Imigrantes criam 'casamentos falsos' no Facebook para obter vistos e evitar deportação no Reino Unido, diz jornal
Uma denúncia do jornal britânico The i Paper, publicada nesta quinta-feira (23), revelou a existência de um mercado informal de casamentos de fachada operando em grupos do Facebook, com anúncios feitos por imigrantes interessados em obter visto para permanecer no Reino Unido. O caso, que veio à tona após investigação do veículo, expõe como redes sociais têm sido utilizadas para facilitar práticas ilegais ligadas à imigração.
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De acordo com a reportagem, usuários publicavam mensagens em grupos de relacionamento voltados a migrantes, descrevendo-se como “corações solitários” enquanto buscavam acordos que envolviam casamento, muitas vezes explicitamente com o objetivo de regularizar a situação migratória. Entre os exemplos identificados, estava o de um jovem de 20 anos que admitia enfrentar dificuldades com o visto e procurava um “contrato ou casamento de verdade”. Outro anúncio mencionava a busca por um noivo para uma mulher em situação irregular no país.
O The i Paper encontrou publicações semelhantes em ao menos oito grupos públicos. Após ser alertada pelo jornal, a Meta, empresa responsável pelo Facebook, removeu o conteúdo por violar suas políticas contra atividades fraudulentas, incluindo tentativas de obtenção ilegal de vistos.
Embora muitos participantes dos grupos compartilhassem preferências pessoais típicas de plataformas de relacionamento, parte dos anúncios deixava claro o interesse em obter статус legal. Em uma das mensagens, um solicitante de asilo afirmava estar “à procura de uma noiva no Reino Unido” e informava seu local de residência. Em outro caso, uma mulher buscava uma cidadã britânica para casar com seu cunhado, que estava no país com visto de cuidador.
A investigação também identificou abordagens mais elaboradas, como a de um homem que se oferecia como marido com “compromisso inabalável” em troca de ajuda para cumprir exigências salariais de um visto de trabalho. Outros usuários destacavam possuir residência permanente para atrair parceiros interessados em regularizar sua situação.
Casamentos de fachada violam leis britânicas e podem resultar em deportação ou na recusa de entrada no país. Embora não constituam um crime específico, essas práticas podem se enquadrar em infrações como facilitação de imigração ilegal, com possibilidade de prisão em alguns casos. Entre novembro de 2018 e maio de 2024, foram registradas 11 condenações relacionadas ao tema.
Dados obtidos por meio da lei de acesso à informação indicam que 1,2% dos mais de 107 mil casamentos registrados entre 2016 e 2022 foram sinalizados como suspeitos. Especialistas, no entanto, destacam que a maioria das uniões envolvendo estrangeiros é legítima.
Para o pesquisador Peter Walsh, do Observatório de Migração da Universidade de Oxford, o fenômeno não é novo, mas ganhou visibilidade com as redes sociais. Segundo ele ao jornal, essas plataformas tornam a prática “mais fácil de organizar e mais visível”.
Profissionais da área de imigração ouvidos na reportagem afirmaram que a existência desse tipo de esquema prejudica casais genuínos, que precisam enfrentar processos mais rigorosos. Em casos suspeitos, autoridades britânicas podem exigir documentos detalhados e até questionar aspectos íntimos da convivência do casal para verificar a autenticidade da relação.
O Ministério do Interior do Reino Unido declarou que investiga ativamente possíveis fraudes e que atua para impedir a concessão indevida de vistos. Ainda assim, a dimensão real do problema permanece incerta, assim como a taxa de sucesso dos anúncios publicados nas redes sociais.
Apesar disso, o tema já se tornou recorrente nesses grupos, a ponto de alguns usuários fazerem piadas sobre o uso de relacionamentos como meio para obtenção de visto, um sinal de como a prática, embora ilegal, passou a circular com relativa naturalidade nesses ambientes digitais.
