Histórias que a Copa vai contar: a onda azul de Curaçao, o menor país do mundial

 

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É preciso um generoso zoom em mapas digitais para localizar as duas pequenas ilhas ao norte da Venezuela que formam o território de Curaçao, uma das menores e mais jovens nações do mundo. Até junho do ano que vem, porém, o pequeno país insular ganhará notoriedade mundial, graças à magia do futebol: será uma das 48 seleções que disputarão a Copa do Mundo, feito inédito para a nação, hoje conhecida pelos pontos turísticos paradisíacos banhados pelas águas caribenhas.

A seleção curaçauense abre a série do GLOBO, que traz narrativas que estarão em campo durante a Copa do Mundo de 2026, ao olhar para seleções de pouca expressão esportiva, mas carregadas de histórias sociais, políticas e culturais que ajudam a explicar como o futebol também pode explicar o mundo. Nos próximos dias, a série se debruçará sobre países como Uzbequistão, Irã, Panamá, dentre outros.

A história de Curaçao é atravessada pela colonização holandesa. O país já competiu como Território de Curaçao entre os anos 1930 e o fim dos anos 1950 e integrou a seleção das Antilhas Holandesas de 1962 a 2010. Em 2010, as Antilhas foram dissolvidas e deram origem a Curaçao e São Martinho, que ganharam o status de países, ainda que partes do Reino da Holanda até os dias de hoje.


Os processos de fragmentação, naturalmente, mexeram com a capacidade esportiva. Mas a consolidação do futebol de Curaçao foi acelerada. As Eliminatórias para a Copa de 2014 foram as primeiras da nova história futebolística do país. No ciclo para o Catar-2022, a equipe fez jogo duro com o Panamá, mas acabou eliminada antes da terceira fase, que valeria vagas no Mundial. Paralelamente, se classificou pela primeira vez à Copa Ouro da Concacaf em 2017 e chegou às quartas de final da competição em 2019. Em 2017, já dava mostras do que poderia fazer: foi campeã da Copa do Caribe, vencendo a Jamaica, potência regional, na decisão.

Uma Copa do Mundo com 48 seleções e com três das maiores forças da Concacaf (EUA, Canadá e México) classificadas de antemão, como sedes, abriu caminho para a sonhada primeira aventura da “Onda Azul” na competição. Comandada por Dick Advocaat, treinador da Holanda eliminada pelo Brasil na Copa do Mundo de 1994, Curaçao liderou invicto o Grupo B da terceira fase das Eliminatórias da Concacaf, com três vitórias e três empates, mandando a Jamaica para a repescagem. Aos 78 anos, Advocaat deve se tornar o treinador mais velho em um Mundial.

Buscas de talentos na Holanda

Num país em que o beisebol e o ramo turístico-esportivo aquático são mais proeminentes que o futebol, com 155 mil habitantes e um território menor que o de cidades como Atibaia (SP) e Duque de Caxias (RJ), a capilaridade de talentos está na Holanda. Em estratégia adotada por várias seleções de médio e pequeno porte ao redor do mundo, a federação do país — que enfrentou uma crise política e financeira antes da chegada do atual presidente, Gilbert Martina — buscou jogadores com ascendência em Curaçao para compor sua equipe. Um processo que ganhou força durante a passagem do lendário atacante holandês Patrick Kluivert, filho de uma curaçauense, como técnico, entre 2015 e 2016.

Curaçao se classificou para a Copa do Mundo em 18 de novembro de 2025 após segurar empate em 0 a 0 fora de casa com a Jamaica

Divulgação / Fifa

O país passou por um grande processo de emigração entre 1985 e o início dos anos 2000, quando a maior refinaria do país encerrou as atividades, fechando postos de trabalho e abalando a economia nacional. Responsável pelas relações internacionais e pela defesa militar de Curaçao, a Holanda virou o lar de várias famílias com origem no país insular, que hoje veem seus herdeiros optando por vestir a camisa azul.

É o caso do maior artilheiro da história da seleção, o atacante Rangelo Janga, de 33 anos (21 gols em 42 jogos), nascido em Roterdã. E dos irmãos Bacuna, nascidos em Groningen e símbolos da atual geração do país.

Mais velho, Leandro Bacuna, de 34 anos, é capitão e atleta com mais jogos na história da seleção: 68. O volante foi revelado pelo Groningen e fez carreira longa no futebol inglês: passou por clubes como Aston Villa, Reading, Cardiff City e Watford antes de chegar ao Bandirmaspor-TUR.

O irmão mais novo, Juninho Bacuna, de 28 anos, volante, fez trajetória parecida. Ambos atuaram nas categorias de base da Holanda, mas viram as chances diminuírem na chegada ao profissional. Juninho defendeu Huddersfield e Birmingham, na Inglaterra, além de Rangers-ESC e Al-Wheda-SAU, antes de rumar ao Gaziantep-TUR.

— Eu tinha 21 anos e muito tempo para analisar minhas chances na seleção holandesa. Mas escolhi cedo, e uma das razões foi jogar no mesmo time do meu irmão, para que a família nos visse jogando juntos. E minhas chances na Holanda, sendo realista, eram distantes — explicou Juninho à BBC.

Influência portuguesa no idioma

O papiamento, língua nativa de Curaçao, tem influências do português e do espanhol. Divide espaço com o holandês no país. O idioma é um dos motivos de orgulho do meia-atacante Tahith Chong, de 26 anos. Revelado pelo Manchester United-ING e hoje no Sheffield United, Chong nasceu em Willemstad, capital do país, e manteve um longo relacionamento com a seleção de sua terra natal até finalmente atuar pela primeira vez pela equipe, em setembro deste ano. Na época, anunciou a novidade em vídeo, falando em papiamento.

Em sua segunda partida, marcou dois gols em 12 minutos na vitória por 3 a 2 sobre Bermudas, pelas Eliminatórias. Poucas semanas depois, sofreu lesão no joelho. É um dos reforços, em termos esportivos e de identificação, que Curaçao espera ter até o Mundial. Num dificílimo Grupo E, com Alemanha, Costa do Marfim e Equador, o menor país a disputar uma Copa carimbará o passaporte porque pensou grande.