Hantavírus: Após crise em navio de cruzeiro, relembre surto de infecção nos anos 90 que causou mortes no Brasil
A crise médica a bordo do cruzeiro MV Hondius, que segue próximo a Cabo Verde após três mortes e a confirmação de um caso de hantavírus, reacendeu o alerta para uma doença rara, transmitida principalmente pelo contato com roedores infectados, mas capaz de evoluir rapidamente para quadros graves. Autoridades neerlandesas tentam repatriar dois passageiros com sintomas, enquanto a origem das mortes e a possível relação com o vírus ainda são investigadas.
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No primeiro comunicado divulgado sobre o caso, a Oceanwide Expeditions, operadora da embarcação, afirmou que enfrentou uma “situação médica grave” durante a travessia entre Ushuaia, na Argentina, e Cabo Verde. Segundo a empresa, duas pessoas morreram a bordo e uma após o desembarque. Um passageiro permanece em cuidados intensivos em Joanesburgo, na África do Sul, e outros ainda precisam de “atenção médica urgente”.
Hantavírus em cruzeiro
Reprodução
“As autoridades neerlandesas aceitaram coordenar uma operação conjunta destinada a organizar a repatriação das duas pessoas que apresentavam sintomas a bordo do MV Hondius, de Cabo Verde para os Países Baixos”, declarou a Oceanwide Expeditions.
A repatriação, no entanto, depende de fatores como a autorização das autoridades locais de Cabo Verde. Médicos chegaram a avaliar passageiros doentes, mas o desembarque e a evacuação para terra ainda não foram liberados.
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“O desembarque e a avaliação médica de todos os passageiros exigem coordenação com as autoridades sanitárias locais, com as quais mantemos contato estreito”, afirmou a operadora.
A empresa informou que o hantavírus foi confirmado no passageiro internado em Joanesburgo, mas destacou que ainda não há definição sobre o vírus ter sido a causa das três mortes. Também não foi confirmado nenhum caso entre os passageiros sintomáticos que permanecem a bordo.
“A causa exata e qualquer possível vínculo estão sendo investigados neste momento”, declarou a companhia.
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou no domingo que havia um caso confirmado de infecção por hantavírus e “outros cinco casos suspeitos”.
A hantavirose é uma antropozoonose transmitida por roedores silvestres. Em humanos, pode causar duas formas clínicas principais: a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal, mais comum na Ásia e na Europa, e a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus, registrada nas Américas. Ao contrário de outros vírus da família Bunyaviridae, os hantavírus não são transmitidos por artrópodes, mas pelo contato com roedores persistentemente infectados e suas excretas, especialmente pela inalação de partículas contaminadas presentes na urina, nas fezes ou na saliva desses animais.
Relembre surto nos anos 90
A doença chamou atenção mundial em 1993, quando uma enfermidade respiratória misteriosa atingiu a região de Four Corners, no sudoeste dos Estados Unidos, área em que se encontram os estados do Novo México, Arizona, Colorado e Utah. Na primavera daquele ano, pessoas jovens e até então saudáveis começaram a apresentar febre, dores musculares e sintomas semelhantes aos de uma gripe. Em muitos casos, o quadro evoluiu rapidamente para edema pulmonar, insuficiência respiratória e colapso cardiovascular.
O episódio que deu início à investigação ocorreu em 14 de maio de 1993, quando um jovem indígena de 19 anos, atleta e corredor de maratona, passou mal durante uma viagem de carro no Novo México. Ele havia tido febre e dores musculares dias antes, mas parecia estar bem o suficiente para viajar. No trajeto, porém, teve falta de ar intensa, colapsou por insuficiência respiratória e morreu pouco depois no pronto-socorro do Gallup Indian Medical Center, apesar das tentativas de reanimação.
A morte intrigou os médicos. O caso foi comunicado ao Escritório do Investigador Médico do Novo México, onde Richard Malone percebeu semelhanças com a morte recente de uma jovem navajo que também havia sido vítima de edema pulmonar agudo sem causa identificada. Ao conversar com a família do rapaz, Malone descobriu que ele viajava justamente para o funeral de sua noiva, de 21 anos, mãe de seu filho, que havia morrido poucos dias antes após febre, dores musculares e rápida piora respiratória.
A partir desse pequeno grupo de casos, autoridades sanitárias começaram a buscar ocorrências semelhantes. Em 17 de maio de 1993, o Departamento de Saúde do Novo México foi informado da suspeita. Um alerta foi enviado a médicos dos quatro estados da região, pedindo que quadros parecidos fossem comunicados imediatamente.
A divulgação de que uma doença inexplicada matava jovens indígenas provocou pânico e preconceito contra comunidades navajo e hopi, que chegaram a ser hostilizadas e excluídas de eventos regionais. Pressionadas, autoridades do Novo México acionaram os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) em 28 de maio daquele ano.
