Ibaneis e Celina Leão rompem no DF em meio a desgaste causado por caso Master: 'Sucessão nunca será submissão'
Eleitos na mesma chapa ao governo do Distrito Federal em 2022, o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) e a atual governadora Celina Leão (PP) foram às redes sociais, nesta quarta-feira, para anunciar o rompimento da aliança política. O racha foi divulgado por meio de um vídeo publicado por Ibaneis, durante a tarde, que alegou ter tido "muitas decepções" com Celina nos últimos dias. Pouco depois, ela respondeu, também em vídeo, dizendo que recebeu o comunicado "com serenidade" e sempre foi "leal" ao ex-governador. O distanciamento ocorre em meio às investigações que apuram o envolvimento do Banco de Brasília (BRB) no escândalo do Banco Master, tema que gerou desgastes para a imagem de Ibaneis e pode colocar em risco a reeleição de Celina.
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Em março, Celina tomou posse como chefe do Executivo do Distrito Federal após a renúncia de Ibaneis, que deixou o cargo com o desejo de disputar o Senado nas eleições deste ano. A governadora é pré-candidata à reeleição ao Palácio do Buriti, mas sua provável chapa não contempla o emedebista. A ausência da vaga majoritária é apontada como o principal motivo para a decisão do ex-governador.
— Apostamos na governadora Celina como uma continuidade daquilo que plantamos, e de onde tiramos o desastre que existia no Distrito Federal. Infelizmente, ao longo destes últimos dias, tivemos muitas decepções. Isso não quer dizer rompimento, mas um realinhamento de posições — disse Ibaneis, em vídeo publicado ao lado do deputado federal Baleia Rossi, presidente nacional do MDB.
O ex-governador também afirmou que o MDB "é um partido grande", que "não abrirá mão de suas prerrogativas". O desejo de Ibaneis, que apoiou o ex-presidente Jair Bolsonaro nas últimas eleições, era concorrer ao Senado em uma chapa junto com Michelle Bolsonaro (PL), o que foi rechaçado pela ex-primeira-dama. Amiga pessoal de Celina, ela é cotada para concorrer na chapa da governadora ao lado da deputada federal Bia Kicis (PL).
Além de Ibaneis e Baleia, também aparecem no vídeo o presidente da Câmara Legislativa do DF (CLDF), Wellington Luiz, e o deputado federal Rafael Prudente. Eles pediram a confiança dos apoiadores e afirmaram que o partido está "mais unido do que nunca".
— Não há possibilidade do MDB não participar da chapa majoritária. Pela sua história, pelo o que fez nos últimos anos. Todo partido grande quer ter candidato a governador, que é nossa vontade, mas essa é uma decisão do conjunto — pontuou o presidente partidário.
Caso Master
Ao responder o ex-aliado, Celina frisou que cumpriu seu papel como vice-governadora "com respeito", mesmo diante do que definiu como "tempos difíceis" devido ao caso Master. Sem citar Ibaneis, ela também afirmou que "enquanto tem pessoas preocupadas com a campanha, eu estou preocupada em resolver os problemas do Distrito Federal".
— As pessoas precisam entender que sucessão nunca será submissão. Tenho plena consciência que fui leal enquanto estive do lado dele (Ibaneis) como vice-governadora em tempos muito difíceis — afirmou.
O BRB vive uma crise desde a descoberta de perdas bilionárias com operações realizadas com Daniel Vorcaro, que estão na origem da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), que culminou na prisão do banqueiro.
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— É público, todos sabem que herdei uma grave crise no BRB. Herdei também um rombo bilionário nas contas públicas, e tenho trabalhado dia e noite para resolver esses problemas, tomando decisões que desagradam muitos — completou.
Em setembro do ano passado, o Banco Central barrou a negociação entre as instituições, que havia sido anunciada em março. O processo previa a aquisição de 58,04% do capital social total do Master (49% das ações ordinárias e 100% das ações preferenciais) pela instituição detida pelo governo do DF, o que gerou questionamentos entre políticos e também no mercado financeiro.
Apesar da tentativa de se distanciar do escândalo, Celina é do partido presidido pelo senador Ciro Nogueira (PI). Neste mês, ele foi se tornou alvo de uma operação da PF por suspeita de agir em favor de Vorcaro em troca de receber "vantagens financeiras indevidas", segundo as investigações.
Desgaste político
Ainda no discurso de posse, Celina fez questão de se afastar da gestão Ibaneis nos assuntos ligados ao Master, além de destacar que seu governo seria um "garantidor de respostas". Ela destacou não ter participado de decisões do caso, alegou "sequer ter sido consultada" sobre o assunto e prometeu respostas a partir do rigor nas investigações.
Na ocasião, a governadora afirmou que Ibaneis "melhorou a vida das pessoas". Já ele, por sua vez, defendeu a reeleição de Celina e chegou a dizer que ela fará "o melhor mandato da história" do DF, recebendo a máquina pública "em um momento de tranquilidade".
— Temos um momento de tranquilidade, passando para as mãos da Celina um governo organizado, com apoio político e popular — disse o ex-governador. — A Celina será reeleita e fará o melhor mandato da história do Distrito Federal. Ela conhece a máquina, tem poder de decisão, firmeza e uma coisa que só as mulheres tem: sensibilidade com aqueles que mais precisam — completou.
Entenda: PL rompe com Ibaneis e protocola pedido de CPI para apurar envolvimento do BRB no caso Master
Ibaneis viu o PL romper com a sua gestão após o partido protocolar um pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara local, com o objetivo de apurar a relação com o Master e questionar a "ausência de explicações concretas" por parte do governo sobre a situação do BRB.
Presidente do partido no DF, Bia Kicis esteve na reunião, ao lado de Michelle, que selou por unanimidade o requerimento do pedido de CPI. Na ocasião, a líder do diretório local chegou a afirmar que havia "indícios graves de desvio de recursos", sendo "inevitável" ter a "obrigação de agir".
