Herdeiras processam Museu de Auschwitz para recuperar aquarelas que mãe foi obrigada a pintar durante o nazismo

Herdeiras processam Museu de Auschwitz para recuperar aquarelas que mãe foi obrigada a pintar durante o nazismo - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Quando Dina Gottliebova Babbitt era prisioneira de Auschwitz-Birkenau, na década de 1940, a pintura se tornou uma forma de sobrevivência. Confinada em um dos maiores campos de concentração e extermínio nazistas, ela produziu aquarelas em um cavalete precário a pedido do médico Josef Mengele, conhecido como o "Anjo da Morte".

Investigação na Espanha: Ex-funcionárias de Julio Iglesias pedem investigação de nova denúncia por agressão sexual Amigos e sócios, Chiko Guimarães, Guilherme Bill e Luis Bellas abrem ao público o ateliê Arco, no Centro do Rio Décadas depois, Babbitt passou anos tentando recuperar sete dessas obras, que permanecem no Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, na Polônia. A instituição se recusou a devolvê-las, argumentando que seu valor histórico e educacional se sobrepunha ao direito de propriedade reivindicado pela artista.

Agora, as duas filhas de Babbitt, Michele Babbitt Kane e Karin Wendy Babbitt, entraram na Justiça nos Estados Unidos para pedir a devolução dos retratos. A ação foi apresentada na segunda-feira no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Central da Califórnia.

"Quero segurá-las nas minhas mãos", disse Babbitt em um vídeo de 2009, poucos meses antes de morrer, aos 86 anos. "Quero que estejam aqui. Preciso delas".

