Histórias que a Copa vai contar: investimento no esporte faz Uzbequistão brilhar na Olimpíada e chegar ao Mundial
O aumento de 32 para 48 seleções participantes da Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, México e Canadá, de 11 de junho a 19 de julho, fez com que alguns países se classificassem pela primeira vez para o torneio. É o caso do Uzbequistão, segundo capítulo da série “Histórias que a Copa vai contar”, do GLOBO, que mostra como a competição pode ajudar a levar a um grande público contextos sociais, políticos e culturais de nações de pouca expressão no futebol.
O país asiático, que teve independência declarada em 1991, será a terceira ex-república da União Soviética a disputar uma Copa do Mundo, juntando-se à Rússia e à Ucrânia. Presidente desde 2016, Shavkat Mirziyoyev tem realizado grandes investimentos não só no futebol, mas no esporte em geral, nos últimos anos. Trata-se de um dos pilares do processo gradual de abertura democrática do país, que viveu décadas de autoritarismo, denúncias de violações de direitos humanos, trabalho escravo, repressão aos opositores e tortura, principalmente durante o mandato de seu antecessor, Islam Karimov, que ficou no cargo de 1991 até morrer em 2016.
— É um país que tem feito um trabalho muito bom para trazer essa imagem através do esporte. Pode chamar isso de “sports washing”, talvez, mas eu não sei se é bem o caso, porque ainda é bem menos agressivo. É mais um investimento interno. É um processo de transformação do país, que era mais fechado, mais claramente repressivo e que vem se abrindo, conseguindo mudar a sua economia e investindo em se tornar uma potência esportiva — explicou o jornalista Carlos Massari, do podcast Copa além da Copa, que analisa esporte, cultura, história e sociedade.
Além da inédita classificação para o Mundial de 2026, o Uzbequistão também sediou a Copa do Mundo de futsal em 2024 e garantiu um resultado histórico nos Jogos Olímpicos de Paris. Ficou em 13º lugar no geral no quadro de medalhas, melhor colocação na era pós-soviética. Foram oito ouros, duas pratas e três bronzes. O desempenho foi puxado pelos esportes de combate: cinco ouros no boxe e medalhas também em lutas, judô e taekwondo.
Muito dessa evolução esportiva passa pela melhora na economia no governo de Mirziyoyev. Rico em recursos como petróleo, gás natural, carvão mineral e ouro, o Uzbequistão vê sua economia melhorar a cada ano que passa — e a tendência é que não pare de crescer. A partir disso, e do fato de o país asiático sempre ter apreço pelo futebol, o presidente Shavkat Mirziyoyev decidiu investir no esporte.
O incentivo no futebol é tanto que o presidente do Uzbequistão homenageou a seleção nacional pela inédita classificação para a Copa do Mundo. Cada jogador foi presenteado com um carro, além de medalhas comemorativas e placas de honra ao mérito.
Uma das estrelas do elenco que garantiu o Uzbequistão na Copa é o zagueiro Abdukodir Khusanov, de 21 anos, contratado pelo Manchester City no começo de 2025 por 40 milhões de libras esterlinas (quase R$ 300 milhões, na cotação da época). Também se destaca o atacante Shomurodov, que atua no Istanbul Basaksehir, emprestado pela Roma, e é o capitão da seleção.
O time uzbeque vem em uma crescente também dentro de campo e chegou a engatar uma série de 21 jogos de invencibilidade, entre setembro de 2023 e novembro de 2024, com 14 vitórias e sete empates. Perdeu para o Catar por 3 a 2 e emplacou outra sequência, de 11 partidas sem derrota, até ser batido pelo Uruguai na Data Fifa de outubro de 2025.
O Uzbequistão está no Grupo K, junto de Portugal, Colômbia e o representante da Repescagem Intercontinental 1 (RD Congo, Jamaica ou Nova Caledônia). A classificação para a Copa de 2026 veio com uma campanha de dez vitórias, cinco empates e apenas uma derrota nas Eliminatórias da Ásia. A vaga foi carimbada com uma rodada de antecedência, com um empate em 0 a 0 com os Emirados Árabes Unidos, que garantiu o segundo lugar do Grupo A na terceira fase da competição.
