Hantavírus: devo me preocupar com a disseminação da doença?

 

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Com cinco casos confirmados e três mortes conhecidas, o surto de hantavírus (que causa hantavirose) localizado em um cruzeiro que navega no Atlântico não apresenta risco para outras pessoas que estão em “terra firme”, longe do ocorrido, explicam especialistas. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) afirmou que o caso é um incidente “sério”, mas que o risco de saúde pública é “baixo”.

Embora seja uma doença de desdobramento grave (o índice de letalidade pode chegar até 50%) a potencialidade de disseminação da doença não é alta. Isso porque a transmissão acontece por contato com secreções e excrementos de ratos selvagens principalmente e, de maneira menos comum, de pessoas infectadas. Esse contato entre humanos, porém, precisa ser íntimo e prolongado.

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— As pessoas afetadas nesse barco podem ter adquirido a doença no mesmo ambiente (por conta de excrementos ou outras secreções de ratos) ou, muito raramente, uma transmissão humano-humano. É preciso que ocorra um contato muito próximo para acontecer essa infecção— explica o médico infectologista pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Julio Croda. — Por isso que não há o risco de emergir uma epidemia, uma pandemia, do surto de hantavirose. Porque (a disseminação) ocorre em um evento isolado, porque a transmissão entre humanos também é limitada.

É o que também explica Alexandre Naime Barbosa, chefe do serviço de infectologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A doença, por conta de sua severidade e baixa transmissão, lembra outros problemas graves de saúde, como o Ebola e, mais recentemente, o Nipah. Que foram muitos severos em partes específicas do mundo, mas não se espalharam em forma de pandemia.

— Quando ocorre esse isolamento, como está sendo feito no cruzeiro, a transmissão se interrompe. O vírus que faz a pessoa ficar muito sintomática, ou é muito letal, ele tem mais dificuldade de se transmitir, porque a pessoa o reconhece rapidamente (e procura o serviço médico) — explica Alexandre. — Agora o número de óbitos vai reduzir, porque as pessoas vão ser atendidas em boas UTIs, nesses locais é possível reverter a gravidade do caso.

A transmissão localizada no cruzeiro está relacionada a uma cepa que normalmente circula entre o Chile e a Argentina, chamada de “Andes". Essa é a única variação do vírus que tem registro de transmissão entre humanos. Embora esse tipo de disseminação seja muito raro.

— Essa é uma cepa que também tem em roedores. É a mesma doença. Ela acontece no ciclo silvestre e pessoa-pessoa, mas é muito raro. É preciso que a pessoa tenha muito vírus — explica Alexandre.

Essa “rara” transmissão de pessoa para pessoa, a princípio, também se caracteriza no caso do cruzeiro. De acordo com a fala do diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, o primeiro caso identificado desse surto aconteceu no dia 6 de abril e causou a morte do passageiro no dia 11 do mesmo mês. Nesse caso, não houve coleta de amostra (para identificar a doença) porque o caso do paciente era compatível com outras infecções respiratórias.

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O outro caso letal foi da esposa desse paciente, que desembarcou quando o navio fez uma parada na Ilha de Santa Helena. Ela teve uma piora em sua situação de saúde num voo para Joanesburgo (na África do Sul), em 25 de abril, e morreu no dia seguinte.

A entidade, porém, não deu mais informações sobre a terceira morte, uma mulher que apresentou sintomas no dia 28 de abril e morreu em 2 de maio. É possível que mais casos da doença surjam, uma vez que o período de incubação do hantavírus supera seis semanas.

Brasil

Entre 2007 e 2024, o Brasil identificou 1.386 casos totais de hantavirose, que resultaram em 540 óbitos, aponta o Ministério da Saúde. A maior parte dos casos foram identificados após limpeza de casas, galpões, sobretudo em áreas rurais (54%).

Não existe tratamento específico ou vacina para o hantavírus, quando um caso é identificado, tratamento feito é para suporte de vida dos pacientes. Os sintomas, explicam entidades de saúde, costumam evoluir com rapidez. Em geral, a doença se agrava por meio de desdobramentos cardiopulmonares, com febre alta.