Hospedado na Rocinha, gringo usa app gay e fica surpreso com preconceito contra moradores de favela: 'Racismo e classismo'

 

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O que começou como um simples experimento em um aplicativo de encontros acabou se transformando em um potente retrato das desigualdades sociais no Brasil. Natural de Londres, Joris Lechêne viralizou ao compartilhar sua experiência usando o Grindr durante uma estadia na Rocinha, no Rio de Janeiro.

Hospedado na maior favela do Brasil, cercada por bairros de alto padrão como Leblon, São Conrado e Barra da Tijuca, Joris chamou atenção ao destacar como a geolocalização do aplicativo escancara, em poucos metros, as desigualdades históricas do país.

“Eu entrei no Grindr em uma favela: o lance da Rocinha é que ela fica na Zona Sul, encravada entre alguns dos bairros mais ricos do Brasil… então usar um aplicativo baseado em localização te faz atravessar rapidamente essas divisões — para o bem e para o mal… (é só para o mal)”, escreveu na legenda do vídeo.

No relato, ele faz questão de reconhecer seu lugar como visitante estrangeiro. “Eu sei como é viver em um corpo racializado e demonizado, e sei como é crescer em um território esquecido, mas explorado por um império. Mas eu não sei como é crescer em uma favela brasileira. Sou apenas um visitante aqui na Rocinha por escolha”, afirma.

Ainda assim, Joris ressalta que, mesmo em poucos dias, foi possível perceber impactos profundos dessas dinâmicas, especialmente na forma como elas atravessam a autoestima de quem vive nesses espaços.

Dentro da própria favela, as interações seguiam um padrão considerado comum no aplicativo: conversas diretas, perfis discretos e trocas em português sem estranhamento. O que chamou sua atenção, no entanto, foi uma espécie de “código local” de sedução. “A maioria é ‘sigiloso’, sem foto de perfil… mas as conversas são normais. A única diferença é quando perfis sem foto mandam imagens do quarto arrumado antes mesmo de mostrar o rosto. Fiquei tipo: o Grindr virou aplicativo imobiliário aqui? Mas faz todo sentido — onde conforto é luxo, um quarto bonito vira argumento”, analisa.

O cenário muda quando a conversa ultrapassa os limites da Rocinha e encontra usuários de áreas mais ricas. Segundo ele, o interesse inicial muitas vezes se transforma ao revelar sua localização. “Um cara disse que morava perto do metrô na Barra… mas quando mencionei que estava na Rocinha, começou a sugerir um motel em São Conrado. O que mudou?”, questiona.

Para Joris, embora exista um receio legítimo envolvendo encontros por aplicativos, a seletividade desse medo escancara preconceitos estruturais. “Isso é racismo e classismo”, afirma.

O episódio mais marcante veio de um usuário argentino, que demonstrou nojo ao saber onde ele estava. “Por que eu deveria avisar que estou na Rocinha? Avisar sobre o quê?”, reflete.

Ao final, ele admite que, em poucos dias, já começou a internalizar o estigma da favela. "Se foi isso que alguns dias no Grindr em uma favela fizeram comigo, imagina o que uma vida inteira disso faz com uma pessoa", concluiu ele.