Histórias que a Copa vai contar: o gol de honra que mudou a história do Panamá, classificado para seu segundo Mundial
Quando uma seleção chega à Copa do Mundo pela primeira vez, o céu é o limite para as expectativas. Mas basta a bola rolar para a realidade se impor. Foi o que ocorreu com o Panamá em 2018: três derrotas, 11 gols sofridos e só dois marcados. Duro golpe? Nem tanto. Participar do Mundial e ver o time balançar as redes representou um ponto de virada para o futebol no país.
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Historicamente à sombra do beisebol, a modalidade vive uma nova fase que se reflete no bom momento da equipe nacional e alimenta discussões entre os panamenhos sobre qual é, hoje, a mais popular do país. Um debate levantado mais para provocar do que por dúvidas reais. Afinal, a tradição, a maior quantidade de ídolos, a seleção mais competitiva e a histórica influência cultural dos EUA pesam a favor do esporte praticado com taco. Mas o crescimento do futebol salta aos olhos.
A festa da torcida na derrota por 6 a 1 para a Inglaterra, em 2018, na Rússia, chamou a atenção do mundo. Poucas vezes a alcunha “gol de honra” fez tanto sentido. A experiência mexeu com o sentimento de identidade dos panamenhos e despertou um nível de interesse que só o beisebol desfrutava até então.
Autor da façanha, Felipe Baloy virou ídolo. Já aposentado, o ex-zagueiro com passagens por Grêmio e Athletico virou treinador. Na nova função, foi campeão do Torneio Apertura de 2024 com o Tauro e, hoje, comanda a seleção sub-17.
O país não se contentou com a participação na Rússia e foi atrás de mais experiências com aquela. Em 2020, a federação contratou o hispano-dinamarquês Thomas Christiansen. Sob seu comando, a seleção bateu na trave nas Eliminatórias da Copa do Catar. Mas o projeto não foi abandonado e passou a render frutos.
No ano seguinte, los canaleros foram vice da Copa Ouro, a principal competição da América Central e do Norte. Convidados da Copa América-2024, surpreenderam ao chegar até as quartas.
Nas últimas três temporadas, terminaram entre os quatro primeiros da Nations League da Concacaf, o segundo torneio em importância da região. Em 2022-23 e 2023-24, foram semifinalistas. Na última edição, perderam na final para o México. Uma ascensão que teve como auge a classificação direta para a Copa de 2026.
— Mesmo não tendo chegado ao Catar, o carinho das pessoas desde o primeiro momento esteve presente, e os resultados acompanham isso. Acho que as pessoas viram uma evolução, uma mudança de filosofia, uma mudança no modelo de jogo que implementamos na seleção e que inspirou esperança — opinou Christiansen em entrevista ao site da Fifa.
Ao virar sinônimo de orgulho, o futebol panamenho mudou sua própria relação com a população. Como um esporte que reflete a sociedade, por anos foi muito vinculado à violência urbana, um grande problema do país. As décadas de 1990, 2000 e de 2010 foram marcadas por assassinatos de jogadores, seja por envolvimento com o tráfico, seja como vítimas indiretas (a capital e a província de Colón são palco de constantes disputas entre gangues).
A própria seleção viu dois de seus jogadores serem mortos num intervalo de seis anos. Em 2017, o volante Amílcar Henríquez foi baleado dentro de casa. Em 2023, o zagueiro Gilberto Hernández foi alvejado na rua ao lado de sete amigos. Episódios que ajudam a entender a dificuldade histórica da população em abraçar o esporte. Mas não é só isso.
O próprio campeonato panamenho ainda é recente. Por décadas, o esporte foi disputado em ligas amadoras provinciais. O modelo unificado e nacional passou a vigorar de forma regular a partir de 1988.
Com a liga nacional cada vez mais madura, a evolução da seleção e os jogadores panamenhos chegando às ligas estrangeiras, a popularidade do futebol cresceu. A seleção que se classificou para a Copa conta com cinco atletas que atuam na Europa. Entre eles, Amir Murillo, lateral-direito do Olympique de Marselha-FRA. Isso sem contar o atacante Kadir Barría, jovem promessa de 18 anos do Botafogo, que já enche seus conterrâneos de esperança.
A Inglaterra mais uma vez está no mesmo grupo da Copa, que também terá Croácia e Gana. Mas os panamenhos mais uma vez prometem uma festa nas arquibancadas. Com um presente animador e vislumbres de futuro, o futebol deixa as manchas do passado para trás e ganha mais corações no (ex?)país do beisebol.
