Homenagem a Léa Garcia, abre-alas gigante, ode a sambista: acompanhe segundo dia de desfiles do Grupo Especial de São Paulo

 

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A Império de Casa Verde abriu a segunda noite de desfiles do Grupo Especial do Carnaval de São Paulo. A escola entrou em um Sambódromo do Anhembi lotado pontualmente às 22h30 deste sábado (14), para apresentar ao público o samba-enredo “Império dos balangandãs: joias negras afro-brasileiras”, sobre a história das escravizadas e os adornos das mulheres negras.

O primeiro carro alegórico, todo em tons de ouro, deu a tônica de um desfile que teve o dourado dominando em toda a apresentação. A escola apostou em brilho, luzes avermelhadas e muito luxo nos acabamentos das alegorias, fazendo jus ao tema da agremiação neste ano, que conta a história da joalheria afro-brasileira no período da escravidão, e como as mulheres negras usavam essas joias no século XVIII pelas ruas de Salvador. A narrativa teve como figura central Dona Fulô, que ficou conhecida por suas joias. Após ser alforriada, a baiana passou a investir suas economias nos adornos.

Carnaval de São Paulo: Segunda noite de desfiles do Grupo Especial

De maneira não cronológica, a agremiação da Zona Norte passou por várias fases da história da escravidão, sempre com destaque às mulheres negras. Uma das alas da baiana trouxe as amas de leite, mulheres escravizadas que amamentavam e cuidavam de bebês de pessoas brancas. O quarto carro alegórico foi "o grito das ganhadeiras", mulheres que foram trazidas do continente africano para o Brasil, inicialmente escravizadas, mas depois libertas e que tabalhavam "por ganho", lavando e passando roupas, vendendo peixes e comidas em geral em Itapuã, na Bahia.

Segunda a desfilar, a Águia de Ouro trouxe uma temática leve e um samba descontraído e fácil de cantar, com frases como "eu vou ficar bem louco neste Carnaval", que animou o público das arquibancadas e camarotes do Anhembi. “Mokum Amsterdã, o voo da águia à cidade libertária” homenageou a capital holandesa, com alegorias que faziam referência à elementos icônicos da cidade holandesa, desde a arquitetura até a arte. O segundo carro alegórico, o mais imponente do desfile, teve os girassóis de Van Gogh como protagonistas, flor que também decorou uma das alas de baianas. As cores primárias e traços geométricos do artista holandês Piet Mondrian também viraram fantasia de uma das alas.

Um dos destaques do desfile multicolorido da agremiação da Pompeia foi o terceiro carro alegórico, todo decorado com tulipas, que contou com crianças vestidas com variadas cores da flor sambando e cantando. A maconha também foi destaque em uma das alas, já que Amsterdam é conhecida pelos coffee shops onde é possível usar a erva livremente.

A Mocidade Alegre, uma das mais esperadas da noite, fez um desfile sem falhas, com carros alegóricos grandiosos e luxo em cada detalhe em todos os ângulos — o que garantiu um deleite para quem acompanhava seja da arquibancada, do camarote. O tema deste ano foi “Malunga Lea: Rapsódia de uma deusa negra”, em homenagem a atriz Léa Garcia, que morreu em 2023. Foi uma viagem no tempo que percorreu toda a carreira da atriz, desde sua formação no Teatro Experimental do Negro, até seus trabalhos de grande sucesso na novela "Escrava Isaura" e no filme “Orfeu Negro”.

A comissão de frente teve Thelma Assis como destaque representando Léa, toda vestida em dourado e com brilhos em toda a roupa, luxo que se repetiu em todas as alegorias, e Fred Nicácio como Abdias do Nascimento, que ajudou Léa a começar na carreira de atriz. Com plástica impecável, a escola ainda apostou na tecnologia, com serpentes se mexendo, globos giratórios, água jorrando e uma passarela móvel onde estava uma das musas da escola. O desfile terminou exatamente com 65 minutos, o tempo máximo estipulado pelo regulamento.

