Histórias que a Copa vai contar: ‘Nação-diáspora’, seleção de Cabo Verde reflete sociedade
Há, no Brasil, uma frase famosa que diz que “o futebol é um reflexo da sociedade”. Se por aqui a frase divide opiniões, em Cabo Verde ela pode ser levada ao pé da letra. Conhecido por ser uma “nação-diáspora”, já que a grande maioria dos cabo-verdianos reside no exterior, o país se classificou para a Copa do Mundo com uma escalação titular formada por cinco atletas que nasceram em outros países — entre os convocados, o número crescia para 14 jogadores.
Segundo menor país a se classificar para um Mundial — possui 4 mil km² de área total, maior apenas que o também estreante Curaçao, com 444 km² —, Cabo Verde tem uma população que gira em torno de 530 a 600 mil habitantes, sendo cerca de 15 mil imigrantes. Por outro lado, estimativas apontam que até 1,5 milhão de cabo-verdianos e seus descendentes residem em países como Estados Unidos e Portugal, além de outros destinos na Europa — a descolonização ocorreu há apenas 50 anos, em julho de 1975.
Históricos, os motivos para o alto índice de emigração se baseiam na busca por uma melhor qualidade de vida. O problema crônico das secas recorrentes no país, pela falta de chuva, dificulta a agricultura, o que ocasiona o aumento da fome. Além disso, o desemprego, que atinge cerca de 17 mil pessoas em Cabo Verde, segundo dados governamentais, e a falta de boas oportunidades econômicas fizeram cabo-verdianos buscarem seu lugar ao sol no “sonho americano”, enquanto as raízes portuguesas decorrentes da colonização também explicam a ida para terras lusitanas.
Classificada para o Mundial como primeira colocada das Eliminatórias da África, em um grupo que tinha Camarões como grande favorita, a seleção de Cabo Verde tem o trabalho de recrutamento em outros países como grande trunfo.
— A seleção tem um trabalho bem grande de procura de talentos. No futebol, não há férias. Mesmo que descansemos um bocado, a cabeça vai estar com os jogadores, com a federação — declarou o técnico cabo-verdiano Pedro Leitão Britto, o Bubista, após a vitória por 3 a 0 contra Essuatíni, em outubro, que garantiu o país na Copa do Mundo.
E, para detectar tais talentos, a federação adota desde os métodos mais tradicionais, baseados nas ferramentas de scout e nos contatos oficiais entre federação, clubes e jogadores, até os menos usuais do futebol. Natural de Crumlin, na Irlanda, o zagueiro titular Roberto “Pico” Lopes, por exemplo, foi contatado pelo LinkedIn, famosa plataforma do mundo corporativo.
— Achei que a mensagem era um spam. Eu deveria ter usado o Google Tradutor antes — brincou o defensor, em entrevista à Fifa, sobre o convite feito em 2018, em inglês, pelo então treinador Rui Águas, o qual ignorou por um ano.
— Era algo que sempre quis e no qual adoraria estar envolvido. Tive a sorte de a oportunidade ter aparecido de novo e, desde então, tem sido uma aventura incrível — concluiu.
