Imagens de satélite mostram escala de demolições israelenses no Líbano, com mais de 1,4 mil edifícios destruídos em um mês

 

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Pouco mais de um mês após Israel lançar sua ampla ofensiva contra o Líbano, cidades e vilarejos no sul do país foram arrasados por demolições israelenses, segundo imagens de satélite e vídeos obtidos pela BBC Verify. A análise, divulgada nesta quinta-feira, identificou mais de 1,4 mil edifícios destruídos desde 2 de março com base em evidências visuais verificadas. O levantamento, no entanto, é descrito como apenas um recorte dos danos totais, já que o acesso ao terreno é limitado e a disponibilidade de imagens de satélite é parcial.

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As demolições ocorrem após o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, ordenar, em 22 de março, a aceleração da “destruição de casas libanesas” perto da fronteira com Israel, citando o “modelo de Gaza” a ser adotado como parte da campanha contra o Hezbollah. Especialistas em direito internacional disseram à rede britânica BBC que a demolição sistemática de cidades e vilarejos pode configurar crime de guerra.

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Ainda assim, nesta quinta-feira, pelo menos 11 pessoas, incluindo mulheres e crianças, foram mortas em ataques israelenses, e o Exército de Israel destruiu a ponte Qasmiyeh, a última que ligava o sul do Líbano ao restante do país. Segundo um alto funcionário de segurança libanês, a ação “despedaçou” a estrutura e não deixou possibilidade de reparo. Israel já havia atingido a ponte em 23 de março, acusando o Hezbollah de utilizá-la para deslocar combatentes e armas. Na ocasião, Beirute classificou a ofensiva como uma “escalada perigosa”.

Nas últimas semanas, as Forças Armadas de Israel emitiram repetidos alertas para que civis no sul do Líbano evacuem para o norte do rio Zahrani, que fica ao norte do rio Litani. Segundo o governo libanês, mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas desde o mês passado, o que corresponde a aproximadamente um quinto da população local. O ritmo de deslocamento nesta fase do conflito foi descrito pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) como mais acelerado do que durante a escalada de 2024.

“A destruição deliberada de casas é uma arma de guerra e uma forma de punição coletiva, particularmente em áreas xiitas no sul rural do país. Também aponta para limpeza étnica”, alertaram especialistas da ONU. “O deslocamento forçado de uma população civil constitui crime contra a Humanidade e é um crime de guerra sob o direito internacional”.

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O Exército de Israel, por sua vez, afirmou operar de acordo com a Lei dos Conflitos Armados, conjunto de normas internacionais que visa limitar os efeitos das guerras, proteger civis e não combatentes, e restringir os métodos de combate, e disse não permitir a destruição de propriedades a menos que haja necessidade militar imperativa. Também alegou, sem provas, que o Hezbollah instalou infraestrutura militar em áreas civis.

Destruição total

A escalada no conflito foi iniciada em 2 de março, quando o Hezbollah, apoiado pelo Irã, lançou foguetes e drones contra Israel em retaliação pela morte do líder supremo iraniano no início da guerra contra a República Islâmica. Na ocasião, as forças israelenses responderam com uma onda de ataques em todo o Líbano e iniciaram uma invasão terrestre no sul do país. Autoridades do Estado judeu ordenaram que civis libaneses próximos à fronteira deixassem suas casas, um alerta que foi ampliado para moradores ao sul do rio Litani dias depois.

O Ministério da Saúde do Líbano afirma que mais de 2 mil pessoas foram mortas desde o início da guerra, e que outras 6,5 mil ficaram feridas. Autoridades israelenses disseram que 13 soldados e dois civis foram mortos pelo Hezbollah nas seis semanas anteriores. Em cidades e vilarejos fronteiriços situados em colinas, vídeos verificados mostram áreas antes marcadas por ruas sinuosas e edifícios de pedra agora cobertas por poeira e destroços.

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Usando imagens verificadas e análise de satélite, a BBC Verify encontrou evidências de demolições controladas em pelo menos sete cidades e vilarejos fronteiriços. A cidade de Taybeh, a cerca de quatro quilômetros da fronteira, foi alvo de demolições intensas, com vídeos mostrando seções inteiras sendo explodidas simultaneamente. Uma comparação entre imagens de satélite de 28 de fevereiro e 11 de abril mostra que mais de 400 edifícios, incluindo uma mesquita, foram arrasados na região.

Em Khiam e nos vilarejos de Qouzah, Deir Seryan, Markaba e Aita al-Shaab, vídeos verificados também mostram explosões coordenadas atingindo vários prédios. Apenas neste último, mais de 460 edifícios foram demolidos, e imagens de satélite também mostram escavadeiras e veículos blindados no local. Na cidade costeira de Naqoura, explosões israelenses danificaram a sede da missão de paz da ONU.

A demolição deliberada de estruturas já foi empregada em áreas de Gaza após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023. Renad Mansour, da Chatham House, disse haver uma estratégia para revisar o equilíbrio de poder na região, enquanto a porta-voz da Força Interina da ONU no Líbano, Kandice Ardiel, disse observar demolições regulares de vários edifícios ao mesmo tempo desde o início de abril. Análises de satélite indicam que pelo menos 100 edifícios foram arrasados em Naqoura nas últimas semanas.

— Não são apenas edifícios, eles representam uma comunidade — afirmou Ardiel, ao descrever a escala da destruição como “verdadeiramente devastadora”.

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O plano de Katz para uma “zona de segurança” controlada por Israel, da fronteira até o rio Litani, ocuparia cerca de 10% do território libanês. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a medida serviria para “frustrar a ameaça de invasão”. Especialistas jurídicos ouvidos pela BBC, porém, afirmam que a destruição de propriedades é proibida pelo direito internacional humanitário, salvo quando exigida por necessidade militar. A professora Janina Dill disse que o critério é mais elevado do que vantagem militar.

— Certamente não abrange arrasar vilarejos inteiros como condição para a segurança nacional de longo prazo — afirmou.

O especialista Yuval Shany disse que a avaliação deve ser feita caso a caso para determinar quais edifícios têm relevância militar, acrescentando que o possível uso militar de estruturas civis não justifica uma política ampla de destruição. Também à rede britânica, a jurista Lawrence Hill-Cawthorne reiterou que objetos civis não devem ser alvo e que a criação de uma zona de amortecimento não justifica destruição total.

— Não é uma defesa admissível afirmar que a destruição total de cidades e vilarejos é necessária para criar uma zona de amortecimento — disse.

As forças israelenses responderam dizendo que qualquer sugestão de “limpeza” de populações civis ou punição com base em religião ou seita é “categoricamente falsa”. Também afirmaram que os avisos não têm a intenção de deslocar permanentemente civis.