Há 35 anos, Ayrton Senna quebrou tabu e foi o primeiro a cruzar a linha de chegada em Interlagos
Foi há 35 anos, num dia 24 de março, como hoje, que Ayrton Senna, debilitado, levantou o troféu de campeão do 20º Grande Prêmio do Brasil, em 1991. A lenda do automobilismo brasileiro, dirigindo apenas com a sexta marcha, finalmente realizava seu sonho de vencer em casa.
Nesta terça-feira, para celebrar esse aniversário, o EXTRA relembra a vitória mais marcante das 41 que Senna conquistou em seus dez anos na principal categoria do automobilismo mundial. Veja abaixo, ponto a ponto, como foi.
Apenas o segundo ano em Interlagos
Naquele tempo, Interlagos era a segunda corrida do calendário, logo após a etapa de abertura, em Phoenix, nos Estados Unidos — em que Senna conquistou sua primeira vitória em 1991, ano em que se consagraria tricampeão da categoria.
Era também a segunda corrida no autódromo em seu retorno à categoria. Fora de rotação desde 1980, o autódromo José Carlos Pace — renomeado em 1985 — voltou em 1990, após diversas reformas feitas durante o governo de Luiza Erundina na Prefeitura de São Paulo.
Durante a reformulação do traçado, uma sugestão do próprio Ayrton Senna acabou entrando no projeto final: uma sequência em descida que ficou conhecida como “S do Senna”.
O GP do Brasil, Senna e um tabu
Naquele 24 de março, Senna largou com seu MP4/6-Honda da pole position, assim como fez nos últimos três anos: 1988, 89 e 90.
Mas, afinal, o que aconteceu nesses três anos anteriores? Em 1988, Senna dirigia a lendária McLaren MP4/4, seu carro mais famoso — que venceu 15 das 16 corridas daquele ano —, quando o trambulador de câmbio quebrou antes mesmo do início da prova. O carro reserva só foi ficar pronto depois do horário limite, e, embora tenha largado, ele foi obrigado a parar pela direção da prova.
Em 1989, a saída de Senna da pista foi logo no início da prova: na primeira curva, um acidente entre Senna, Ricardo Patrese e Gherar Berger tirou o brasileiro da disputa.
Nesses dois anos, 1988 e 1989, a prova no Brasil ainda era disputada no antigo autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.
Em 1990, no primeiro ano pós-reforma de Interlagos, outro acidente tirou Senna da corrida: já era a volta 42 quando Senna bateu no japonês Satoru Nakajima, ex-colega de equipe dos tempos de Lotus. Com o aerofólio danificado, o brasileiro foi obrigado a fazer mais um pitstop, terminando a corrida em terceiro lugar.
Preparativos e Treinos - Ayrton Senna
Julio Cesar Guimarães / Agência O Globo / 22.3.1991
Corrida tranquila, até que…
Em 1991, Senna, pelo quarto ano seguido, largaria na pole position a bordo de sua MP4/6-Honda contra as duas Williams imediatamente atrás. Mansell e Patrese dirigiam o modelo FW14-Renault, um V-10 mais rápido que a McLaren.
Tendo largado em terceiro, ao fim da 20ª volta, o Leão, apelido de Nigel Mansell, ultrapassou Patrese, e estava a apenas sete décimos de Senna, se aproximando cada vez mais.
Até que começou a primeira rodada de paradas. Mansell entrou primeiro, na 26ª volta, antes de todos, mas a equipe da Williams falhou. Se hoje quatro segundos em um pitstop parecem uma eternidade, o britânico teve que passar 14 segundos com o carro suspenso, caindo de segundo para quarto lugar.
Preparativos e Treinos - Ayrton Senna
Julio Cesar Guimarães / Agência O Globo / 22.3.1991
Na volta 46, Mansell recuperou o tempo perdido, ficando a apenas quatro segundos de distância da McLaren.
No entanto, o roteiro daquele dia parecia já ter seu final escrito: o pneu da Williams furou na 50ª volta, fazendo com que Mansell ficasse 34 segundos atrás do primeiro colocado na passagem da 51ª volta. E, se não bastasse, começou ali uma leve chuva.
O problema da marcha
Foi também na 51ª volta que o câmbio da McLaren do brasileiro começou a falhar. Ele relatou apenas “dificuldades” ao seu engenheiro, o espanhol Jo Martinez. Na verdade, o carro começava a ter problemas no câmbio: a quarta marcha não existia mais, começando o que seria um esforço considerado “hercúleo”, numa época em que o piloto ainda tinha que retirar a mão do volante para trocar de marcha.
“Faltando 20 voltas para o final, perdi completamente a quarta marcha. Foi quase o fim para mim. Eu precisava mudar as marchas sem passar pela quarta, tinha de fazer um esforço tremendo com o braço. Com isso, além de perder tempo, comecei a ter um desgaste maior do que teria já com o acumulado da corrida”, disse Senna numa entrevista.
Mas a sorte do brasileiro não acabou por aí. Na 59ª volta, Mansell, a 19 segundos de Senna, se aproximava a cada volta. Até que, na curva desenhada pelo próprio Senna, a Williams rodou e quebrou. O câmbio semiautomático, novidade da escuderia naquela temporada (mas que já vinha sendo usado pela Ferrari desde 1989), não aguentou: Leão estava fora da corrida.