Quarta agremiação a pisar na avenida, a Gaviões da Fiel mostrou que, ao menos no quesito recepção do público nas arquibancadas, é uma das mais queridas. A escola ligada à torcida organizada do Corinthians levou ao Sambódromo o samba-enredo “Vozes Ancestrais para um Novo Amanhã”, que foi cantado a plenos pulmões pelo público. O tema pedia floresta, mas a Gaviões fez do jeito dela e, para evitar o verde característico do rival Palmeiras, levou uma floresta azul e prateada para um de seus carros alegóricos.

A escola apostou no gigantismo no carro abre-alas com 73 metros de comprimento (o maior deste carnaval), nos efeitos especiais de animais como o boto, a onça e o jacaré, que se moviam pelos carros alegóricos, e na bateria potente. Mas os grandes homenageados foram os indígenas, que ora foram representados como guerreiros e ora com uma pegada mais mística, como a referência à lenda da Yãkoana, um sopro sagrado que os xamãs Yanomami usam para para acessar dimensões espirituais.

A Estrela do 3° Milênio fez um ode ao samba e ao carnaval ao homenagear o compositor, sambista e poeta Paulo César Pinheiro. A apresentação passou por diversos momentos da história da vida e da carreira do compositor, com uma ala vestida de verde e rosa em homenagem à Mangueira, escola de coração de Paulo Cesar, até a luta dele contra a Ditadura Militar. Na época, várias composições do artista foram censuradas, e ele fez a música “Pesadelo” em resposta a isso. No desfile desta noite, um dos carros alegóricos tratou sobre essa censura, com um boneco usando uma camiseta com a frase “você corta um verso, eu escrevo outro”.

Com forte tom político, em outra alegoria operários vestidos de vermelho seguravam bandeiras pedindo justiça social. A escola teve alguns percalços na evolução, já que começou um pouco mais lenta e, no meio do desfile, os integrantes tiveram que apertar o passo para não estourarem o tempo — o ritmo depois voltou a ficar mais lento e o desfile terminou dentro do prazo.

Penúltima a desfilar, a Tom Maior apresentou o samba-enredo “Chico Xavier. Nas entrelinhas da alma, as raízes do céu em Uberaba”, na qual misturou homenagens ao médium com elementos da cidade mineira na qual ele ganhou fama. A escola apresentou um desfile bonito e sem percalços, com alegorias bem trabalhadas, e levou elementos do espiritismo, como mulheres segurando velas e crianças vestidas de anjo, mas houve um enfoque maior em contar a história de Uberaba. Um dos carros de maior destaque foi “o futuro chegou”, que celebrou a industrialização da cidade. A escola voltou ao Grupo Especial neste ano, após passar o ano anterior no Grupo de Acesso. O segundo carro, que trazia referências do boi Zebu, que passou a ser a raça de gado predominante na região de Uberaba, teve um problema na iluminação e estava apagado.

Fechando a noite, a Camisa Verde e Branco vai exaltar Exu com o samba-enredo “Abre Caminhos”.

O primeiro dia de desfiles, nesta sexta, foi marcado por atrasos. A Rosas de Ouro, campeã do carnaval passado, entrou na avenida por volta das 4h30, mas pelo cronograma oficial, deveria ter iniciado às 3h20. O atraso ocorreu após a passagem da Acadêmicos do Tatuapé, que sofreu com um vazamento de óleo na pista durante o desfile. A Rosas de Ouro optou por aguardar a limpeza da via para evitar acidentes. Integrantes da organização utilizaram areia para acelerar a remoção do produto, enquanto os integrantes da escola aguardavam cantando sambas-enredo de anos anteriores. A apuração que vai definir a campeã do Grupo Especial de 2026 será realizada na terça-feira (17).

Veja os horários dos desfiles deste sábado:

1. Império de Casa Verde – 22h30

2. Águia de Ouro – 23h35

3. Mocidade Alegre – 00H40

4. Gaviões da Fiel – 01h45

5. Estrela do Terceiro Milênio – 02h50

6. Tom Maior – 03h55

7. Camisa Verde e Branco – 05h00