Imagem do mundo invertido no dia da morte de um amigo (Ronaldo Araújo) do século passado

Imagem do mundo invertido no dia da morte de um amigo (Ronaldo Araújo) do século passado - Foto
Fonte da notícia: Jornal Opção Jornal Opção

Toda manhã, o grande amigo Ailton Lima me envia pelo WhatsApp um bom dia acompanhado de uma música. No dia 21 de outubro, não faltou o gesto.

No entanto, logo depois ele me comunicou a morte de Ronaldo Araújo, 72 anos, amigo em comum desde o século passado. Eu não via o Ronaldo, produtor de cinema com quem trabalhei por mais de 20 anos, desde 2011.

Achei até que a gente estava brigado, mas não havia um motivo. Acabou que conversamos no ano passado, depois de eu publicar um relato de viagem à Ilha do Bananal que fizemos eu, o Ailton e ele em uma navegação de duas semanas por mais de mil milhas náuticas.

O objetivo era fazer a pré-produção de um filme que faríamos sobre toda a extensão do Rio Araguaia. Ao chegar em campo, acabou que o trabalho virou uma farra.

Como eu não sabia pescar nem cozinhar, meu serviço braçal nas praias desérticas do Rio Araguaia era buscar lenha para a fogueira da noite de uísque e peixe. Como será o mundo invertido dos amigos mortos? | Foto: Marcio Fernandes/2026

Sempre aparecia do nada um cachorro ou vários em minha perseguição e eu gritava “me socorre, Ronaldo” em veloz retirada. Lembro do Ailton comentar que, se dependesse da minha coragem, estaríamos perdidos.

Como era um grande fotógrafo, ele deve ter guardado essas imagens em algum lugar. Era incrível, pois enquanto eu cuidava da embaixada da nossa expedição com o cara que mandava na aldeia, o Ronaldo já estava no meio dos índios, cercado de crianças, a distribuir pedaços de rapadura, além de fotografar, é claro

Nessa viagem, com autorização da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), meu serviço era basicamente fazer o primeiro contato com os chefes das tribos, marcar nos mapas náuticos as coordenadas de um GPS primitivo e fazer as anotações do ambiente. Era incrível, pois enquanto eu cuidava da embaixada da nossa expedição com o cara que mandava na aldeia, o Ronaldo já estava no meio dos índios, cercado de crianças, a distribuir pedaços de rapadura, além de fotografar, é claro.

Apesar de ter sido o cara da produção audiovisual de Goiás, Ronaldo era quase zero de vaidade. Ele não dava a mínima para ser reconhecido como um grande artista.

Por outro lado, sabia liderar a produção desde um simples comercial de TV até uma campanha eleitoral, passando por documentários de peso. O filme era meu, mas a palavra final era sempre do produtor e diretor que não trabalhava com o erro.

Em qual céu estará um homem feito de imagem? | Foto: Marcio Fernandes/2026 O Ronaldo Araújo era um gozador da piada criada na hora.

Lembro de ter chegado à Ideia Produções, feliz por sair por aí com uma camisa nova listrada. Estava em pós-produção um documentário que eu havia roteirizado.

Logo que entrei no escritório do produtor, ele me indagou com grande efusividade: “Gonzalez, onde foi que você arrumou essa camisa de pano de colchão?” Na seleta turma, ele me chamava de Gonzalez e o Ailton me pôs o apelido Yoritaxi, em referência a um índio super excomungado que encontramos na expedição e queria, porque queria, ficar com meu colete de jornalista.

Ao voltar à mesa, Nana Caymmi convidou Ronaldo Araújo para se juntar ao grupo e escreveu um poema para ele na comanda do bar, com o número do telefone anotado. Simplesmente, o maître se recusou a liberar a comanda

Ronaldo ficou muito sentido numa noite no antigo Plataforma, no Leblon, depois da gente ter feito uma semana de trabalho duro nos estúdios da Rede Globo para a campanha Goiás Contra o Crime, em 1999, liderada pelo jurista Demóstenes Torres e pelo músico Zezé Di Camargo. A gente estava moído, mas era a última noite no Rio de Janeiro e havia um show da Sueli Costa ao piano e banda no Plataforma.

Na mesa ao lado estava a Nana Caymmi com um pessoal. A Sueli Costa estava tão embriagada que não conseguia se postar na banqueta do piano.

Nana assumiu o show e fez o grande espetáculo da noite. Ao voltar à mesa, convidou o Ronaldo para se juntar ao grupo e escreveu um texto para ele na comanda do bar, com o número do telefone anotado.

Simplesmente, o maître se recusou a liberar a comanda, pois era um documento da contabilidade da casa e ponto final. Não foi nada; o grande gozador só perdeu um poema da Nana Caymmi.

No outro dia, a gente estava feliz no Aeroporto Santos Dumont à espera do voo para Goiânia com um bom estoque de material muito bem produzido para uma grande campanha publicitária. No dia 21, saí de casa para caminhar muito triste com a morte do Ronaldo.

É como se começasse para mim a era dos amigos que estão morrendo. Ele vai continuar na minha agenda, como faço com todos os que se foram.

Para o Ronaldo Araújo eu fiz uma fotografia de uma poça de água para tentar identificar o mundo invertido em que ele se encontra agora, com a bondade e proteção de Deus. Marcio Fernandes, jornalista, é colaborador do Jornal Opção

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