Há 114 anos: conheça o alfaiate que costurou um traje de voo e morreu ao saltar da Torre Eiffel

 

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Quem nunca sonhou em voar — e quem não temeu a queda? No início do século XX, quando a aviação engatinhava entre recordes e funerais, até onde iria a obstinação de um inventor para salvar vidas? E o que separa coragem de imprudência quando a ciência ainda aprende a medir o ar? Essas perguntas atravessam a curta e marcante trajetória de Franz Reichelt, o alfaiate que saltou da Torre Eiffel certo de que seu traje abriria asas.

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Reichelt buscava evitar mortes de aviadores em acidentes, comuns numa era em que balões, dirigíveis e os primeiros aviões disputavam espaço nas manchetes com suas tragédias. Alfaiate de formação, nascido em 1878 na então Boêmia e radicado em Paris desde 1898, ele construiu uma carreira estável na Rue Gaillon antes de se lançar a uma missão improvável: criar um paraquedas vestível a partir de tecidos, hastes e borracha. Naturalizado francês em 1909, passou a assinar François Reichelt e a dedicar-se quase exclusivamente ao projeto.

O traje de paraquedas

Em 1910, surgiram os primeiros testes do chamado traje-paraquedas. Manequins lançados de pequenas alturas pareciam descer com alguma suavidade, mas a integração do sistema a uma roupa completa revelou falhas: peso excessivo, área de tecido insuficiente e abertura instável. Técnicos da Ligue Aérienne, ligada ao Aéro-Club de France, analisaram o projeto e foram taxativos ao apontar a fragilidade do conjunto e a falta de segurança, recomendando o abandono da ideia. Reichelt discordou, especialmente diante de um prêmio então oferecido para um paraquedas de emergência leve — meta que ele acreditava poder alcançar.

Entre 1908 e 1912, enquanto acidentes fatais se acumulavam e nomes como o do militar Thomas Selfridge chocavam o público, Reichelt persistiu sozinho, testando manequins e atribuindo os fracassos à baixa altura. Em 1911, chegou a experimentar o dispositivo em si mesmo a poucos metros do solo, ferindo-se, mas manteve a convicção de que faltava apenas altura suficiente.

A autorização veio em 1912. A Prefeitura de Polícia de Paris permitiu testes na Torre Eiffel — tradicional laboratório de alta altitude — com uma condição explícita: apenas manequins. O próprio prefeito, Louis Lépine, afirmou depois que um salto humano jamais seria autorizado. Reichelt aceitou formalmente, mas, ao chegar ao local, decidiu testar o traje no próprio corpo.

Na manhã gelada de 4 de fevereiro de 1912, diante de jornalistas, curiosos e cinegrafistas, ele vestiu o traje e assegurou que o sistema se abriria ao estender os braços. Alertado por amigos e técnicos de que a altura da primeira plataforma não permitiria a abertura adequada, recusou medidas adicionais. Às 8h22, a 57 metros do chão, saltou. O traje não abriu. Reichelt morreu no impacto, e o episódio foi filmado e publicado nos jornais no dia seguinte.

A repercussão dividiu opiniões: houve quem o chamasse de gênio incompreendido e quem o visse como inventor imprudente. Não se falou em suicídio; mencionaram-se, sim, a pressão por resultados, investidores e patentes prestes a vencer. Após o acidente, as autoridades endureceram as regras para experimentos na Torre Eiffel, restringindo-os por anos a manequins. Reichelt entrou para a história não como pioneiro celebrado da aviação, mas como símbolo de uma fé absoluta na invenção — a linha tênue entre salvar vidas e arriscar a própria.