Reza uma lenda — bastante ignorante, registre-se — que críticos, curadores e colecionadores de arte seriam artistas frustrados, incapazes de superar a própria impotência criativa. Como se reconhecer o talento antes dos outros e apostar nele não exigisse uma forma particular de genialidade. A Fundação Louis Vuitton, em Paris, vem se dedicando a desmontar essa bobagem com exposições monumentais sobre os grandes colecionadores de arte moderna do início do século XX. Foi assim com os russos Sergueï Shchukin e os irmãos Morozov e com o inglês Samuel Courtauld. E agora, até o dia 8 de março, tira do esquecimento um francês, Gustave Fayet (1865-1925). Reconstituir essas coleções, dispersas pelo mundo depois da morte de seus proprietários, é uma operação quase arqueológica que exige um trabalho monumental de diplomacia e logística. Mais do que reunir obras-primas, trata-se de recuperar uma linha de pensamento, compreender como determinados homens enxergaram o futuro da arte quando esse futuro ainda era considerado um escândalo. Gustave Fayet era um rico proprietário de vinhedos do sul da França, empresário, banqueiro, pintor e um comprador compulsivo de arte. Entre o fim do século XIX e o começo do XX, passaram por suas mãos 740 obras de artistas que hoje valem fortunas, mas que, naquele momento, estavam longe de desfrutar de reconhecimento unânime. Ele as comprava às dezenas. Em seu apartamento parisiense, os quadros ocupavam as paredes até o teto. Chegou a possuir perto de 200 obras de Gauguin. Quando o pintor morreu, escreveu a um amigo que pouco importava se um dia suas pinturas valeriam 50 centavos ou 100 mil francos. Eram belas, e isso bastava. Nem sempre, porém, o desprendimento era tão absoluto. Fayet também vendia, negociava e calculava lucros com a precisão de um homem de negócios. Ao contrário de outros grandes colecionadores, ele não legou um conjunto significativo de obras a nenhum museu. Sua coleção acabou dispersa, e seu nome desapareceu da história que ele próprio ajudara a escrever. Seu gosto tinha limites. Compreendeu Van Gogh e Gauguin, mas não se entusiasmou pelo cubismo de Picasso e Braque. A exposição reúne cerca de 600 obras, objetos e documentos, entre eles 10 Van Goghs, 78 Gauguins, 86 Odilon Redons, 9 Matisses e 5 Cézannes. Uma sucessão de deslumbramentos. A estrela indiscutível é o autorretrato de Van Gogh com a cabeça enfaixada e um cachimbo na boca, pintado poucas semanas depois de o artista mutilar a própria orelha. Fayet o mantinha pendurado acima da cama! Hoje pertencente a uma coleção particular, a pintura não era vista em Paris desde 1937. A exposição demandou três anos de pesquisas e empréstimos de 64 instituições e 71 coleções particulares. Um feito que dificilmente se repetirá. Mas talvez a maior surpresa esteja nos últimos andares, onde descobrimos que Fayet também era um excelente artista. Em 1908, o empresário comprou uma abadia na França e transformou suas ruínas em um laboratório criativo. Ali desenhou vitrais, criou cerâmicas, tecidos e tapeçarias que conquistaram a elite parisiense. Os estilistas Jeanne Lanvin, Jacques Doucet e Paul Poiret estavam entre seus clientes. A exposição traz roupas assinadas por eles, que se beneficiaram de seu mecenato. Uma coleção é uma autobiografia escrita com as obras dos outros. Cada aquisição revela uma paixão, uma intuição, uma contradição. Há quem crie uma obra de arte. E há quem, ao reconhecê-la antes de todos, ajude a criar o seu destino e formar um olhar sobre o que nos torna tão singularmente humanos.
Gustave Fayet: o colecionador que apostou nos grandes nomes da arte moderna
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O Globo
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