Histórias da Copa do Mundo: Em busca da vaga, Bolívia, Suriname e Iraque querem escrever suas próprias histórias no futebol

 

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A segunda repescagem intercontinental traz Bolívia, Suriname e Iraque na briga pela vaga no Grupo I, que conta com França, Senegal e Noruega. Cada país entrará em campo em março, no México, com o desejo de estar presente na Copa do Mundo de 2026 e contar sua história ao mundo.

Favorito, o Iraque espera o vencedor da semifinal entre Bolívia e Suriname, no dia 26 de março. Retornar ao México, onde disputou a sua única Copa do Mundo em 1986, representa um sonho coletivo de um país que pode se reconstruir emocionalmente pelo futebol.

Pela união do país

Há 40 anos, a seleção conseguiu a classificação durante a Guerra Irã-Iraque, que só terminou em 1988. Comandado pelo brasileiro Evaristo de Macedo, o time não fez um ponto sequer (perdeu para México, Paraguai e Bélgica), mas aquele momento uniu o país e foi histórico pelo contexto da época. Até hoje, Ahmed Radhi, autor do único gol iraquiano em Mundiais, é um dos maiores ídolos do futebol iraquiano.

Hoje, o contexto não é tão diferente. Nas últimas quatro décadas, o país sofreu invasões, conflitos internos e se vê dividido. O futebol continua sendo o motor de uma união às vezes impossível fora das quatro linhas.

— Para os torcedores do Iraque, uma espera de 40 anos, atravessando a conturbada história moderna do país, para voltar à Copa do Mundo pode acabar no último jogo de uma épica campanha de 21 partidas nas Eliminatórias. Se algum país estiver desesperado para se classificar, é este. São 45 milhões de pessoas vivendo no Iraque, e provavelmente mais 10 milhões vivendo fora do país pela guerra. Então há muita emoção envolvida — disse o técnico Graham Arnold após o sorteio da repescagem.

Para se apresentar ao mundo

Azarão da repescagem, o Suriname, ao contrário do Iraque, precisa se apresentar ao mundo. O menor país da América do Sul disputa as eliminatórias pela Concacaf (assim como as Guianas) justamente para ter mais chances de alcançar uma vaga inédita na Copa do Mundo. Com a expansão do Mundial, essa hora chegou.

O pequeno território que faz parte da região caribenha quer usar o passado colonial a seu favor. Colônia da Holanda a partir do século XVII até a independência total em 1975 — com períodos de domínio britânico —, o Suriname é um exemplo do futebol globalizado.

Em 2019, o governo e a federação de futebol criaram um mecanismo para emitir “passaportes esportivos” temporários a atletas holandeses com ascendência surinamesa. Desde então, os jogadores podem representar o país em jogos internacionais sem precisar renunciar à sua cidadania holandesa ou cumprir residência de cinco anos.

Isso permitiu que hoje praticamente toda seleção seja formada por jogadores nascidos na Holanda, que atuam em ligas europeias bem mais fortes do que o campeonato local do Suriname. Todos sob o comando de Henk Ten Cate, experiente treinador holandês.

E, apesar de azarões, as chances atuais são bem maiores do que no passado, quando os filhos da terra migraram para a Holanda e fizeram história na seleção “Laranja Mecânica”, como Edgar Davids, Aron Winter e Clarence Seedorf.

Força à nível do mar

Dos três postulantes à vaga no Grupo I, a Bolívia é a mais experiente em Copas. Mas isso faz parte de um passado distante em que o futebol se configurava de outra forma. A seleção boliviana esteve presente nos dois primeiros Mundiais na América do Sul (1930 e 1950) como convidada. A última participação foi na Copa de 1994, nos Estados Unidos..

Três décadas depois, os bolivianos tentam voltar aos gramados dos Estados Unidos como sinal de força de um país que sempre esteve em desvantagem em relação aos seus vizinhos sul-americanos econômica e estruturalmente.

O ponto forte boliviano não poderá ser transportado para o confronto com o Suriname. Acostumada com os benefícios de jogar na altitude de La Paz e localidades vizinhas 3.500 metros acima do nível do mar (foi assim que venceu o Brasil pelas Eliminatórias e confirmou a vaga na repescagem), a Bolívia pode, no máximo, aproveitar os 1.500m de altitude de Guadalajara, caso a partida seja lá. Mas os bolivianos querem provar que não dependem apenas do ar rarefeito.