. O pesquisador salienta que, em momentos distintos, ambos escreveram a história de um Rio em constante transformação e movimento a partir das imagens.Sentimento de pertencimento europeu

– As duas produções [de Debret e de Malta] nos fazem entender melhor a evolução do Rio de Janeiro e da população carioca. Todo registro é bem-vindo. Precisamos preservar e cuidar. Fala de nós mesmos. Nos ajudam aos poucos a entender quem somos – completa a professora.

Sentimento de pertencimento europeu

A historiadora da arte Ana Cavalcanti observa que, em diferentes contextos, Jean-Baptiste Debret buscou evidenciar o que diferenciava o Brasil da Europa, enquanto Augusto Malta procurou mostrar aquilo que aproximava o país do velho continente.

“A recepção dessas obras fala muito do pensamento da elite brasileira”, pondera Ana. O desconforto diante das imagens da escravidão, contrastado com a aceitação das fotos de inspiração europeia, revela o ideal de pertencimento europeu cultivado por esse grupo social.

A professora universitária descreve que a postura de “rejeição a um país que é diferente da Europa” evidencia o sentimento de parte da elite brasileira, que “tem vergonha do Brasil e desejo de aproximação” com ideais do outro lado do mundo. É uma continuidade do pensamento desses grupos nos séculos 19 e 20.

– Hoje, estamos cada vez mais reconhecendo as nossas diferenças. Não somos como os europeus. A gente tem, é claro, uma herança intelectual europeia, como as universidades e os museus, mas a nossa sociabilidade e a maneira de viver têm muito a ver com a África e com os indígenas.

Para descrever a relação complexa dos brasileiros com o sentimento de pertencimento, a professora faz referência à obra “Atração do mundo”, escrita em 1900 pelo historiador e ex-embaixador brasileiro nos Estados Unidos (EUA) Joaquim Nabuco. No capítulo “Minha formação”, o autor apresenta o “mazombismo”.

“Na Europa nos falta a pátria, isto é, a forma em que cada um de nós foi vazado ao nascer. De um lado do mar, sente-se a ausência do mundo; do outro, a ausência do país. O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação, europeia”, define Nabuco.

Fotografia da fachada do hotel Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, tirada por Augusto Malta em 1925

Acervo da Fundação Biblioteca Nacional - Brasil

– É uma “vergonha” brasileira, mas não uma rejeição completa. – esclarece Ana. – É a história do mazombismo. Os brasileiros, quando estavam na Europa, sofriam de saudade da pátria. Ao mesmo tempo, quando estavam aqui, sentiam falta da Europa. É ambíguo. Eles também se sentiam brasileiros.

A passagem reflete a dualidade entre o apego à identidade nacional e a atração pela cultura e civilização europeias. Uma postura que perdura até a atualidade para muitas pessoas.