A estudante Thamiris Neves, que só neste ano precisou recorrer ao “Esqueceu a sua senha?” cerca de 30 vezes
Rui Dantas/Valor
Responda honestamente: qual é seu grau de preocupação com a própria senha bancária? Ela é igual às suas outras senhas para Gmail, Instagram ou gov.br? Você usa algum aplicativo gerenciador de senha (como o do Google, Apple Passwords, Bitwarden etc.), que a criptografa e mantém em uma espécie de cofre digital? Ou anota todas num caderno ou arquivo no computador?
A reportagem do Valor circulou na Febraban Tech 2026 para checar se um público teoricamente mais acostumado a lidar com tecnologia segue as recomendações de especialistas na hora de proteger suas contas bancárias.
A julgar pelas respostas dos entrevistados, as equipes responsáveis pela cibersegurança dos bancos não terão descanso tão cedo.
Com tantos aplicativos e tantas senhas para decorar, a atitude predominante dos usuários fica em algum lugar entre a preocupação e a negligência.
O esquecimento também foi apontado como algo recorrente entre os entrevistados.
“Se eu for me cadastrar para alguma coisa, vou colocar a mesma senha, não vou anotar nada e vai ficar para o esquecimento de novo”, afirmou a estudante de administração Isabella Mendes Sousa, 24 anos.
Ela diz que foi à feira conhecer as tendências do setor, ver o mercado e fazer networking.
Sua amiga de curso na UniFecaf, Thamiris Neves, 21, conta que, no último ano, provavelmente clicou no campo “Esqueceu a sua senha?” pelo menos umas 30 vezes.
A estudante recorre a um método um tanto arriscado para “memorizá-las”.
“Confesso que tiro print da tela com o meu usuário e senha e, quando esqueço, procuro no Google Fotos”, afirmou.
A funcionária do Itaú Yeda Oliveira, 39, lembra que já teve problemas ao invadirem sua conta no Instagram.
Ela foi avisada por amigos sobre seu fictício interesse em vender todos os seus pertences.
Imediatamente passou a usar o aplicativo Apple Passwords, que cria senhas aleatórias, consideradas fortíssimas e impossíveis de memorizar, mas devidamente guardadas em um cofre digital acionado por biometria.
“Também tentaram alterar meu código de acesso do WhatsApp, mas não conseguiram porque conhecidos me alertaram sobre as falsas vendas.
Foi muito burocrático provar minha identidade para o Instagram”, comenta.
Oliveira acha que, na euforia, clicou em algum link maldoso, de engenharia social, que instalou um vírus em seu celular.
Ela admite que, na época, usava as mesmas senhas para quase todos os aplicativos e que, por pouco, não teve suas contas bancárias acessadas.
Seu colega de banco Danilo Garcia, 30, teve menor sorte, uma vez que seu celular foi furtado duas vezes.
Os ladrões entraram em sua conta do Instagram e alteraram o e-mail de autenticação - mas ele conseguiu recuperar a conta, dias depois.
Hoje também é adepto de cofres digitais, mas, para sites e aplicativos menos importantes, ainda anota as senhas em um caderno que deixa em casa.
“Agora, recomendo manter todos os aplicativos travados [bloqueados], sem salvar a senha para logar diretamente.
Também acho válido ter uma segunda camada de segurança, apesar de saber que esta opção pode gerar dificuldades se o usuário esquecer o que ela pede.
Aliás, isso já aconteceu comigo”, lembra.
Juliana Silveira D’Addio, 46, é especialista na área de cibersegurança, com passagem em alguns dos maiores bancos do país.
Ela ensina profissionais a criarem uma cultura de segurança em suas atividades, além de participar de fóruns e palestras no Brasil inteiro sobre o tema.
“O pior erro que eu digo para evitar é o uso de dados pessoais óbvios na construção de uma senha, como datas de aniversário, placa de carro, nome do filho, do cachorro, time de futebol ou telefone”, recomenda.
“Foi assim que uma celebridade, que não posso revelar quem é de forma alguma, teve sua conta hackeada em outra instituição: ele usou a data do casamento, uma informação pública.”
O responsável pela área de segurança digital no Banco do Brasil, Marcelo Henrique Ferreira, afirma que a instituição acompanha continuamente indicadores relacionados às jornadas de credenciais e acesso aos canais digitais.
Mas preferiu preservar dados sobre recuperação, alteração e desbloqueio de senhas, admitindo apenas que tais ações “representam uma parcela relevante das jornadas de autoatendimento dos clientes”.
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