Histórias que a Copa vai contar: África do Sul se reinventa e cria estilo de jogo autêntico baseado na liga nacional
O ano de 1995, quando a África do Sul venceu a Copa do Mundo de rúgbi em casa sob a presidência de Nelson Mandela, é amplamente considerado o início simbólico da era da integração esportiva do país. Logo após o apartheid — sistema de segregação racial, que institucionalizou a separação da população branca das demais etnias, sobretudo a maioria negra —, a cena do primeiro presidente negro do país entregando o troféu a um jogador branco, François Pienaar, carregava um forte peso simbólico, embora o país sofra até hoje com as mazelas da desigualdade social e do preconceito racial.
Histórias que a Copa vai contar: Irã chegará em meio a tensões diplomáticas, restrições de visto e conflitos de direitos humanos
Histórias que a Copa vai contar: a onda azul de Curaçao, o menor país do mundial
Em 2010, sediar a Copa do Mundo da Fifa levou a expectativa do povo sul-africano a uma evolução também no futebol — mesmo que a equipe não seja tão vencedora quanto a de rúgbi (tetracampeã mundial), a modalidade segue sendo a mais querida no país. Cerca de 80% da população gosta de futebol, segundo uma pesquisa da Statista, plataforma global de dados e inteligência de negócios. Rúgbi e críquete ficam logo atrás.
E 16 anos depois daquela edição do Mundial, os sons das vuvuzelas finalmente poderão voltar a reverberar em um estádio de Copa. A África do Sul se classificou pela quarta vez para o torneio e fará a partida de abertura, contra o México no dia 11 de junho (Coreia do Sul e uma seleção da repescagem europeia completao o Grupo A), podendo demonstrar ao mundo como conseguiu criar um estilo de jogo tão autêntico quanto o carisma de torcida e jogadores. O país é o tema do quarto capítulo da série do GLOBO, que traz histórias de seleções de pouca expressão no futebol que estarão na competição .
Seleção da África do Sul posando para foto antes de jogo com Egito, pela Copa Africana de Nações
Franck FIFE / AFP
As comemorações, danças típicas e calor humano dos Bafana Bafana renderam um Mundial único, em que até mesmo a bola Jabulani foi atração. Apesar de cair na fase de grupos, a seleção deu sinais de uma melhoria técnica que rendeu, nos anos seguintes, uma subida vertiginosa no ranking da Fifa, de 90º para 38º. Mas o que parecia ser uma nova força do futebol africano não conseguiu se classificar para os mundiais seguintes, de 2014, 2018 e 2022. A derrocada, no entanto, serviu para a seleção encontrar uma identidade que construiu o atual time.
— A melhoria da seleção foi baseada especialmente no desenvolvimento do próprio futebol africano, do ponto de vista técnico e até mesmo tático. A África do Sul tem uma das ligas mais fortes do continente. Tem o Orlando Pirates, o Kaizer Chiefs, mas é um projeto que está muito espelhado no sucesso do Mamelodi Sundowns. A equipe foi e tem sido um dos principais cases do futebol africano nos últimos dez anos, porque conseguiu colocar um projeto e uma identidade de jogo muito espelhada na cultura do futebol sul-africano. Gosta de atacar de forma muito fluida e com muita liberdade — analisa Luis Fernando Filho, comentarista especializado em futebol africano, da CazéTV e da Band. E continua: — Essa revolução tática faz com que o estilo de jogo se torne também a base da seleção da África do Sul.
Técnico da seleção da África do Sul, Hugo Broos
Divulgação/Fifa
Outro nome importante para deixar esta seleção mais competitiva foi o do treinador belga Hugo Broos, ex-jogador que participou da Copa de 1986 e que já comandou a seleção camaronesa. Sua chegada foi crucial para unir a plasticidade do ataque com a segurança da defesa.
— Ele traz o pragmatismo tático que era tão necessário para essa África do Sul. Historicamente, sempre se falou que a seleção tem muito talento, mas muitas vezes precisava de um pouco mais de objetividade em grandes jogos. E Hugo traz isso, ao mesmo tempo em que respeita a identidade de jogo dos sul-africanos, que preza a posse de bola, liberdade e improviso, mas ele traz um pragmatismo, sobretudo defensivo — explica Filho.
Mesmo que tenha sido eliminada por Camarões, neste domingo, na Copa Africana de Nações, por 2 a 1, a solidez no plano de jogo dos sul-africanos foi essencial para a equipe se classificar para o Mundial. Durante as eliminatórias, a seleção foi punida com uma derrota por escalar um jogador suspenso no jogo contra Lesoto, em março, dificultando a classificação, que só se concretizou na última rodada, ao vencer Ruanda por 3 a 0.
