Por alguns anos, o matcha ocupou um lugar de destaque nas redes sociais. O pó verde de origem japonesa apareceu em cafeterias, receitas, vídeos de rotina e conteúdos sobre alimentação, além de ganhar versões que vão muito além do chá tradicional. Agora, uma bebida de aparência bem diferente começa a conquistar espaço nesse mesmo território: o hojicha. Ube: o roxo virou a nova aposta do universo wellness? Saiba o que está por trás da febre Do sono à disposição: por que suplementos viraram febre no TikTok De cor que pode variar do dourado ao marrom, o chá japonês tem sabor tostado e aroma característico. Preparações como o hojicha latte vêm aparecendo nas redes como alternativa para quem não se identifica com o gosto mais intenso do matcha ou procura reduzir o consumo de bebidas com cafeína. A popularização, porém, também levanta uma questão recorrente quando um alimento vira tendência: há alguma vantagem nutricional em escolher um deles? Embora os dois sejam derivados da mesma planta, a Camellia sinensis, o processo de produção é diferente. Essa etapa interfere tanto no sabor e na aparência quanto na composição final da bebida. "O matcha é produzido a partir de folhas cultivadas à sombra e posteriormente moídas até se transformarem em um pó fino. Como consumimos esse pó, ingerimos a folha. Já o hojicha é produzido com folhas e talos que passam por um processo de torrefação, responsável pela cor amarronzada, pelo aroma característico e pelo sabor tostado. São formas diferentes de consumir o chá e, consequentemente, apresentam perfis diferentes", explica o nutricionista Lucas Moraro. Por que o hojicha tem sabor tostado? A diferença mais evidente entre as duas bebidas está no paladar. Enquanto o matcha costuma apresentar notas vegetais e um sabor mais intenso, o hojicha passa por torrefação, processo que produz suas características aromáticas e gustativas. A diferença pode ajudar a explicar a chegada do hojicha a um público que não se adaptou ao matcha. Para a nutricionista Laita Balbio, do Espaço Hi, a tendência das redes é apenas parte desse movimento. "O matcha tem um sabor muito característico, mais vegetal e intenso, que nem todo mundo aprecia. O hojicha traz notas tostadas e uma experiência sensorial completamente diferente. Isso facilita sua entrada na rotina de quem procura substituir ou reduzir o café, por exemplo, mas não gosta do perfil do matcha. Existe a tendência das redes sociais, claro, mas também há uma questão de paladar por trás dessa popularização", afirma. Matcha ou hojicha: qual é mais saudável? Não existe uma resposta única para essa comparação. A forma de preparo faz com que a quantidade e o perfil dos compostos presentes nas duas bebidas sejam diferentes. Como o matcha é consumido em pó, a pessoa ingere a folha inteira. Já o hojicha costuma ser preparado por infusão, com a água passando pelas folhas e talos torrados. Essa diferença ajuda a explicar por que o matcha tende a concentrar mais alguns compostos bioativos. "O matcha tende a apresentar maior concentração de compostos bioativos porque a folha inteira é consumida, enquanto o hojicha é tradicionalmente preparado como uma infusão. Portanto, não existe um vencedor absoluto. Se a pessoa busca maior concentração de determinados antioxidantes e mais estímulo, o matcha pode fazer mais sentido. Se deseja uma bebida mais suave e com menos cafeína, o hojicha pode ser interessante", avalia Lucas. O matcha é conhecido principalmente pela presença de catequinas, entre elas a EGCG, um composto estudado por sua atividade antioxidante. Também contém cafeína e L-teanina, combinação que contribuiu para sua associação com foco e concentração. "Para energia e foco, o matcha tende a levar vantagem justamente por apresentar mais cafeína. Além disso, contém L-teanina, um aminoácido associado à atenção e concentração. O hojicha oferece outra proposta: por ter menos cafeína, costuma proporcionar uma experiência mais suave para quem não está buscando um estímulo tão intenso", acrescenta. Do 'proteinmaxxing' à dieta: por que Virginia Fonseca e outras famosas colocaram a proteína no centro da alimentação? A 'geleca' de Kylie Jenner viralizou. Mas ela é mesmo inofensiva? Hojicha tem menos cafeína? A torrefação reduz parte da cafeína presente nas folhas, fazendo com que o hojicha geralmente tenha menos da substância do que outros chás derivados da Camellia sinensis. Isso não significa, porém, que a bebida seja livre de cafeína. A característica pode ser interessante para quem deseja diminuir o consumo de estimulantes, especialmente em horários mais próximos do fim do dia. A tolerância, no entanto, varia de pessoa para pessoa. "Menos cafeína