Ida do Brasil à Segunda Guerra Mundial: um absurdo esquecerem os pracinhas

 

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Enquanto a high society carioca e estrangeiros abonados se divertiam em bailes chiquérrimos no Copacabana Palace e faziam suas apostas no 13 ou no 27 nas roletas do Cassino da Urca, os soldados brasileiros enfrentavam uma árdua missão no frio desafiador da Itália: conquistar terrenos de inimigos mais acostumados ao clima e bem mais preparados belicamente. Para encarar as baixas temperaturas e ultrapassar a falta de equipamentos adequados, houve militares que forraram as botas com jornais. Era um método de aquecer e seguir em frente.

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Para quem acredita que a ida do Brasil à Segunda Guerra Mundial foi passeio de escola para a Quinta da Boa Vista, um recado: engana-se imensamente. Apesar de termos chegado nos últimos instantes do grande conflito, Monte Castelo era espaço estratégico de defesa alemã e não seria conquistado sem o sangue e o suor da nossa gente. Não havia proposta de rendição naquele instante. Os pracinhas, também sob a liderança do general gaúcho e estrategista militar José Batista Mascarenhas de Morais, tiveram inúmeras trocas de tiros com os opositores. Enquanto a moçada aqui bailava fumando charuto, esses homens arriscaram a vida para limpar a área e expurgar os nazistas.

Pois então...

Somente em solo europeu, nossas Forças Armadas tiveram quase 500 soldados mortos. Inicialmente, a extensa maioria foi enterrada em Pistóia, cidadezinha perto do Monte Castelo – até hoje há um cemitério de brasileiros que perderam a vida no conflito. Na década de 1950, começam a erguer um imponente espaço para abraçar os restos mortais dos militares tombados. Eles mereciam estar em solo nacional. Em 1960, em um Aterro do Flamengo abarrotado de gente, é inaugurado o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, popularmente conhecido como Monumento aos Pracinhas.

Sob a direção do coronel pernambucano Nemuel de Almeida, o Monumento permite que o visitante conheça a trajetória brasileira em solo europeu, veja de perto os armamentos e dificuldades, tenha contato com obras de arte relacionadas ao período (indico começar pelos azulejos na parte externa) e, entre outras, preste homenagem aos que se foram bravamente. No alto da escadaria, percebe-se uma tocha que não se apaga. É a lembrança ao soldado de identidade desconhecida.

Festa em Pistóia

Todos os anos, religiosamente, há festa em Pistóia. Motivo? Lembrar de quando a Força Expedicionária Brasileira libertou a região. O ponto alto é quando crianças italianas se apresentam.

O GLOBO na Guerra

A comunicação entre os soldados e suas famílias era amadora. Houve muita bateção de cabeça. Para piorar, nossos pracinhas não sabiam o que estava acontecendo no Brasil. Colaborando para resolver essa questão e servindo também como mais um estímulo às nossas tropas, O Globo lançou em 1944 “O GLOBO Expedicionário”, com edições exclusivas distribuídas nos campos de batalha. Os repórteres do jornal acompanharam tudo de perto.

Já no Acre...

Os soldados que não foram para a Europa acabaram indo para os seringais. Precisava-se de látex para sustentar as máquinas de guerra. Os Estados Unidos foram grandes compradores desse produto. Sem saberem nada de extração de borracha, os militares se embrenharam pela floresta e cumpriram a missão que foi dada. É, mas o então ditador Getúlio Vargas, que havia prometido benefícios, na hora de pagar, esqueceu. Os conhecidos “Soldados da Borracha” morreram sem, ao menos, receberem um aperto de mão.

Por fim...

O Monumento aos Pracinhas está em obras. Em obras bem demoradas, frise-se. Há a expectativa de que logo estará tudo pronto. Fica aqui o pedido, em especial para o Governo Federal, para que a gente olhe essa memória com mais cuidado. Eles merecem o máximo respeito.