Histórias que a Copa vai contar: no grupo da Argentina, Jordânia vê o futebol como trégua em meio ao caos do Oriente Médio

 

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A inédita classificação da Jordânia à Copa do Mundo de 2026 não é apenas um feito esportivo: é um marco histórico para um país acostumado a sobreviver diante das turbulências do Oriente Médio. Cercada por Israel, Iraque, Palestina, Arábia Saudita e Síria, a Jordânia construiu sua trajetória recente como um raro polo de estabilidade em uma região marcada por guerras, revoluções e colapsos institucionais. A vaga no Mundial surge, assim, como símbolo de um país que, mesmo sob pressão constante, encontrou no futebol uma forma de afirmação nacional, união social e uma trégua simbólica diante de um ambiente geopolítico permanentemente tensionado.

Desde sua criação como Estado moderno, após o fim do mandato britânico no século 20, a Jordânia, tema do quinto capítulo da série do GLOBO, que traz histórias de seleções de pouca expressão no futebol que estarão na competição, precisou equilibrar diplomacia cuidadosa, alianças estratégicas e controle interno para garantir sua sobrevivência. Governada por uma monarquia que apostou na previsibilidade institucional e no diálogo regional, o país se consolidou como mediador em conflitos sensíveis, mantendo canais abertos tanto com o Ocidente quanto com diferentes representantes do mundo árabe. Essa postura, embora tenha assegurado estabilidade política, também colocou a Jordânia na linha de impacto indireto de praticamente todos os grandes conflitos do Oriente Médio nas últimas décadas.

Economia vulnerável

Sem grandes reservas de petróleo e altamente dependente de ajuda externa, a economia jordaniana sempre foi vulnerável a choques regionais. Guerras em países vizinhos afetaram rotas comerciais, investimentos e o custo de vida da população. Ainda assim, o país conseguiu evitar colapsos institucionais, apostando em coesão social, controle interno e um discurso de unidade nacional. Essa resiliência cotidiana moldou uma sociedade acostumada a conviver com tensões externas que, por vezes, se manifestam de forma quase surreal no dia a dia, como no relato de estrangeiros que vivem no país e observam mísseis cruzando o céu jordaniano rumo a conflitos que não acontecem dentro de suas fronteiras.

A guerra civil na Síria representou um dos maiores desafios dessa trajetória. Milhões de refugiados atravessaram a fronteira em busca de segurança, alterando a demografia e a dinâmica social do país. Cidades cresceram rapidamente, serviços públicos foram sobrecarregados e o mercado de trabalho passou a enfrentar disputas ainda mais intensas. Apesar disso, a Jordânia evitou rupturas sociais profundas e manteve-se como um dos países mais pacíficos e estáveis da região. Nesse contexto, o futebol passou a ocupar um papel central como espaço de integração, alívio emocional e construção de pertencimento entre jordanianos e refugiados.

No grupo da Argentina

Dentro desse cenário, a seleção transformou-se em um símbolo poderoso. A vaga para a Copa — está no Grupo J, ao lado da Argentina, atual campeã mundial, da Áustria e da Argélia — representa mais do que a chegada a um torneio esportivo: é a materialização de décadas de resistência, equilíbrio geopolítico e busca por estabilidade. Enfrentar seleções tradicionais reflete a própria trajetória do país, acostumado a competir com forças maiores, resistir às pressões e afirmar sua identidade.

Para a Jordânia, o futebol se consolida como uma trégua em um país cercado por guerras, oferecendo à população um momento coletivo de orgulho, união e projeção de futuro em meio a uma região em permanente conflito.