Hugo Bonèmer interpreta vigarista na peça 'O talentoso Ripley': 'Perdemos a referência do que é ruim e achamos divertidos discursos que transformam crime em humor'
Contratado por um milionário, um criminoso parte dos Estados Unidos para a Itália para trazer de volta seu filho. Ao conhecer o herdeiro, porém, ele desenvolve uma profunda obsessão pelo rapaz, que desencadeia uma série de transgressões. Essa é a sinopse resumida da trama de "O talentoso Ripley" (1955), livro da americana Patricia Highsmith que ganha adaptação teatral inédita no Brasil a partir deste sábado (4), no Teatro Gláucio Gill, no Rio de Janeiro. Com Hugo Bonèmer no papel-título e na direção, dividida com Kamilla Fialho, a montagem adapta a história — que já tem versões na TV e no cinema, sendo uma delas estrelada Matt Damon e indicada a cinco Oscars — a partir do texto da dramaturga Phyllis Nagy, baseado na obra original e publicado em 1999.
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Diferente do romance e das adaptações audiovisuais, a versão teatral parte do ponto de vista do personagem principal, Tom Ripley. Em cena, Hugo se alterna entre viver os fatos e narrá-los sob o olhar sádico e amoral do protagonista.
— Meu objetivo, enquanto personagem, é fazer o público acreditar que tudo o que o Tom faz é justificável. Enquanto artista, ator e diretor, é o oposto: fazer com que o público não ache isso aceitável — comenta o intérprete, que compara o discurso em primeira pessoa do narrador com a lógica dos talk shows e das redes sociais. — Tom é como um produtor de conteúdo, cria a própria narrativa e apresenta isso como verdade. Mas ele fala atrocidades e comete todos os crimes que se pode imaginar. Esse espelho, para quem está assistindo, é muito importante hoje, em que cada vez mais perdemos a referência do que é ruim e começamos a achar divertidos discursos que tentam transformar crime em humor.
Um golpista charmoso que sobrevive de trambiques, Tom se torna obcecado pela vida luxuosa de Richard Greenleaf (interpretado por Francisco Paz), o jovem que deveria levar de volta aos Estados Unidos, assim que chega a Itália. Ele desenvolve uma amizade profunda com o rapaz e sua namorada, Marge (Guilhermina Libanio), mas ao se sentir rejeitado pelo herdeiro, faz de tudo para assumir sua identidade, cometendo vários crimes para sustentar a farsa.
Para intensificar a confusão entre personas, a adaptação de Phyllis usa as trocas de identidade na encenação. Exceto Hugo e Francisco, que interpretam os protagonistas, Guilhermina e o restante do elenco — Cassio Pandolfh, João Fernandes, Laura Gabriela e Tom Nader — se revezam em dois ou três papéis.
— São personagens muito opostos e de alguma maneira esquisita complementares — comenta Guilhermina, que se alterna entre Marge e Sophia. — Apesar de ser disruptiva para a época, por viver como escritora e não ser casada, Marge representa a mulher tradicional dos anos 1950, que foi criada para construir sua vida em torno da família. Já Sophia é uma prostituta, livre e dona de si, seja por opção ou não.
O olhar feminino
Além das personagens de Guilhermina, a história tem apenas mais duas figuras femininas, Emily e Tia Dottie, interpretadas por Laura Gabriela. Secundárias e pouco aprofundadas no livro e nos filmes, na versão para o teatro elas ganham mais protagonismo, e ajudam a elucidar a amoralidade e as limitações de Tom.
— No início do processo, a gente nem entendia o tamanho dessa importância, mas todas as personagens periféricas femininas são extremamente relevantes para a trama. A peça mostra como o machismo afeta os homens também. O Tom Ripley é completamente influenciado por traumas causados pelo patriarcado, por essas pressões em cima de todos nós — reflete a diretora Kamilla Fialho.
Guilhermina complementa, destacando a força de sua personagem.
— Amei como a Marge tem força nessa adaptação. Ela é mais direta, e saca qual é a do Tom muito antes do que no filme. Ela é mais atenta, tem outro olhar. A gente ficou se perguntando por que algumas mulheres não morrem na peça. Acho que é porque a gente é ensinada desde muito cedo a reconhecer o perigo, enquanto os homens são ensinados que podem tudo — diz a atriz.
A presença do feminino também se desloca para a discussão sobre sexualidade, tema incontornável na trama. No livro e na peça, Tom se encanta por Richard, e tem outros relacionamentos profundos com homens, mas nunca chega a se assumir homossexual. Ainda assim, sofre forte preconceito por levantar essa dúvida.
— A gente não deixa explícito na peça se o Tom é um homem gay. Mas esse preconceito é outra maneira de mostrar como o mundo não sabe lidar com questões femininas, e a incapacidade das pessoas em volta dele lidarem com a possibilidade de algo mais feminino — destaca Kamilla.
Para Hugo, a troca de identidade de Tom aumenta o reconhecimento do público LGBTQIA+.
— A história do Tom faz com que homens gays de uma geração inteira se compadeçam com ele. Pessoas gays estão habituadas a cumprir mais de um papel desde sempre, a falar dois idiomas. Você cria uma persona, se adapta, entre o mundo dos héteros e o seu próprio. Desde que anunciamos a peça, inclusive, ela tem sido muito difundida dentro de canais LGBT. Temos recebido mensagens muito carinhosas de pessoas que são apaixonadas por essa história — conta o ator.
Hugo Bonèmer como Tom Ripley
Divulgação/Peter Wrede
Duas coisas ao mesmo tempo — na trama e nos bastidores
Partiu de Francisco Paz, intérprete de Richard, a ideia de trazer "O talentoso Ripley" para os palcos do Brasil. Filho de exibidores e atual gestor do Gran Cine Bardot, de Búzios, o ator vive imerso no mundo do cinema desde a infância, por onde entrou em contato com a história. Ainda em 2019, decidiu adquirir os direitos da adaptação. De lá para cá, Hugo se juntou na empreitada, que atravessou quatro mudanças de diretores ao longo do processo.
Sete anos após começar a gestar sua interpretação do personagem objeto da obsessão de Tom Ripley, Francisco define o ricaço Richard como uma síntese das contradições sociais que atravessam a trama.
— Ele busca os prazeres da vida e tem condições de arcar com isso, e isso é muito sedutor. Ao mesmo tempo, carrega diversos preconceitos, mas em doses socialmente aceitáveis, diferente do Tom. Ele é classista, sexista, só que muitas vezes nem percebe. Quando se coloca nesse lugar, começa a observar com mais atenção essas pequenas violências que são naturalizadas — comenta.
Após dois meses de ensaio até a estreia, o projeto chega aos palcos marcando a primeira vez que Hugo encara o desafio de, assim como seu personagem, viver uma dupla identidade: de ator e diretor. Apesar do medo da novidade, o artista conta que vê a duplicidade com certa naturalidade.
— Esses dois lugares sempre existiram em mim. Cresci dentro de uma escola de dança em que meu pai produzia, fazia cenário, e minha mãe estava no palco. De certa forma, agora estou fazendo o que eles faziam. Está sendo uma delícia — finaliza.
Serviço
Onde: Teatro Gláucio Gill, Copacabana.
Quando: 4 a 27 de abril.
Que horas: sáb a seg, às 20h.
Quanto: R$ 70.
Classificação: 18 anos.
