Ideia de que PT e a esquerda não gostam dos evangélicos vai se manter viva nas redes após desfile na Sapucaí, diz historiador
O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Lula, pelo Grupo Especial do carnaval do Rio, gerou críticas. Evangélicos e católicos se sentiram ofendidos na representação que foi feita na ala "Neoconservadores em Conserva", que trazia famílias dentro de latas de conserva, algumas com adereços com referência religiosa. O tema ganhou maior dimensão pelos impactos que pode ter na imagem do presidente Lula, que concorre à reeleição.
O antropólogo e historiador, Juliano Spyer, autor de ‘Crentes’ e 'Povo de Deus', em entrevista aos âncoras Mílton Jung e Cássia Godoy no Jornal da CBN, destaca que a imagem dessa ala, particularmente, é quase que como uma confirmação o PT não gosta da família tradicional:
"Pode significar, na prática, que foi confirmado, pelo menos para essa liderança evangélica mais associada ao bolsonarismo, que o argumento usado já há duas eleições é coerente, faz sentido, ou seja, que o PT não gosta da família tradicional. Na medida que você coloca uma imagem da família heterossexual numa latinha, você está dialogando justamente com esse evangélico tradicional, geralmente pentecostal, muitas vezes morador da periferia, em boa parte pessoas que ou foram, de alguma forma, beneficiadas por programas do governo, ou têm parentes que foram e que, portanto, teriam uma disposição a apoiar e um sentimento de gratidão em relação ao presidente Lula. E há dez anos essas pessoas ouvem, olha, a esquerda não gosta de família. A imagem dessa ala, particularmente, é quase que como uma confirmação, olha, nós de fato vemos essa família heteronormativa, etc., como algo ultrapassado. E eu antecipo, imagino que isso vai ser usado amplamente até o final dessa eleição".
Juliano Spyer fala sobre a dificuldade do PT em lidar com os evangélicos. Ele acredita que essa é uma dificuldade geracional associada a essa liderança:
"Eu tenho impressão, depois de tantos anos acompanhando esse assunto e há tantos anos ouvindo a mesma coisa, o que falta para o PT aprender a conversar com os evangélicos, eu cheguei à conclusão, pelo menos uma impressão, que isso não vai acontecer. É uma dificuldade geracional associada a essa liderança. É um partido com uma liderança muito antiga, importante, relevante para a história do país, mas que cresceu muito envolvida principalmente pelo discurso da academia, um discurso principalmente dessa tradição iluminista que acha que Deus é bobagem ou é uma maneira de manipular as pessoas. E uma parte dela, pelo menos, também influenciada por visões marxistas, a mesma coisa, religião não só é uma bobagem, mas é o ópio do povo. E, por conta disso, esperemos as próximas gerações de políticos de esquerda".
O historiador cita a importância desse segmento no comportamento do eleitor brasileiro:
"Esse é um segmento graúdo, a gente está falando hoje, usando dados do Censo, de em torno de 27% dos brasileiros. Se diz com frequência que esse é o segundo maior grupo religioso depois do católico, que hoje tem em torno de metade, representa um pouco mais da metade dos brasileiros. Agora, católicos são todas as pessoas que se identificam dessa forma. O evangélico, geralmente, não só se identifica como ele pratica a fé, ele vai à igreja uma e, muitas vezes, duas vezes por semana. Se a gente levar em consideração prática religiosa, é possível, e essa não é uma informação disponível no Censo ou em outros estudos, é possível que a gente esteja falando do principal grupo religioso do Brasil".
