Hiperfamiliaridade facial: conheça a condição que faz você pensar que reconhece todas as pessoas que vê
A hiperfamiliaridade facial (HFF, na sigla em inglês) é uma condição rara e desorientadora, caracterizada pela forte sensação de conhecer toda e qualquer pessoa, mesmo que você nunca a tenha visto na vida.
Para entender os mecanismos neurológicos da condição, pesquisadores da Universidade de York, no Reino Unido, com a ajuda de personagens da série de sucesso "Game of Thrones", parecem ter descoberto a causa desse confuso distúrbio.
Os autores do estudo examinaram o cérebro de Nell, de 49 anos, que desenvolveu a condição repentinamente após uma enxaqueca. Como resultado, ela frequentemente sente uma pontada de reconhecimento ao encontrar pessoas completamente desconhecidas.
Utilizando ressonância magnética (RM), a equipe observou a atividade neural de Nell enquanto ela assistia a um episódio de Game of Thrones — série que ela revelou nunca ter visto na vida.
Apesar de não ter tido nenhum contato prévio com os personagens, Nell afirmou reconhecer muitos de seus rostos.
Os resultados da pesquisa, publicados na revista Cortex, indicaram que o sistema visual de Nell funcionou normalmente durante o experimento e apresentou atividade regular em regiões cerebrais importantes envolvidas no reconhecimento de rostos, como a área fusiforme da face.
No entanto, a conectividade entre essas regiões e o lobo temporal medial — que contém o hipocampo e outras estruturas cerebrais associadas à memória — mostrou-se excessivamente forte.
A equipe de pesquisadores acredita que a doença é causada por uma amplificação dos sinais que viajam entre as regiões de reconhecimento facial e essas estruturas de memória, desencadeando uma sensação de familiaridade para cada rosto que Nell vê.
“Descobrimos que a conectividade entre as regiões cerebrais visuais responsáveis pelo processamento de rostos e as regiões de memória estava aumentada em indivíduos com HFF. Essa descoberta faz sentido, pois sugere que o cérebro reconhece que está vendo um rosto, e a ligação hipersensível e exagerada com as regiões cerebrais de memória desencadeia a falsa sensação de que um rosto é familiar”, explicou a doutoranda Kira Noad, da Universidade de York, no Reino Unido, em um e-mail para o IFLScience.
Depois, os cientistas compararam os exames de imagem cerebral de Nell com os de dois grupos de participantes — um composto por fãs de Game of Thrones e o outro por pessoas que assistiam à série pela primeira vez.
Surpreendentemente, a atividade no hipocampo de Nell coincidiu com a do público assíduo da série, apesar de ela nunca ter assistido a um episódio antes.
“Nossos resultados fornecem uma visão sobre os correlatos neurais subjacentes, o que pode ser valioso para intervenções futuras. Por exemplo, mostramos que a HFF não é um problema de processamento visual, mas pode ser melhor compreendida como um problema de hipersensibilidade do sistema de memória. Assim, intervenções futuras podem se beneficiar do foco no treinamento da memória, em vez do treinamento visual”, disse Noad.
