Ilha da Gigoia aposta no Comida di Buteco para ganhar visibilidade e desfazer fama de insegura; conheça os bares participantes em 2026

 

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Cinco restaurantes da Ilha da Gigoia participam da edição deste ano do Comida di Buteco — um salto considerável em relação a 2025, quando apenas o Deck Bar representava a região. Dois dos estabelecimentos ficam à beira da lagoa, enquanto outros três ocupam a rua principal da ilha, ampliando o circuito gastronômico para além do eixo mais conhecido.

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A adesão ao concurso ocorreu por decisão de cada empreendedor, mas é vista como estratégica para fortalecer a gastronomia local, na opinião de Michele Coelho, presidente do recém-formado Polo Gastronômico das Ilhas da Barra.

— Este é um evento importante para a Ilha da Gigoia, traz muitos visitantes. Já estamos acompanhando um aumento de procura. No domingo passado, por exemplo, os barqueiros contaram que a rotatividade foi maior. Inclusive, futuramente, se o Comida di Buteco vier a conversar com a gente como polo, será ótimo — afirma.

Deck Bar

À frente do veterano local do concurso, o Deck Bar, aberto há 14 anos, Railda Piloto conta que criou o negócio sozinha, à beira da lagoa. “Meu sócio é Deus”, brinca. A história começa de forma improvável: baiana, ela deixou a terra natal ainda criança, fugindo da fome, e anos depois chegou à Ilha da Gigoia por acaso, ao visitar um conhecido que tinha uma pousada na região. Encantada com o lugar, decidiu ficar e apostar no sonho de abrir um bar.

Ela o construiu aos poucos, na parte dos fundos da própria casa: tirou a piscina, começou reformando o andar de baixo e, com o tempo, foi ampliando o restaurante, que hoje ocupa dois andares com vista para a lagoa.

A casa tem como carro-chefe os frutos do mar, mas mantém opções variadas, inclusive para quem não consome peixe ou carne. Para o Comida di Buteco deste ano, cujo tema são as verduras, a aposta foi adaptar um bolinho com o ingrediente exigido pela competição. Surgiu assim o “Dupla sensação”, que tem massa de arroz crocante por fora e é recheado com camarão e brócolis.

Mais do que a comida, a experiência é parte central no Deck Bar, que aposta no clima tranquilo e familiar da Ilha da Gigoia, ainda pouco explorada por muitos moradores da própria Barra, observa Railda.

— É um lugar maravilhoso, é uma paz... Olha as ondas batendo — diz ela, contemplando a lagoa.

Concorrendo no Comida di Buteco há cinco anos, Railda disse que não foi fácil entrar na lista dos participantes: o ingresso é só por indicação, explica, e ela contou com a recomendação de um restaurante vizinho, que na época participava do concurso, para ser aceita.

— Este ano entraram mais quatro bares da Ilha da Gigoia. Isso para a gente é importante. Do dia 10 (início do concurso) para cá, notamos um levante na Ilha da Gigoia, e no meu bar ele foi sensacional. A gente estava praticamente parada; o mercado está parado — diz.

Os participantes podem tirar o petisco criado para o concurso do cardápio depois de um ano. Mas nem sempre os clientes deixam.

— O "Bolinho de Foda" (com carne de leitão desfiada, provolone e catupiry em massa folhada), que também fiz para um Comida di Buteco, ficou tão famoso que vem gente de Portugal e de todo o Brasil para provar — conta Railda.

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Ilha da Fantasia

Em outro ponto da ilha, também à beira da lagoa, Eduardo Zanobini administra com sua irmã o Ilha da Fantasia, negócio que surgiu há cerca de dois anos. Desde o início, a aposta para o crescimento foi o meio digital, com campanhas nas redes sociais e parcerias com influenciadores.

Ilha da Fantasia: donos da casa aberta há dois anos apostaram no “Bobozinho fantasia”, que leva camarão, lula e mexilhão

Sophia Lyrio

— De um ano e meio para cá começou a dar resultado; o fluxo aumentou bastante — conta.

Esta é a primeira participação da casa no Comida di Buteco, visto por Zanobini como uma oportunidade de divulgação. Ele conta que o impacto foi imediato: aumento de movimento ao longo da semana, especialmente em dias antes mais fracos, como segunda-feira, e mudança no perfil de consumo.

— O público vem mais focado em petisco e cerveja. A venda de prato principal caiu, mas a de petisco subiu bastante — explica.

Apesar de por esse motivo a margem de lucro ser menor no fim de semana, ele considera o balanço positivo, sobretudo pelo ganho de visibilidade e a atração de novo público.

— O faturamento se manteve, e a divulgação está valendo muito a pena. A gente está fidelizando clientes — avalia. — O evento também ajuda a ampliar o alcance da ilha como destino gastronômico; traz um público que muitas vezes a gente não conseguiria atingir só pelo Instagram.

Para a competição, o restaurante escolheu o “Bobozinho fantasia”, um bobó servido como petisco individual. A receita leva camarão, lula e mexilhão, mantendo a linha da casa, especializada em frutos do mar, uma tendência entre os restaurantes da região.

Servido em uma pequena cumbuca, o prato é pensado para consumo individual, mas pode ser compartilhado.

— Ele é um petisco, mas vem bem servido. Tem gente que divide — diz.

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Cantinho da Gigoia

Já na rua principal da Ilha da Gigoia, a Alameda Dalton Barreto, Thayna Ferreira conduz, com o marido, o Cantinho da Gigoia, aberto há sete anos, depois de o casal ter mantido uma pequena hamburgueria numa rua menos movimentada da ilha. Para a estreia no Comida di Buteco, o restaurante apostou no “Arquipélago de sabores”, um pastel de moqueca recheado com lula, polvo, camarão e filé de linguado desfiado. Frito no dendê, o petisco busca referência direta na tradição baiana, especialidade da casa.

