Ibovespa, que iniciou 2026 batendo recordes, fecha no menor nível desde janeiro: o que sobrou da valorização da Bolsa no ano?

 

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A Bolsa de São Paulo, a B3, voltou a cair na sessão desta terça-feira, com o Ibovespa fechando no menor patamar desde 20 de janeiro passado, aos 174 mil pontos.

O principal índice da Bolsa brasileira, que registrou alta firme e chegou a acumular valorização de 23% no ano até meados de abril, reduziu seu ímpeto. Ainda sobrou uma gordura, mas agora o Ibovespa acumula uma valorização bem mais modesta no ano: 8%.

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Desde a pontuação máxima registrada no dia 14 do mês passado, acima dos 198 mil pontos, ao fechamento de hoje, o índice registra já perdeu 12%. Mas o que causou a perda de tração do mercado acionário brasileiro em tão pouco tempo? Entenda abaixo em três pontos:

1 - Conflito no Irã mais longo

Bandeira do Irã em meio a escombros de construção destruída em bombardeio em Teerã

Atta Kenare/AFP

Após dois meses e vinte dias de conflito no Oriente Médio, com o tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz comprometido e o preço do petróleo ainda acima dos US$ 100, a perspectiva é que a commodity se mantenha neste nível por um período maior que o estimado inicialmente, o que pode implicar em mais inflação e juros maiores nas economias em todo o mundo.

A duração do conflito é mais longa que o inicialmente esperado, e as negociações entre os EUA de Donald Trump e o Irã dos aiatolás seguem cercadas de incertezas.

No Brasil, que já convive com taxa básica de juros de dois dígitos, o que é desfavorável à valorização dos ativos de renda variável, os analistas falam em freio no já parcimonioso ciclo de cortes da taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,5% ao ano. Analistas de mercado já projetam inflação e juros mais altos no fim do ano hoje do que previam no início de 2026.

É que, como o petróleo é matéria-prima importante para transportes em todo o mundo, a elevação dos custos com combustíveis implica em um aumento de preços generalizado em bens e serviços nas economias globais. Se a inflação sobe, o Banco Central precisa ser mais rigoroso com a taxa de juros.

Pelo Estreito de Ormuz também trafegam navios carregados de fertilizantes, essenciais para a agricultura brasileira. Mais caros e com o fluxo restrito, esses insumos também colaboram para a alta dos alimentos.

— As expectativas inflacionárias para o mundo como um todo pioraram. Aqui, se a taxa terminal (ao fim do ano) prevista para a Selic estava por volta de 11,5% antes do conflito, hoje está por volta de 14%. Isso impacta num custo financeiro mais alto para as empresas por mais tempo — diz Marcel Andrade, responsável pela área de Soluções em Investimentos da SulAmérica Investimentos.

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Com custos de dívida maiores, fica mais difícil para as empresas destinarem dividendos mais gordos aos acionistas. E, com juros maiores, a tendência é de menor consumo dos produtos e serviços de empresas listadas, limitando seus resultados. Sem falar no menor interesse dos investidores pela renda variável, dificultado a valorização dos papéis na Bolsa.

2 - Realização de lucros e saída de estrangeiro

Painel de cotações da B3

Edilson Dantas/Agência O GLOBO

Outro aspecto do freio atual na Bolsa é o movimento de venda de papéis por investidores para realizar lucro, ou seja, vender na alta o que compraram na baixa. Nesse ponto, analistas destacam a saída de capital estrangeiro, que vinha adotando o Brasil com um de seus principais destinos desde o início do ano.

A Bolsa brasileira chegou a ver a entrada de R$ 65 bilhões do investidor estrangeiro, mas, desde meados de abril, vive uma reversão deste ímpeto. Somente em maio, essa classe de investidores já retirou R$ 9 bilhões do mercado de ações brasileiro. No ano, o aporte internacional está positivo em R$ 46,9 bilhões.

Para Fernando Fontoura, sócio da gestora Persevera Asset, a valorização firme do início do ano — que chegou a 23% em reais e superou os 30% se medida em dólares, comparação que importa para o estrangeiro — também contribuiu com o movimento de realização neste momento:

— Qual é a história ao longo deste ano? É essencialmente de movimentos liderados pelo investidor estrangeiro. E o que temos é pausa do gringo. Desde a metade de abril, o trade (investimento) deu muito certo e agora parece que o gringo resolveu “botar no bolso” — ele diz, referindo-se ao movimento de realização de lucros por investidores estrangeiros que surfaram a alta do Ibovespa.

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3 - Volta de apostas em IA

Após resultados fortes das big techs americanas no primeiro trimestre e mesmo diante do conflito no Irã, as apostas em inteligência artificial (IA) voltaram a tomar espaço na agenda dos investidores internacionais.

É que apesar de os países emergentes estarem se valorizando diante da tese de um dólar mais fraco — movimento iniciado no ano passado e que ajudou a impulsionar a Bolsa brasileira neste ano —, as companhias de tecnologia demonstram resiliência e entrega de lucros e dividendos. Boa parte dos recursos que estão deixando o Brasil estão indo atrás de oportunidades ligadas à tecnologia.

— O primeiro ponto é a reversão do fluxo de capitais. Existia dúvida grande sobre empresas de tecnologia grandes, sobre capex (investimentos) em IA. Por isso, os mercados emergentes vinham recebendo bastante fluxo. Só que os resultados das big techs no primeiro trimestre vieram fortes e a dúvida que se tinha sobre o capex parece sumir. Há a ideia de que (os investimentos) estão se pagando. Logo, houve reversão de fluxo de capitais para as empresas de tecnologia americanas — diz Andrade, da SulAmérica.

E o peso eleitoral?

Ainda que menor, as eleições presidenciais de outubro no Brasil estão, em parte, influenciando os preços do câmbio e do mercado acionário.

Os juros futuros, que projetam o ritmo de inflação nos anos seguintes, têm sido majoritariamente pressionados pela alta do preço do petróleo, mas também tem refletido o peso eleitoral, na avaliação de Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez.

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Para ele, a perda de competitividade do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como pré-candidato a presidência diante da revelação de ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, tende a pressionar a estimativa dos juros futuros. Isso porque o mercado lê a possibilidade de derrota do presidente Lula como uma chance de mudança na política fiscal do país e, consequentemente, uma desaceleração da trajetória de crescimento da dívida pública em relação ao PIB.

O impacto das revelações sobre a relação do senador com o banqueiro preso sob acusação de fraude financeira leva os investidores a trabalhar com maior probabilidade de reeleição do presidente.

— A mudança de um ciclo político era positiva para as perspectiva de reformas (dos gastos públicos). O nome que se mostrava favorito para fazer essas mudanças era o Flávio. Quando as pesquisas mostram que essa mudança de ciclo está mais difícil, você afasta a probabilidade de ter reformas a partir de 2027 — avalia ele, sobre o peso nos juros mais longos.

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A dívida pública deve ultrapassar os 80% do PIB neste ano, preveem algumas instituições financeiras. Esta relação é considerada sensível. Com este patamar, os investidores pedem juros mais altos para financiar o governo, já que as chances de um eventual calote são maiores. E, como visto acima, juros maiores tendem a diminuir a velocidade de crescimento da economia e impactar os resultados financeiros das empresas, gerando um efeito desfavorável à valorização das ações na Bolsa.

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