Senna ao lado do seu companheiro de equipe
Fernando Pereira / Agência O Globo / 22.3.1991
Faltavam ainda dezvoltas. Senna, que estava sem a quarta marcha, perde também a terceira e a quinta marchas. Além disso, corria com pneus de mais de 30 voltas. E logo atrás vinha a outra Williams, aproximando-se tal qual um tubarão em busca de sua presa.
No entanto, Jo Ramirez acreditava no piloto brasileiro: “Confiávamos na capacidade de Ayrton improvisar, vimos que ele mudou a sua forma de pilotar. Essa era outra das grandes qualidades de Ayrton. Se fosse hoje, mesmo sem nos contar o que se passava, nós saberíamos do que se tratava e poderíamos, dos boxes, ajudá-lo. Naquela época, o piloto tinha de encontrar as respostas sozinho”, disse o engenheiro em entrevista ao GloboEsporte.
Sobre a queda de performance do brasileiro, Patrese, que também foi entrevistado pelo GloboEsporte, em 2016, acreditava que Senna estava apenas mantendo a vantagem de forma estratégica: “Eu não acelerei mais porque, como falei, achei que Senna poderia ser mais rápido, se precisasse”.
Patrese também culpa um problema em seu próprio carro: “Poucos sabem que eu tinha apenas cinco das seis marchas. Era um problema do carro. Fomos para Interlagos com uma relação de marchas que era uma segunda quinta marcha, não a sexta propriamente. O projeto do câmbio precisava ser revisto na fábrica”, disse ele, afirmando ainda: “Se soubesse dos problemas de Senna duas voltas antes talvez pudesse vencer”.
O esforço físico de Senna aumentava, dores se espalhavam pelo corpo: pescoço e ombros já não aguentavam mais, mas ainda faltavam algumas voltas — e ele não deixaria essa chance escapar, não pelo quarto ano seguido.
As últimas voltas
Na 65ª volta, a Williams avisou para Patrese que Senna, definitivamente, sofria com algo mais sério: ele fazia tempos de volta seis segundos mais lento que o resto do grid, 1m28s contra 1m21s6 de Berger, seu companheiro de equipe, e 1m21s6 de Patrese.
Senna atravessa a linha de chegada
Reprodução/ F1TV
“A diferença nos tempos de volta cresceu muito. Mas, mesmo assim, Ron (Dennis, sócio e diretor da McLaren) e todos nós sabíamos do que Ayrton era capaz, não havia ninguém como ele. Eu, pessoalmente, por conhecê-lo bem e entender o valor daquela vitória para ele, tinha certeza de que não deixaria Patrese ultrapassá-lo diante da sua torcida. De repente, o nosso carro iria ficar largo, largo”, disse Martinez.
A diferença entre eles, então, diminui: a cada volta, Patrese tira mais de 1 segundo de diferença. No fim da volta 69, ele estava a 4 segundos da McLaren. Faltavam duas voltas, até que começou uma garoa leve — mesmo que Senna fosse reconhecido como expert nessas condições — só piorava a situação do brasileiro.
“Eu achei que não ia ganhar nas duas voltas finais com o problema no câmbio nas últimas sete voltas. Eu falei... se der, vai ser no grito. Aí eu pensei comigo: eu lutei tanto esses anos para chegar nisso e hoje lutei tanto... Eu falei: vai ter que dar, vai ter que dar”, disse Senna logo depois da vitória.
Ayrton Senna toma banho de champanhe comemorando a conquista pelo primeiro lugar
Fernando Pereira / Agência O Globo / 24.3.1991
A perda de velocidade de Patrese e uma boa volta de Senna — 1m25s — garantiram a tão sonhada primeira vitória de Senna em sua terra natal. Era a realização: “Hoje vou ter que chegar em primeiro porque Ele é o maior de todos e Ele vai me dar essa corrida depois de tudo, e foi isso mesmo, Deus me deu essa corrida”, afirmou Senna.
20 minutos até o troféu
Ao pedir uma bandeira do Brasil para um comissário, a exaustão de ter que ficar manejando o carro apenas com a sexta marcha finalmente atingiu Senna. Ainda dentro do carro, ele foi atendido por Sid Watkins, médico da FIA.
Ayrton Senna (vencedor) com a bandeira do Brasil
Claudinê Petroli / Agência O Globo / 24.3.1991
Depois da prova, ele explicou o que aconteceu: “O motor parou porque não dava para engatar marcha nenhuma. A minha dor era absurda”.
Senna falou ainda: “Eu tinha espasmo no corpo inteiro. Não que eu não esteja bem preparado fisicamente, estou, mas é que depois de um fim de semana inteiro de estresse enorme, pressão e as condições da corrida, hoje era mais do que eu podia. Só podia terminar assim, sem nada sobrando”.
Com a bandeira do Brasil
Fernando Pereira / Agência O Globo / 24.3.1991
Foram 20 minutos até que Senna fosse liberado a subir ao pódio, talvez o mais emblemático de toda a história da categoria: Ayrton Semma, sem forças, mal consegue levantar o troféu de primeiro lugar, enquanto se afunda em lágrimas. O sonho estava realizado.
Piloto Ayrton Senna levanta o troféu ao chegar em primeiro lugar no Grande Prêmio Brasil de Fórmula 1
Julio Cesar Guimarães / Agência O Globo / 24.03.1991