Em poucas horas, uma equipe de investigação foi formada. O grupo definiu como casos suspeitos pacientes da região que, desde 1º de janeiro de 1993, tivessem apresentado sinais de infiltrados pulmonares bilaterais sem explicação e hipóxia, ou mortes associadas a edema pulmonar sem causa conhecida. Mais de 30 casos suspeitos foram avaliados. Entre as hipóteses iniciais estavam uma nova forma agressiva de influenza, uma toxina ambiental ou um patógeno até então desconhecido.
A resposta veio rapidamente. Em 4 de junho, cientistas do CDC testaram amostras de nove pacientes contra um painel de vírus e encontraram reação cruzada com espécies de hantavírus. Até então, no Hemisfério Ocidental, esses vírus eram conhecidos por infectar roedores, mas não haviam sido associados a doença humana. O fato de os pacientes apresentarem comprometimento predominantemente pulmonar, e não renal, como em outras formas de hantavirose conhecidas na Ásia e na Europa, tornou a descoberta ainda mais surpreendente.
Equipes de campo capturaram cerca de 1.700 roedores em áreas ligadas a pacientes e controles. O animal mais comum era o Peromyscus maniculatus, conhecido como rato-veadeiro. Em 16 de junho, menos de três semanas depois da mobilização do CDC, cientistas identificaram no roedor a mesma sequência viral encontrada nos pacientes. Estavam definidos o vírus e seu reservatório.
O agente foi inicialmente associado à região de Muerto Canyon, na reserva navajo, mas líderes indígenas rejeitaram a vinculação do nome da doença ao território, em razão do preconceito sofrido durante o surto. O vírus acabou sendo oficialmente batizado de Sin Nombre, ou “sem nome”.
No surto inicial, 18 pacientes tiveram evidência sorológica ou molecular de infecção. A maioria era formada por adultos jovens. Os sintomas incluíam febre, respiração acelerada, taquicardia e queda de pressão. O edema pulmonar grave era praticamente universal, e a taxa de mortalidade inicial superou 75%. Em relatório preliminar de junho de 1993, o CDC havia identificado 24 pacientes nos estados do Novo México, Arizona, Utah e Colorado; 12 deles, metade do total, morreram.
A razão para a explosão de casos também foi investigada. Biólogos da Universidade do Novo México verificaram que a população de ratos-veadeiros em 1993 era dez vezes maior do que na primavera anterior. A umidade provocada por um inverno sob influência do El Niño favoreceu a vegetação, ampliou abrigo e alimento para a fauna local e levou ao aumento da população de roedores, elevando também a exposição humana.
Casos no Brasil
No Brasil, a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus foi identificada em novembro de 1993, no estado de São Paulo. Nos anos seguintes, houve registros no Pará, em 1995; na Bahia, em 1996; em Minas Gerais, Mato Grosso e Rio Grande do Sul, em 1998; no Paraná e em Santa Catarina, em 1999; em Goiás e no Maranhão, em 2000; e no Distrito Federal, em Rondônia e no Amazonas, em 2004, demonstrando a distribuição da doença em todas as regiões do país.
Oito variantes de hantavírus foram identificadas no Brasil: Juquitiba, Araraquara, Castelo dos Sonhos, Anajatuba, Laguna Negra, Rio Mearim, Rio Mamoré e Jaborá. As cinco primeiras foram associadas à Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus. No estado de São Paulo, duas variantes foram identificadas: Juquitiba e Araraquara.
A infecção costuma ter incubação de uma a cinco semanas. Em seguida, pode ocorrer uma fase inicial de três a seis dias, com febre e sintomas gerais, ainda sem manifestações respiratórias evidentes. O surgimento de tosse pode marcar o início da fase cardiopulmonar, caracterizada por vazamento capilar intenso, edema pulmonar, depressão do miocárdio e risco de colapso cardiovascular. A mortalidade nessa fase é estimada em cerca de 40%.
Por ser rara e evoluir rapidamente, a doença exige reconhecimento precoce. Exames laboratoriais podem indicar pistas, como hemoconcentração, plaquetas baixas e presença de imunoblastos no sangue periférico. O diagnóstico definitivo depende de testes sorológicos para IgM e IgG, mas o resultado pode demorar mais de 72 horas em muitos casos.
O tratamento é considerado desafiador. Como há intenso vazamento de fluidos para os pulmões, a reposição de líquidos pode agravar o edema pulmonar. Em casos graves, a oxigenação por membrana extracorpórea, conhecida pela sigla ECMO, pode servir como suporte até a fase de recuperação. Frederick Koster, médico infectologista do Novo México que participou da investigação original em Four Corners, descreveu o edema pulmonar associado à síndrome como “uma manifestação de doença sem paralelo na medicina clínica”.
