Homenagens a líderes religiosos disparam na Câmara de Niterói
A Câmara Municipal de Niterói registrou uma explosão no número de moções voltadas a pastores e lideranças religiosas nos últimos dois anos. Levantamento feito pelo GLOBO-Niterói por meio do sistema SisCam da Casa identificou 204 moções relacionadas a lideranças religiosas entre janeiro de 2025 e 22 de maio de 2026 — número mais de quatro vezes superior ao registrado nos dois anos anteriores somados. Em 2023, foram 23 homenagens deste tipo; e em 2024, outras 22.
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Os dados foram extraídos por meio de buscas pelos termos “pastor” e “pastora” no campo “ementa/assunto”, com a opção “buscar em texto” ativada. A plataforma aponta 102 registros em todo o ano de 2025 e outros 102 apenas nos primeiros meses de 2026.
Das 204 menções, 178 foram voltadas a líderes evangélicos e o restante a católicos, que aparecem na listagem por haver termos como “pastoral” no texto, no caso das homenagens realizadas pelo vereador católico Allan Lyra (PL).
O aumento acompanha a consolidação da presença evangélica na política niteroiense. Segundo o Censo 2022 do IBGE, os evangélicos passaram de 20% da população da cidade, em 2010, para 22,16%. Na Câmara, porém, a representação é proporcionalmente maior: atualmente, seis dos 21 vereadores se declaram evangélicos, o equivalente a 28,57% da composição da Casa. Integram o grupo Douglas Gomes (PL), Daniel Marques (PL), Fabiano Gonçalves (Republicanos), Leandro Portugal (MDB), Junior Morett (PSD) e Michel Saad (Podemos).
O levantamento mostra que parte significativa das homenagens se concentra em poucos parlamentares e em movimentos de grande escala, com dezenas de moções protocoladas em curtos intervalos.
O caso mais expressivo foi o do então suplente Mauricio Firmino Gomes (Republicanos), que substituiu até abril Fabiano Gonçalves, na época lotado na Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Revitalização do Centro de Niterói. Conhecido como Pastor Maurício, ele apresentou 57 moções em apenas dois dias, entre 17 e 19 de novembro de 2025. As homenagens eram direcionadas a membros de base de igrejas evangélicas, como diáconos, diaconisas e integrantes de congregações.
— Essas moções não foram distribuídas de forma aleatória. Elas representam o reconhecimento institucional da Câmara a pessoas que ajudam a transformar vidas e contribuem para a paz social em Niterói — defendeu o suplente.
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O próprio Fabiano Gonçalves protocolou 41 moções entre 13 e 20 de maio deste ano, contemplando a liderança da Convenção Estadual de Ministros das Assembleias de Deus no Rio de Janeiro. Entre os homenageados estavam presidente, vice-presidentes, secretários, tesoureiros, diretores regionais e conselheiros da entidade. Ele ainda fez moções para outros dois pastores em abril.
Morett também intensificou as homenagens religiosas ao longo de 2026. Ele apresentou 30 moções: uma leva voltada a pastores em geral e outra dedicada a lideranças da Convenção Estadual das Assembleias de Deus no Estado do Rio de Janeiro.
Há exceções ao predomínio evangélico nas homenagens religiosas da Casa. Lyra concentrou suas moções em nomes ligados à Igreja Católica, com homenagens a padres, diáconos, jubileus sacerdotais e instituições católicas.
A influência evangélica na Câmara vem sendo caracterizada ainda por outras atividades simbólicas. Desde o ano passado, cultos passaram a ser realizados mensalmente no salão plenário, sempre nas primeiras segundas-feiras do mês. A iniciativa foi de Morett.
— Nosso estado é laico. Do mesmo jeito que a gente está tendo um culto aqui, o padre pode realizar uma missa, o pai de santo pode realizar o rito dele também. A gente não está fazendo política ali, mas orando pela cidade e pelos governantes — diz o vereador.
Segundo Morett, a recepção interna tem sido positiva e ele não tem recebido reclamações sobre os eventos.
O presidente da Casa, Milton Cal (União), pontua que não se opõe às manifestações religiosas, e lembra que os cultos começaram na sala da própria Presidência da Câmara, sendo posteriormente transferidos para o Plenário Brígido Tinoco pelo aumento no número de fiéis.
Nova medalha
Na sessão de 6 de maio, a Câmara aprovou a criação da Medalha Nilson do Amaral Fanini, pastor por 41 anos da Primeira Igreja Batista de Niterói (PIBN), falecido em 2009. A medalha é destinada a homenagear líderes e membros da comunidade evangélica da cidade. Em fase orçamentária, a honraria será confeccionada em “metal dourado de alta resistência”, conforme publicado no Diário Oficial. O projeto é de autoria de Morett, com único voto contrário do vereador Professor Tulio (PSOL).
— Voto contra a medalha não pelas pessoas, não pela medalha em si. Mas acho que o formato deve ser outro. Acredito que a gente poderia ter uma medalha única para religiosos — disse o vereador ao justificar o voto, considerando o projeto inconstitucional.
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