Na infraestrutura, o impacto da inteligência artificial (IA) tende a ser mais significativo no Brasil do que em mercados mais organizados. A razão é simples: a IA rende mais onde há escassez de pessoal técnico, informação faltante, complexidade institucional, e é justamente aí que o Brasil e a América Latina se distinguem.
Onde há mais a corrigir, há mais a ganhar. A estruturação.
Estruturar um projeto é transformar um ativo necessário à população em algo com atratividade econômica e segurança jurídica suficientes para atrair capital privado. O esforço tem uma face quantitativa composta por engenharia, modelagem econômica, análise de oferta e demanda e outra jurídico-institucional e de comunicação com o mercado e sociedade.
Na quantitativa, dois gargalos tipicamente nossos definem o ganho. O primeiro é de gente.
No ritmo de investimento de que o país precisa, faltarão engenheiros qualificados de forma ampla. Neste caso, a IA traz produtividade sem precedentes ao alavancar o profissional sênior.
Seu conhecimento acumulado é aplicado em escala, o que permite o treinamento das novas gerações e suprir as lacunas temporais e setoriais. O segundo é informacional.
É notória a diferença na disponibilidade de dados entre o nosso mercado e os mais maduros, como informações sobre oferta e demanda, localização e qualidade dos ativos, geologia, situação fundiária e passivos. Como o déficit é gigantesco, é comum assumir uma concessão sem saber o estado real de seus ativos.
A IA generativa pode mudar bastante esse jogo. Dentro de algum tempo, a partir de informações parciais, deduzirá dados de uma área, como características do solo, risco ambiental, infraestrutura não mapeada, barateando radicalmente a preparação do projeto.
Aplicada à interpretação de dados, a IA amplia o potencial de técnicas já consolidadas, como o LiDAR, utilizado para medição e mapeamento de áreas, e a inspeção por drones, além de viabilizar a simulação de cenários antes complexos ou inviáveis. Na face jurídico-institucional, o ganho transborda para o poder público.
Com modelagem mais precisa e barata, municípios e Estados com restrições de corpo técnico podem incrementar suas oportunidades com mais rapidez e precisão, mesmo em projetos de menor escala. E o cipoal de regulações setoriais, leis municipais, estaduais e federais que se sobrepõem, se contradizem e deixam vácuos passa a ser mapeado e interpretado, com seus pontos de risco identificados de antemão.
Tudo isso melhora a modelagem e a comunicação do risco ao mercado. Há aqui um segundo divisor de águas.
A IA soma-se às redes sociais, que distribuem informação de forma descentralizada. Quem estrutura o projeto se comunica com muito mais precisão, e a sociedade civil recebe e devolve essa informação por inúmeros canais.
Uma mudança estrutural na legitimação dos projetos de infraestrutura. A decisão de investir.
Do lado de quem aloca recursos, quase todos esses benefícios se repetem, agora a serviço da avaliação, precificação e mobilização de capital. O investidor enxerga melhor o ativo que adquire e se comunica com mais transparência com seus credores e parceiros.
Com o tempo, a IA tende a transformar também o mercado de seguros e resseguros, um elo fundamental da equação. Com a relação risco-retorno mais nítida montam-se instrumentos de dívida e equity mais adequados.
Como resultado, teremos uma maior bancabilidade para o setor. A operação.
É na longa vida do ativo e na relação com o poder concedente e clientes que aparece talvez a vantagem mais brasileira. Nosso espaço é tudo menos uniforme, e a IA é boa justamente em ambientes menos organizados.
A combinação de pórticos de “free-flow” e sensores de via, por exemplo, torna possível a identificação com precisão de uma variedade de informações, como tipificação de veículos, comportamento de usuários, evasão e situações de segurança, mesmo em realidades operacionalmente muito complexas.
Isso vale também para o labirinto tributário e trabalhista. A capacidade da IA operar na complexidade pode reduzir o peso da desorganização institucional e nos tornar mais competitivos na disputa por capital com outras jurisdições.
Há ainda uma fronteira que pode soar como ficção científica: o Judiciário. Num país onde a Justiça é cara e lenta, a ineficiência brasileira é um detrator à atração de capital.
Nas próximas décadas, não surpreenderia se a IA passasse a auxiliar diretamente o processo decisório judicial, provavelmente com início em sistemas baseados na “common law”, e, dessa forma, expandindo-se para outras jurisdições por comparação. Algumas dessas mudanças serão aceleradas, outras vão esbarrar em resistências, a velha assimetria da economia política.
Mas a vantagem que oferecem é de tal ordem que o atraso não as impedirá e são, no fundo, irreversíveis. Onde há mais a corrigir, há mais a ganhar.
Fábio A. Abrahão é CIO de equities da YvY CapitalE-mail: fabio.abrahao@yvy.capital
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