O iene disparou para uma máxima de sete meses nesta segunda-feira, à medida que os operadores parecem reavaliar suas perspectivas sobre a moeda, que vinha enfrentando dificuldades há muito tempo, impulsionadas por apostas em um aperto monetário mais acelerado pelo Banco do Japão (BoJ) e pela expectativa de que investidores japoneses possam repatriar recursos. A próxima reunião de política monetária do BoJ será na semana que vem.
O principal evento programado para a semana são os dados de inflação dos EUA na sexta-feira, que ajudarão a moldar a visão do Federal Reserve (Fed) sobre um aumento das taxas de juros ainda este mês e, consequentemente, a direção do dólar.
O Banco Central Europeu (BCE) também se reúne na quinta-feira, quando se espera amplamente que ele eleve as taxas de juros da zona do euro.
No entanto, até lá, o foco está totalmente voltado para o iene. O dólar chegou a ser cotado a 154,06 ienes, nos níveis mais baixos desde fevereiro, superando as mínimas registradas em agosto, quando Washington e Tóquio intervieram conjuntamente nos mercados para sustentar o iene, que na época estava em seu nível mais baixo em 40 anos.
Próximo às 10h (horário de Brasília), o dólar recuava 1,16% contra a moeda japonesa, cotado a 154,43 ienes. A dinâmica empurrava o índice DXY, que mede a relação da divisa americana frente a uma cesta de moedas fortes, para baixo, exibindo queda de 0,28%, aos 98,898 pontos.
Grande parte da valorização do iene decorrente daquela intervenção foi revertida rapidamente, mas novos fatores de impulso, como a repatriação de capital, o desmonte de operações de “carry trade” e a pressão política dos EUA, estão levando especuladores de curto prazo a repensar suas estratégias de longo prazo.
Lee Hardman, analista sênior de câmbio do MUFG, afirmou que o rompimento do nível de 155 parece ter reforçado o otimismo dos operadores em relação à moeda.
"Até agora, neste ano, quando vimos o iene se fortalecer após episódios de intervenção, o nível de 155 era onde a cotação dólar/iene tendia a encontrar um piso. Romper esse nível é um sinal de alta, e poderíamos ver mais valorização do iene", disse ele.
Os movimentos recentes foram drásticos; o dólar chegou a ser negociado acima de 160 ienes na última terça-feira.
"Podemos estar chegando a um ponto de virada", disse Hardman. "O mercado via isso como uma aposta de mão única, acreditando que o iene continuaria a se desvalorizar. Mas estamos começando a ver os primeiros sinais de que, com o Banco do Japão acelerando o ritmo de aumento das taxas de juros, isso está começando a surtir efeito."
A queda do dólar frente ao iene também afetou a moeda de forma mais ampla. O euro subia 0,11% e a libra tinha alta semelhante, de 0,18%.
Os operadores precificam uma chance de cerca de 57% de que o Fed aumente as taxas de juros neste mês, na esteira do relatório de emprego (“payroll”) de sexta-feira, que superou as expectativas; agora, muito depende dos dados de inflação desta semana.
"Um dado de inflação (CPI) elevado praticamente selaria um aumento em setembro e sustentaria um dólar mais forte. Uma leitura mais baixa fortaleceria o argumento pela manutenção das taxas e deixaria o dólar vulnerável a uma reprecificação do mercado para uma postura mais 'dovish' (menos agressiva) do Fed", disse Elias Haddad, chefe global de estratégia de mercados do BBH.
"Mesmo que um aumento de juros pelo Fed em setembro se torne certo, duvidamos que o dólar atinja novas máximas cíclicas. O aperto monetário por parte de outros grandes bancos centrais limita a divergência de políticas."
Os mercados precificam uma chance de 75% de que o BoJ aumente as taxas em um quarto de ponto percentual em sua reunião de 18 de setembro, com uma probabilidade de 60% de outra medida até dezembro.
A moeda japonesa disparou mais de 2% na semana passada, impulsionada por uma combinação de fatores, incluindo o desmonte de operações de “carry trade” e expectativas de repatriação de capital que fortaleceriam o iene.
Eric Robertsen, chefe global de pesquisa e estrategista-chefe do Standard Chartered, afirmou que, embora as operações de ‘carry trade” tenham apresentado um dos melhores desempenhos macroeconômicos no acumulado do ano, apesar da disparada global nos custos de captação, a recente onda de valorização do iene representa uma "ameaça potencial ao desempenho superior dessas operações".
"Se o iene se fortalecer de forma persistente, isso pode sinalizar que a alta das taxas de juros do iene e do dólar está começando a provocar uma mudança na alocação de ativos", disse ele.
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