Reflexões sobre a vida: Marcelo Serrado fala sobre luto, envelhecimento e livro sobre batalha contra crises de pânico: 'É apavorante' Segundo a ação, Babbitt nunca vendeu, transferiu ou abriu mão voluntariamente das sete aquarelas. O processo afirma que Mengele retirava os retratos dela assim que eram concluídos e que, mais de oito décadas depois, as obras continuam sob posse do museu, que reivindica a propriedade sobre elas. O Museu Estatal de Auschwitz-Birkenau, instalado no antigo campo de extermínio na Polônia, defende a decisão de manter as pinturas. Em declaração enviada por e-mail, Pawel Sawicki, porta-voz do Memorial de Auschwitz, reconheceu a dimensão emocional da reivindicação da família, mas afirmou que as obras devem permanecer na instituição. "Os retratos, de vítimas romas, estão entre os poucos fragmentos remanescentes da documentação produzida por Mengele como parte de seus experimentos criminosos", disse Sawicki. Segundo ele, as aquarelas devem ser tratadas como documentos históricos únicos relacionados a Auschwitz. Seis das pinturas foram adquiridas pelo museu em 1963, de um sobrevivente do campo. A sétima entrou para o acervo em 1977. A instituição afirma que pretende se apoiar em leis polonesas e em seu próprio estatuto para sustentar que os objetos históricos do antigo campo pertencem ao Estado. Uma lei de 1947 que criou o museu determina que a instituição deve reunir e preservar provas e materiais relacionados aos crimes nazistas, disponibilizá-los ao público e realizar pesquisas científicas sobre o tema. A advogada Sharon Cohen Levin, do escritório Sullivan & Cromwell, que representa as filhas de Babbitt, afirmou que as pinturas retratam pessoas submetidas aos experimentos pseudocientíficos de Mengele e posteriormente assassinadas. "O museu criado para homenagear as vítimas do Holocausto causou, neste caso, uma dor. Em sua memória, as filhas de Dina estão dando continuidade ao trabalho de décadas de sua mãe não apenas para recuperar o que legitimamente lhes pertence, mas também para honrar a dignidade e o legado de Dina e obter uma medida da justiça que lhe foi negada em vida', afirmou Levin. Nascida na antiga Tchecoslováquia, em 1923, Babbitt precisou abandonar os estudos de arte em 1939, depois da invasão alemã. Em janeiro de 1942, ela e a mãe foram enviadas para o campo de concentração de Terezín, no norte do país. No ano seguinte, as duas foram transferidas para Auschwitz. No campo, Babbitt começou a pintar depois que uma prisioneira responsável por um alojamento infantil pediu que ela produzisse imagens de Branca de Neve e os Sete Anões, além de desenhos de animais. Para isso, utilizava tintas que havia conseguido de forma clandestina. O trabalho chamou a atenção de Mengele. De acordo com a ação judicial, o médico nazista ordenou que Babbitt pintasse retratos em aquarela de prisioneiros romas escolhidos por ele para seus estudos pseudocientíficos. O objetivo era documentar características que Mengele associava, de maneira racista e sem fundamento científico, à chamada "inferioridade racial". Babbitt contou em entrevistas que aceitou cumprir a ordem com uma condição: que ela e a mãe fossem poupadas das câmaras de gás. Os prisioneiros retratados nas aquarelas acabaram mortos no campo. Pelo menos seis das sete pinturas foram assinadas e datadas por Babbitt a lápis, em 1944, com a grafia original de seu nome: "Dinah 1944". Para a artista, os retratos tinham um significado que ia além do registro produzido sob coerção. Segundo documentos apresentados no processo, ela desenvolveu simpatia pelas pessoas que retratou e considerava que as pinturas haviam contribuído para salvar sua vida, além de terem influenciado o destino de sua mãe e de seus descendentes. "Todos existem hoje por causa dessas pinturas", afirmou Babbitt, segundo a ação. Depois da libertação de Auschwitz, Babbitt se mudou para os Estados Unidos. Em Hollywood, trabalhou durante quase duas décadas como assistente de animação em diferentes estúdios. Participou da produção de personagens conhecidos, entre eles Wile E. Coyote, Piu-Piu e Patolino. Em 1973, Babbitt viajou até o museu para autenticar as pinturas. Ela esperava que as obras fossem devolvidas depois da confirmação de sua autoria. Segundo o processo, porém, a instituição mostrou os trabalhos, fez perguntas à artista e pediu que ela confirmasse que eram seus, mas a mandou de volta para casa sem as aquarelas. Ao longo dos anos, o museu chegou a sustentar, segundo a ação, que as obras poderiam pertencer a Mengele, e não a Babbitt. Em determinada ocasião, um funcionário teria dito à artista que, juridicamente, o único possível reivindicante seria o médico nazista — que, por sua vez, provavelmente não faria a reivindicação. A instituição também cita uma lei polonesa de 1996 sobre museus e seu estatuto, emitido pelo Ministério da Cultura e do Patrimônio Nacional, como bases legais para manter as obras no acervo. Babbitt recorreu durante anos a autoridades americanas em busca de apoio para recuperar as aquarelas. Segundo as filhas, diferentes esforços diplomáticos foram feitos por meio de correspondências com o governo polonês e com o museu, sem que as pinturas fossem devolvidas. Depois de esgotar essas possibilidades, Michele e Karin decidiram recorrer a uma mudança na legislação da Califórnia. Em 2024, o estado criou uma janela de dois anos para que pessoas que reivindicam obras de arte relacionadas ao período do Holocausto apresentassem processos que poderiam estar impedidos pela prescrição. Na ação, as filhas pedem que a Justiça reconheça Babbitt como legítima proprietária das aquarelas, determine a devolução das sete obras e conceda indenização em valor ainda não especificado. O Museu de Auschwitz, porém, sustenta que tem a responsabilidade legal de reunir e preservar objetos e documentos relacionados à história do antigo campo. "Qualquer perda de peças do acervo do Memorial representaria um dano irreparável", afirmou Sawicki. O porta-voz também levantou uma questão sobre o destino de outros objetos produzidos por prisioneiros durante o período nazista. Segundo ele, seria possível perguntar o que aconteceria caso sobreviventes ou seus herdeiros reivindicassem objetos produzidos nos campos, como obras de arte, pinturas, fotografias e projetos. Ele citou como exemplo o portão de Auschwitz com a inscrição "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"), produzido na oficina de metalurgia do campo pelo prisioneiro Jan Liwacz. Para o museu, o fato de um prisioneiro ter criado um objeto sob ordem das autoridades da SS não significa que tenha se tornado legalmente proprietário daquilo que produziu.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo