Hezbollah suga o mágico Líbano para conflito Israel-Irã

 

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Planejava ir com minha mulher, também descendente de libaneses, e meus filhos para o Líbano passar o feriado da Páscoa. Os dois sonham conhecer o país que tanto falo desde o nascimento deles. Queria que eles vissem a terra onde nasceram meus avós e todos meus antepassados do meu lado paterno por séculos ou milênios, talvez remontando aos tempos dos fenícios. Queria também que conhecessem Beirute, uma das metrópoles mais mágicas e trágicas do planeta, onde a felicidade e a tristeza convivem lado a lado, assim como suas igrejas e mesquitas. Queria que visitassem todo o Líbano, com o Mar Mediterrâneo de Byblos e Batroun, os Montes Nevados de Faraya, os cedros de Bsharri, as ruínas romanas de Baalbek, as vinícolas de Zahle e as lindas casas de pedra e telhado vermelho da minha vila de Rashaya, aos pés do Monte Hermon.

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Parecia que o Líbano vivia nos últimos meses um raro momento de estabilidade, ainda que Israel nunca tenha interrompido seus bombardeios ao país desde o cessar-fogo em novembro de 2024 e siga ocupando cinco pontos do sul do território libanês. Os alvos israelenses são o Hezbollah, uma milícia aliada ao Irã com braços militar e político que atuou por décadas como uma espécie de Estado paralelo em Beirute. Sempre levou mais em consideração os interesses iranianos do que os libaneses. Desde a derrota pouco mais de um ano atrás, quando seu histórico líder Hassan Nasrallah foi morto em ataque de Israel, a organização estava enfraquecida e evitando uma escalada no confronto.

Em Beirute, um novo governo opositor ao Hezbollah está no poder. O primeiro-ministro é Nawaf Salam, um muçulmano sunita, como prevê o consenso libanês, que presidiu o Tribunal Penal Internacional de Haia. Desfruta de enorme respeito internacional e doméstico. O presidente é Joseph Aoun, um cristão maronita como prevê o consenso libanês, que comandou as Forças Armadas. Também desfruta de enorme respeito internacional e doméstico.

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Ambos os líderes vinham implementando o desarmamento do Hezbollah no Sul Líbano, cumprindo a parte do governo libanês no Acordo de cessar-fogo. Mantêm diálogo próximo com os EUA. Buscam explicar que a ação para desarmar o grupo aliado ao Irã precisa ser negociada com a organização para evitar uma nova guerra civil no Líbano, como a que traumatizou o país entre 1975 e 1990. Afinal, apesar de a maioria dos libaneses, especialmente cristãos, sunitas e drusos, se oporem ao Hezbollah, o grupo conta com forte apoio entre os xiitas que representam pouco mais de um terço da população libanesa – é uma estimativa, já que o Líbano não realiza censo há quase 90 anos.

Para Israel, o desarmamento estava lento e o governo de Benjamin Netanyahu manteve sempre a ameaça de uma escalada. Apesar de quase nenhum libanês ter simpatia por Israel nos dias de hoje tanto pela questão Palestina como pelos constantes bombardeios ao Líbano, a maior parte dos libaneses não quer guerra contra o muito mais poderoso país vizinho. Por este motivo, autoridades libanesas pressionavam o Hezbollah a não iniciar mais um conflito contra Israel. O resultado, todos sabem, seria mais uma destruição do Líbano.

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O grupo, porém, lançou mísseis contra Israel nesta segunda em resposta à morte ao aiatolá Ali Khamanei, líder Supremo do Irã. Minutos depois, Dahieh, como é conhecido o subúrbio ao Sul de Beirute, passou a ser bombardeada por Israel, que pode ampliar ainda mais a ofensiva. Mais uma vez, os outros libaneses são sugados para um conflito entre o regime de Teerã, com seus aliados do Hezbollah, e Israel. Infelizmente, o mágico Líbano que eu queria mostrar aos meus filhos vive mais um momento trágico em sua história. Cabe torcer para o conflito não se alongar e os libaneses possam voltar a viver a magia de seu pequeno território, terra dos ancestrais de milhões de brasileiros da diáspora libanesa.