IA pode ser janela de oportunidade para aprendizagem

 

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Terminei o texto de minha última coluna aqui — em que tratei de lições a partir do fracasso do uso de algumas tecnologias na educação — sugerindo cautela antes de comprarmos a ideia de que soluções criadas por Inteligência Artificial finalmente revolucionarão a aprendizagem. Mas, como argumentei no texto, isso não significa ignorar que estamos diante de uma tecnologia com potencial disruptivo em todas as áreas do conhecimento.

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Uma reportagem publicada neste mês no jornal The New York Times mostra que as grandes empresas de tecnologia estão investindo pesadamente no desenvolvimento de ferramentas a partir de IA nas escolas, em parcerias com governos de vários países. Um dos receios que a própria matéria traz na voz de especialistas, porém, é de que ainda temos poucos estudos rigorosos sobre impactos. Inovações são necessárias na educação, mas elas precisam ser monitoradas e avaliadas de forma rigorosa, pois — como argumentei em meu texto da semana passada — não foram poucos os exemplos de tecnologias que prometiam muito, mas entregaram pouco ou, pior, resultaram até em prejuízos.

A reportagem do jornal americano cita, inclusive, um estudo da Universidade Carnegie Mellon e da Microsoft, que acompanhou 319 trabalhadores de diferentes áreas do conhecimento (educadores, profissionais de mídia, programadores, matemáticos, entre outros). Uma das conclusões do trabalho, divulgado no ano passado, foi que níveis maiores de confiança na Inteligência Artificial estavam associados a menor capacidade de pensamento crítico, o que eleva o risco dessa habilidade — tão fundamental para o mundo do trabalho nos dias de hoje — ser prejudicada pelo uso de ferramentas de IA generativa.

Esse é um risco que se aplica também à educação. Em setembro do ano passado, a 15ª edição da pesquisa Cetic.Br nas escolas revelou que sete em cada dez alunos do ensino médio já recorrem a essas ferramentas para realizar pesquisas, mas apenas 32% deles disseram ter recebido orientação das escolas sobre como usar essas tecnologias. A mesma pesquisa mostrou que professores também vêm acessando essas ferramentas, mas ainda sem diretrizes claras sobre seu melhor uso.

O governo brasileiro iniciou, no ano passado, uma consulta pública justamente com o objetivo de criar um referencial para o desenvolvimento e uso responsáveis de IA na educação. Precisamos, de fato, urgentemente evoluir no entendimento de como essa tecnologia pode ser usada em rotinas escolares, mas sem esquecer de trabalhar nos estudantes competências que os permitam entender a lógica por trás dela e refletir sobre seu uso ético.

Mas, talvez, uma das grandes contribuições que a Inteligência Artificial possa dar ao campo educacional é retomar o debate — sempre necessário — sobre o que precisa realmente ser trabalhado nas escolas num mundo em que a automação e a facilidade de acesso ao conhecimento avançam de forma acelerada. Críticas ao excesso de conteúdo, à memorização e a modelos demasiadamente baseados na transmissão de conhecimento não são novidade. Mas, quem sabe, esta não seja uma nova janela de oportunidade para trocarmos amplitude demasiada de conteúdos por mais profundidade e reflexão.