IA ensina? Especialista apresenta estudo no LED que mostra como usar ferramenta na educação

IA ensina? Especialista apresenta estudo no LED que mostra como usar ferramenta na educação

 

Fonte: Bandeira



Referência em educação digital no Brasil, o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e diretor de Pedagogia da Proz Educação, Luciano Meira, apresentou no Festival LED Globo uma série de estudos recentes sobre a utilização de inteligência artificial em sala de aula. De acordo com o que há de mais recente com evidência científica no mundo, ele destaca que essas ferramentas podem incrementar a aprendizagem, mas apenas em assuntos que os usuários já dominam.

— Ou seja, não é bom para aprender algo do zero, mas ajuda com algo que o estudante já sabe — disse Meira. — Então, tem que ensinar coisas na mão, no livro. Isso é incrível, mesmo para mim que sou um defensor do uso de tecnologias para aprendizagem.

O estudo apresentado foi de Shaofeng Wang e Hao Zhang, dois pesquisadores de universidades chinesas, em Fuzhou e Hangzhou, respectivamente, lançado em janeiro deste ano.

Dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) mostram que sete em cada dez estudantes brasileiros do ensino médio que utilizam a internet já recorreram a ferramentas de inteligência artificial (IA) generativa — como ChatGPT, Copilot e Gemini — para pesquisas escolares. No entanto, apenas 32% dizem ter recebido orientação nas instituições de ensino sobre como utilizar essas tecnologias. O uso das ferramentas também aparece, ainda que em menor escala, entre alunos dos anos iniciais (15%) e finais (39%) do ensino fundamental.

O levantamento aponta ainda que 54% dos professores realizaram, nos doze meses anteriores à pesquisa, atividades de desenvolvimento profissional voltadas ao uso de tecnologia nos processos de ensino e de aprendizagem. Os pesquisadores ressaltam uma redução no grupo que leciona na rede municipal, passando de 62% em 2021 para 43% em 2024.

— As escolas ainda estão muito temerosas ou montando um “pacto silencioso” entre professores nas instituições. Os docentes sabem que seus alunos usam para desenvolver textos ou exercícios, mas não se sentem seguros para conversar sobre o tema — afirmou Meira, no LED.

O professor também apresentou recomendações organizadas por Philippa Hardman, uma pesquisadora da Universidade de Cambridge especializada em aprendizagem, que tem se debruçado sobre inteligência artificial. De acordo com Meira, ela defende, por exemplo, que o texto produzido pela ferramenta de IA seja analisado criticamente pela turma.

— Quem vai fazer isso com nossos estudantes? Nós, professores, claro. Ou seja, em vez de nos substituir, a IA vai nos trazer mais trabalho — brincou o especialista.

Desigualdades refletidas

De acordo com ele, Hardman também sugere que o próprio aluno escreva um parágrafo refletindo sobre a resposta da IA e impedir o uso quando o aluno ainda não aprendeu o básico.

— A pesquisa internacional tem revelado que IA precisa de um trabalho docente muito intenso para melhorar a aprendizagem dos alunos — resume o especialista.

Em outra mesa sobre o tema, a professora e criadora do canal “Mais Ciências” Rafaela Lima falou da importância de pensar nas desigualdades do sistema de ensino brasileiro e seus impactos na educação digital.

Ela conta que, em sua experiência como docente, já passou por escolas que disponibilizavam todo aparato tecnológico — mas que careciam de formação dos professores para lidar com ele — e por outras em que os alunos mal conseguiam se conectar à internet.

— O aluno com menos instrução familiar, com menos grana, menos alcance, ele sabe que existe (a inteligência artificial), mas é um uso ainda muito raso — apontou ela. — A gente vê como a desigualdade social está presente em todas as esferas, inclusive na tecnologia.

Na mesma mesa, Daniela Costa, professora, doutora e pesquisadora em educação, acrescentou que apenas 22% da população brasileira tem conectividade significativa, e que essas disparidades se refletem na educação.