História por Trás da Foto ‘Almoço no Topo de Arranha-Céu’: ‘Os EUA foram construídos por imigrantes’, diz arquivista do Rockefeller Center
“A história imigrante é a história da América e deve ser reconhecida”, define Christine Roussel, primeira e única arquivista do 30 Rockefeller Plaza, antigo Rockefeller Center. Há 20 anos, a pesquisadora estuda o registro “Almoço no Topo de Arranha-Céu” e ressalta a importância da cultura estrangeira para a construção de um ícone arquitetônico de Nova York, nos Estados Unidos. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Christine avalia as atuais políticas anti-imigração do presidente estadunidense, Donald Trump, e a representatividade imigrante para a cultura do país.
Resultado de décadas de dedicação da restauradora, o livro “Almoço em uma viga: A Criação de uma Fotografia Americana” chega às livrarias dos Estados Unidos em abril. Porém, não é a primeira publicação de Christine no ramo: em “A Arte do Rockefeller Center”, ela foi pioneira nos estudos estilísticos e arquitetônicos da construção.
— Não planejei, há sete anos, escrever um livro que colocasse a história dos imigrantes em um pedestal, mas aprecio esse resultado deliberadamente. Mergulhei em histórias que transformaram essa escrita em um trabalho de paixão.
Aos 87 anos, a estudiosa pontua que o processo de escrita foi desafiador, sobretudo pelos “desvios em diversas tangentes” causados pelos documentos históricos. Ao longo das pesquisas, Christine enfrentou o desafio de resgatar a história de grupos minoritários, cujas identidades foram silenciadas ou ignoradas nos registros oficiais da época.
Início da construção do Rockfeller Center, em Nova York, em 1932
Reprodução/Rockfeller Center
Para qualquer arquivista ou historiador, é fundamental perguntar: "O que está faltando? Por que não há negros aqui? Por que não há indígenas? Por que só há mulheres brancas?". Você deve sempre perguntar o que está ausente, além do que está presente. — Christine Roussel
Segundo a escritora, os 11 trabalhadores da foto simbolizaram o espírito de uma metrópole apesar da crise econômica. “Havia uma mistura de imigrantes e nativos americanos sentados naquele feixe de aço flutuando sobre a cidade”, assegura. Desde 1932, quando o registro foi feito, estrangeiros se tornaram uma parcela relevante dos residentes nos EUA.
Ciente do legado estrangeiro em terras norte-americanas, Christine não esconde a discordância em relação às políticas restritivas de imigração. Essas medidas ignoram a essência histórica de um país construído por sucessivas ondas migratórias e negligenciam a contribuição que os imigrantes continuam a oferecer à sociedade contemporânea, reflete ela.
— Infelizmente, estamos passando por um momento difícil em relação aos nossos imigrantes, como os tratamos e tentamos incorporá-los ou nos livrar deles. Mas acredito que o imigrante é a história da América e deve ser reconhecido como tal — atesta a pesquisadora.
Registro feito durante a construção do Rockfeller Center, em 1932
Reprodução/Rockfeller Center
“Temos raízes que nos tornam famílias de imigrantes”, reafirma Christine. Contudo, a arquivista constatou, à medida que a pesquisa avançava, que o foco da narrativa era a capacidade de reinvenção do Rockefeller Center. O segredo da longevidade do complexo reside em sua transformação em um espaço vibrante e democrático, identifica.
— O Centro tornou-se mais acessível. Hoje, você pode comer um cachorro-quente ou uma fatia de pizza, ou ter um almoço francês caríssimo. Essa inclusão mantém o lugar vivo — destaca.
Foto histórica
A fotografia “Almoço no Topo de Arranha-Céu”, originalmente intitulada “Construtores da Cidade Desfrutam de um Almoço”, eterniza o trabalho de milhares de estrangeiros que atravessaram o mundo em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos. Feito no período da construção do Rockefeller Center, o registro de 1932 se tornou uma das mais conhecidas imagens do século 20.
Onze operários metalúrgicos almoçam, conversam e fumam casualmente, como se não estivessem sentados precariamente em uma viga de aço a 259 metros de altura. A cena captou a atenção de milhões de leitores do The New York Herald-Tribune após a publicação do registro em 2 de outubro de 1932. As informações sobre os retratados e o fotógrafo se perderam com o tempo.
Até a década de 1950, muitos fotógrafos não levavam os créditos por suas capturas. No dia do clique, dezenas de profissionais registravam a construção. Após quase 94 anos, a imagem permanece sem autor definido: um nome citado com frequência é Charles C. Ebbets. Muitos confundem a foto com um registro de Lewis Hine, conhecido pelas imagens do Empire State Building.