não significa ausência de cafeína. Isso é importante principalmente para pessoas muito sensíveis. O hojicha pode ser melhor tolerado e, em muitos casos, fazer mais sentido no fim da tarde do que um matcha ou um café, mas precisamos observar a resposta individual. Se mesmo pequenas quantidades interferem no sono, o horário e a quantidade continuam sendo importantes", alerta Laita. A torrefação também modifica parte dos compostos originalmente presentes nas folhas. O aquecimento provoca reações químicas que contribuem para o aroma e o sabor característicos da bebida. "Alguns compostos podem ser reduzidos pelo calor, enquanto outros produtos da reação de Maillard são formados e contribuem para aroma e sabor. O matcha costuma apresentar maior concentração de catequinas, especialmente EGCG. Já o hojicha também possui compostos bioativos, mas com um perfil diferente. Não devemos dizer que oferecem exatamente os mesmos benefícios e muito menos atribuir a qualquer um deles efeitos de 'detox'", pontua Lucas. Hojicha emagrece? A popularização de um alimento ou bebida nas redes costuma vir acompanhada de promessas que vão além das evidências disponíveis. Com o hojicha, não é diferente. Conteúdos podem associar o chá a emagrecimento, aceleração do metabolismo, redução de inflamações ou "detox". Essas alegações precisam ser vistas com cautela. Nenhum dos dois chás, isoladamente, produz uma transformação metabólica capaz de compensar hábitos alimentares ou de estilo de vida. "Não existe chá milagroso. Podemos falar sobre compostos bioativos e sobre como uma bebida pode fazer parte de um padrão alimentar saudável, mas nenhum alimento isoladamente compensa uma alimentação desequilibrada, poucas horas de sono ou sedentarismo. Quando um ingrediente viraliza, é comum que os benefícios reais sejam ampliados até se transformarem em promessas que a ciência não sustenta", ressalta Laita. Bebida Hojicha: conheça o chá japonês que virou tendência e saiba como ele se compara ao matcha O que muda quando o chá vira latte? Nas cafeterias e nas redes sociais, o hojicha raramente aparece sozinho. Assim como acontece com o matcha, é comum encontrar a bebida preparada com leite ou bebidas vegetais, além de açúcar, xaropes, cremes e outros ingredientes. Por isso, o perfil nutricional da preparação depende também da receita. O fato de a base ser um chá não significa que todas as versões tenham a mesma composição. "Não precisamos demonizar um hojicha latte ou matcha latte, mas é importante entender o que estamos consumindo. Quando há grande quantidade de xaropes e açúcar, a composição daquela bebida muda. Se o consumo é frequente, vale observar não apenas qual chá está na receita, mas tudo o que foi acrescentado a ele", orienta Laita. Outro ponto merece atenção para quem consome grandes quantidades de chá regularmente. Compostos presentes nessas bebidas podem reduzir a absorção do ferro não heme, encontrado principalmente em alimentos de origem vegetal. Para pessoas com deficiência de ferro ou maior risco de anemia, pode ser recomendável evitar o consumo junto às principais refeições, de acordo com orientação profissional. Afinal, vale trocar o matcha pelo hojicha? Mais do que uma substituição, as duas bebidas podem ocupar espaços diferentes na rotina. O matcha tem sabor mais intenso e oferece maior concentração de determinados compostos por ser consumido na forma de pó, além de apresentar mais cafeína. O hojicha, por sua vez, tem perfil tostado e costuma proporcionar uma quantidade menor do estimulante. "O crescimento do hojicha tem um componente de tendência, principalmente pelo interesse em bebidas japonesas e alternativas ao café e ao próprio matcha. Mas não é apenas marketing. Ele possui características próprias. O cuidado é não transformar essas diferenças em uma competição para saber qual é o chá mais saudável", conclui Lucas Moraro. Para Laita, a escolha pode ser muito mais simples do que a lógica das redes sociais sugere. "Na nutrição, quase nunca precisamos escolher um único alimento como campeão. Matcha e hojicha podem ocupar momentos diferentes da rotina. A melhor escolha é aquela que considera o objetivo, a tolerância à cafeína, o horário de consumo, a alimentação como um todo e, claro, o prazer. Se a pessoa gosta de hojicha porque acha saboroso, isso já é uma razão muito mais interessante para incluí-lo na rotina do que consumi-lo esperando algum efeito milagroso", finaliza.
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Hojicha é o novo matcha? Conheça o chá japonês que está ganhando espaço
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O Globo
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