Thayna, do Cantinho da Giogia, acredita que concurso levará mais público à ilha

Sophia Lyrio

A apresentação é um diferencial. Os pastéis são servidos sobre uma maquete que reproduz a Ilha da Gigoia e o complexo lagunar da região, com direito a capivaras e jacarés. O prato é acompanhado ainda de uma geleia artesanal de frutos do mar com pimenta-biquinho. A receita já fazia parte do cardápio e foi adaptada para o formato do concurso.

Thayna explica que sempre sonhou ter um restaurante, mas, sem capital suficiente, o casal começou como dava. A boa resposta do público fez com que os dois dessem um passo maior e migrassem para a parte mais valorizada da ilha, onde estão há cinco anos. A escolha do cardápio tem raízes familiares. Filha de pescador, Thayna cresceu em contato com o mar e levou essa herança para a cozinha.

— A gente não tinha dinheiro para nada, era um sonho só. Eu ficava na cozinha, meu marido atendia, ou então a gente fazia tudo junto. Foi bem na luta mesmo — conta.

Com o tempo, o restaurante foi ganhando forma: vieram reformas, equipe e expansão. Hoje, o Cantinho da Gigóia conta com nove funcionários, em sua maioria mulheres, uma escolha consciente da proprietária.

A participação no Comida di Buteco marca um novo momento. A empreendedora vê uma oportunidade de reposicionar não só o restaurante, mas a própria ilha. Para ela, é uma chance de desfazer percepções distorcidas sobre a ilha, que nos últimos anos acabou associada a problemas de segurança sem que isso corresponda à realidade, afirma.

— Acho que isso tudo está dando uma visibilidade muito grande e mostrando que aqui é um lugar de paz, que não tem nada a ver com o que muita gente pensava — diz.

Kai

Um pouco à frente do Cantinho da Gigoia, também na rua principal, Vanessa Marques e o filho Kauã Pereira comandam o Kai, um negócio familiar que completa dois anos em maio. Inspirada na cultura praiana, a casa tem um nome havaiano, que significa “aquele que vem do mar”, refletindo sua proposta.

Mãe e filho: Vanessa e Kauã são sócios do Kai

Sophia Lyrio

— A gente gosta muito dessa energia de praia, de natureza. O nome Kai veio disso — explica Vanessa.

Para o Comida di Buteco, o restaurante apostou na releitura de um prato já conhecido do cardápio: escondidinho de salmão com alho-poró. Além dele, fez também outro escondidinho de rúcula e gorgonzola e juntou os dois no petisco batizado de ‘“Aquele que vem do mar”.

Esta é a primeira participação do Kai no concurso, e os donos já perceberam impacto no movimento.

— Nem datas comemorativas, feriados importantes, deram essa quantidade de público — festeja Vanessa, para quem o concurso ajuda a ampliar o olhar sobre a ilha. — É uma oportunidade de mostrar que existe a rua principal, não só os restaurantes à beira da lagoa.

Ilha Gourmet

No finalzinho da mesma rua, as irmãs Clarice e Clélia dos Santos tocam o Ilha Gourmet depois de uma trajetória marcada por recomeços. Clarice ficou com o restaurante após a separação, enquanto Clélia se mudou de São Paulo para ajudá-la pouco antes da pandemia, que foi o período mais desafiador: com dívidas acumuladas e sem crédito, as duas apostaram no delivery para manter o negócio de pé.

Releitura de vaca atolada, opção do Ilha Gourmet

Sophia Lyrio

— A gente pegou (o estabelecimento) com mais de R$ 100 mil em dívidas. Era trabalhar hoje para comprar amanhã — lembra Clélia.

Aos poucos, elas reestruturaram o espaço, que antes era um galpão simples, até chegar ao formato atual, com cardápio variado e ambiente mais confortável.

A casa apostou em um caminho diferente da maioria dos vizinhos e escolheu a carne suína como base do petisco para a competição. O prato “Caçarolinha da saudade” é uma releitura da vaca atolada: costelinha suína assada, com aipim cozido e pimentões. A inclusão do vegetal, como pede o concurso, veio após ajustes na receita.

— No começo ficava ressecado. Aí fomos testando, pedindo dicas, até chegar no ponto — conta Clélia, salientando que o resultado combina com a tradição gaúcha da família.

Outros participantes

Com o tema “verduras”, o concurso deste ano desafiou os participantes a incluírem nos petiscos esses ingredientes, que costumam ficar de fora. Este ano, o Comida de Buteco tem 107 concorrentes no Rio. Na Zona Sudoeste, são 20. Entre os estreantes na região estão o Alvoroço, em Jacarepaguá; o Boteco do Russo, no Anil; o Fregola Pub, na Freguesia; e o Vem Praká, na Taquara. Na Barra da Tijuca, participam pela primeira vez o Restaurante Gaia e a Toca dos Esquilos, além de quatro estabelecimentos da Ilha da Gigoia. Os pratos do concurso custam R$ 40. Se o cliente quiser, paga R$ 49,50 para ter direito também a uma cerveja de 600ml da Eisenhan.

Já os veteranos que seguem no circuito são o Empório Santa Oliva, em Jacarepaguá; o Formigueiro Brasa & Fogão e o Raízes Gastrobar, na Freguesia; o Art Chopp e o Tibar, na Taquara; o Vigal Bar e o Antônio’s Nordestino, no Tanque; o Bar do Thomaz, no Camorim; e a Queijaria de Vargem Grande, em Vargem Grande.

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