Praticamente todo o conhecimento sobre a foto é atribuído ao trabalho investigativo dos cineastas irlandeses Seán e Éamonn Ó Cualáín com Christine Roussel. A pesquisa dos irmãos deu origem ao documentário “Men at Lunch”, em 2012.
Ao longo das décadas, a fotografia recebeu diferentes nomes, como “Almoço em uma Viga” e “Homens em uma Viga”. A imagem se tornou parte da cultura pop norte-americana e, atualmente, pode ser encontrada em quadros, camisetas ou ímãs de geladeira. Essa fascinação duradoura, no entanto, remete ao simbolismo de uma época em que o país buscava novos horizontes.
Fotografia “Almoço no Topo de Arranha-Céu” colorizada por Zak Kogut
Reprodução
Arquivista e escritora, Christine Roussel explica que o oeste dos Estados Unidos já havia sido colonizado no início do século 20.
— Eles sentiam que o país já estava ocupado de costa a costa, então encontraram uma nova fronteira: os arranha-céus e os aviões. Os operários envolvidos nas construções eram chamados de “caubóis do céu” — detalha a pesquisadora.
Foto-publicidade
Em termos contemporâneos, “Almoço no Topo de Arranha-Céu” viralizou. Até mesmo a localização se tornou alvo de debate. Muitos nova-iorquinos atribuíram a imagem ao Empire State Building, o icônico arranha-céu da Big Apple que inspirou o hit “Empire State of Mind”, de Alicia Keys e Jay-Z. A foto foi, na verdade, pensada como propaganda do Rockefeller Center.
Apesar do caráter publicitário, aqueles trabalhadores realmente participaram da construção – e não costumavam almoçar em vigas suspensas. O momento foi encenado em setembro de 1932, sem equipamentos de segurança, mas com coragem e imprudência.
A fotografia foi tirada no contexto da Grande Depressão, o período mais intenso de recessão econômica do século passado. O projeto publicitário do novo arranha-céu tinha o objetivo de animar a população a partir de uma perspectiva de desenvolvimento de Nova York: “criar uma cidade dentro de uma cidade”, conforme descreveu o empresário e idealizador John D. Rockefeller Jr.
Foi a Grande Depressão que tornou a foto um símbolo mundial. O auge da crise foi em 1932. Por isso, o grande projeto de Rockefeller no coração de Nova York foi um salto de fé. — Christine Roussel
Christine afirma que o empresário se viu isolado em sua empreitada após ser abandonado por parceiros ricos na construção de uma nova ópera. Ele tambufocado por compromissos de arrendamento com a Universidade de Columbia.
Trabalhador na construção do arranha-céu Rockfeller Center durante a décadade 1930
Reprodução/Rockfeller Center
— Basicamente, Rockefeller foi deixado sozinho com o prejuízo. Mas não era incomum para ele entrar em projetos de construção, basta pensar nas reformas do Palácio de Versalhes [na França]. Ele investiu dinheiro em tantos projetos que eram como sua promessa ao mundo de dias melhores que viriam.
Mais de 400 mil pessoas foram contratadas para construir o Rockefeller Center, segundo documentos guardados pelo arranha-céu. Era uma oportunidade econômica sem precedentes para uma população que lutava contra a Grande Depressão. Muitos enfrentavam também discriminação com base em sua origem.
Irlandeses, italianos, escandinavos, europeus orientais, alemães e até mesmo metalúrgicos do Canadá ajudaram a colocar o edifício de pé. A inauguração do arranha-céu, cujo nome era "RCA Building", ocorreu em 1933. Foram cerca de dez anos de contribuição até a finalização do complexo, em 1940.
Christine reconhece que pessoas de todo o mundo afirmaram ter conhecimento sobre os homens da foto ao longo das décadas.
— Ouvi pelo menos 88 pessoas que acreditam que seus ancestrais estavam naquele feixe. Mas só há espaço para 11. Muitos focam no terceiro homem da esquerda para a direita, que tem um aspecto muito “vovô”; ele se tornou o avô de todos que acham que têm um antepassado na foto — estima, aos risos.
Experiência para turistas no Top of the Rock: The Beam
Reprodução/Rockfeller Center
Em 2023, o complexo 30 Rockefeller Plaza viu uma oportunidade de continuar espalhando o legado da foto “Almoço no Topo de Arranha-Céu”: a recriação da cena para turistas. Visitantes podem viver a experiência no Top of the Rock: The Beam, onde são elevados a 3,6 metros acima do deck e girados 180 graus. Além do cenário perfeito para fotos, eles podem apreciar a vista incrível do Central Park e arredores.
