Humor dos eleitores: brasileiros veem quadro de incertezas no país, mas mantêm expectativa de crescimento pessoal
Em meio ao início do ano eleitoral, o humor dos eleitores brasileiros se divide entre a percepção de que o país enfrenta um momento de incertezas e a expectativa de crescimento no campo pessoal. A conclusão é de uma pesquisa quali e quantitativa produzida pelo projeto Plaza Pública, barômetro que mede a agenda do país de maneira periódica comandado pelo pesquisador Eduardo Sincofsky, especialista em Opinião Pública. O levantamento, que teve como base 2.217 entrevistas online feitas em dezembro, também mostra variações nas respostas entre grupos que se identificam com a esquerda e com a direita.
Encorajados a selecionar, entre 16 imagens apresentadas, quais delas melhor representam a situação atual, 30,5% dos entrevistados tiveram respostas que indicam percepção de instabilidade econômica e social no país. Outros 14,5% também relataram sentimento de angústia.
"O Brasil é como um iceberg: tem muito potencial, mas ele está escondido, não há incentivo nem investimento", disse um dos entrevistados do levantamento qualitativo. "A qualquer segundo pode acontecer qualquer coisa", respondeu outro.
Apesar da visão pessimista sobre o país, em 34,5% das respostas, prevaleceu a noção de expectativa de avanço na vida pessoal, sugerindo que o eleitorado brasileiro está em movimento, em busca de se orientar e crescer, mesmo que de forma desconectada da possibilidade de melhora do país. Além disso, 20% das respostas reconheceram que o cenário atual tem potencial para mudanças, mesmo que ele esteja escondido no momento.
"Estou ciente de para onde devo ir para conquistar meus sonhos", indicou um entrevistado.
O levantamento também mostra que as respostas variam a partir da identidade ideológica dos eleitores: as maiores percepções sobre o cenário de instabilidade, por exemplo, ocorrem em grupos que se identificam como bolsonaristas (61%), seguidos da direita não bolsonarista (53%) e conservadores (56%).
Em paralelo, a noção de expectativa é maior que a média entre eleitores que se identificam com a esquerda, mas não como apoiadores do presidente Lula (33%), progressistas (31%) e lulistas (29%). Já o grupo que se coloca como independente demonstra se dividir entre as noções de expectativa (30%) e instabilidade (34%).
Deixa para candidatos
A diferença nos resultados deixa espaço para que diferentes candidatos, a depender do campo ideológico que querem atingir e conquistar, trabalhem com esses sentimentos em seus discursos de campanha, explica Sincofsky.
— O sentido de cada um dessas quatro respostas abre espaço para falarmos com diferentes tons emocionais, e, de acordo com o lado político em que cada candidato esteja posicionado, ele vai adotar um tom que impulsiona mais a noção de instabilidade ou de potencial dos eleitores, por exemplo — afirma.
Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto o nomes da direita, como o senador Flávio Bolsonaro, têm acenado a segmentos de trabalhadores autônomos e informais, grupo visto como estratégico para a campanha deste ano e que tem mais afinidade com o discurso de sucesso individual.
O levantamento mostra que, quando os entrevistados são questionados sobre o futuro, há queda nas percepções de instabilidade (21%) e angústia (12,5%), enquanto os conceitos de expectativa (36%) e potencial (30,5%) crescem. A mudança é um indicativo, na análise de Sincofsky, de que o otimismo em relação ao que está por vir, descrito por ele como típico dos brasileiros, ainda permanece, mas passa a estar ancorado na ideia de "esforço individual", e não mais na situação do país, ainda dominada pela incerteza.
— Aqui se vê o otimismo brasileiro florescendo, principalmente diante do futuro pessoal, visto como resultado direto da força individual. Isso se baseia muito na ideia de que esse tipo de crescimento depende mais de mim e independe do cenário macro. Muitos se imaginam diante de uma "bomba" prestes a estourar no país, mas com um horizonte que brilha, com a família e a esperança de colher o que está sendo plantado — explica o pesquisador.
