Guias do Everest são acusados de envenenar alpinistas secretamente como parte de esquema de fraude contra seguradoras

 

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As raízes podres da corrupção chegaram ao topo do mundo, literalmente. Como uma erva daninha, capaz de crescer em qualquer lugar, um esquema de fraude de seguros tomou conta do Everest e, agora, o governo do Nepal investiga guias, agências de turismo, hospitais e operadoras de helicópteros por superfaturamento e falsificação de resgates. Os envolvidos já embolsaram cerca de US$ 20 milhões (R$ 103,2 milhões) e o governo investiga pelo menos 32 pessoas; 23 delas estão foragidas.

A montanha mais alta do mundo, naturalmente, é um desafio físico e mental para todos os corajosos que ousam enfrentar o gelo e a falta de oxigênio da altitude. Muitas vezes, esse esforço causa problemas sérios aos alpinistas, que precisam de resgates e serviços médicos.

Sabendo dos perigos do Everest, esses mesmos montanhistas iniciam a aventura preparados: a escalada é sempre acompanhada de bom equipamento, guias e, claro, um bom seguro, que possa custear tratamentos médicos e emergências. E foi exatamente através desses seguros que um grande esquema de corrupção se instalou no Nepal.

Por mais que empresas de seguro sejam eficazes, nem sempre é possível verificar a validade de pedidos de resgate a 3 mil metros de altura e outros milhares de quilômetros de distância entre clientes e seguradoras. Pensando nisso, uma verdadeira quadrilha bolou o esquema perfeito: utilizar o mesmo helicóptero para resgate de mais de um turista e cobrar das companhias de seguro como se mais de uma aeronave tivesse sido utilizada.

Guias, em acordo com hospitais e operadores de helicóptero, também "envenenam" alpinistas, forçando um mal-estar típico da altitude e um posterior resgate que, sem a interferência "invisível", não seria necessário.

Há também aqueles turistas que cooperam com o esquema e, desprovidos de energia para fazer a rota de descida da montanha, que pode levar até duas semanas, e com vontade de embolsar uma graninha, combinam resgates desnecessários, autorizam a falsificação de laudos médicos e recebem uma quantia da "rachadinha" das neves.

Resgates desnecessários ou até forçados são utilizados por envolvidos no esquema para forçar o pagamento do seguro

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Descoberta

A fraude foi descoberta inicialmente pelo "Katmandu Post" em 2018. Em seguida, o governo do Nepal criou uma comissão de investigação, produziu um relatório de 700 páginas e anunciou algumas reformas para tentar impedir o esquema. No ano passado, as investigações foram reabertas e, para a surpresa de muitos, a atuação criminosa tinha ganhado ainda mais força.

Destrinchando o esquema

A operação criada pela quadrilha funciona da seguinte forma: por causa de uma suposta emergência médica, guias acionam um helicóptero de resgate. O seguro dos turistas não é capaz de verificar a veracidade do pedido e aceita de prontidão, considerando uma situação urgente. Assim, montanhistas que completaram o percurso de subida e não desejam voltar caminhando têm a oportunidade perfeita para receber uma carona para Katmandu, capital do país. Eles fingem estar doentes e, em acordo com os guias, operadores de helicópteros e redes de hospitais, não são levados a hospitais, mas, mesmo assim, o seguro recebe uma conta de atendimentos médicos que nunca existiram, realizados, inclusive, por profissionais também inexistentes.

Há casos em que os próprios guias causam o mal-estar. Investigações já descobriram que guias administraram comprimidos de Diamox (acetazolamida), usados para prevenir o mal de altitude, junto com grandes quantidades de água para induzir, justamente, os sintomas de um mal-estar que justifique o resgate. Em pelo menos um dos casos investigados, houve ingestão forçada de fermento químico por um turista. A substância foi misturada à comida pelos guias para deixar os alpinistas fisicamente indispostos e, novamente, justificar a solicitação de helicópteros de resgate.

A partir das "encenações", guias, agências de turismo, hospitais e profissionais de resgate começam a ligar os pontos e colocam em cena uma grande operação de fraude: um único helicóptero, por exemplo, pode ser usado para transportar mais de um turista "doente". Com essa manobra, os envolvidos no esquema cobram das seguradoras como se cada montanhista tivesse demandado um helicóptero, levando os ganhos de fretamento de aeronaves de US$ 4 mil (R$ 20,6 mil) para US$ 12 mil (R$ 61,9 mil), no caso de três "enfermos" resgatados.

Além dos manifestos de voos falsificados, os hospitais, também envolvidos no esquema, produzem relatórios médicos com exames nunca realizados, com assinatura digital de profissionais que nunca participaram dos atendimentos. Autoridades descobriram nas investigações que cerca de 20% a 25% dos valores obtidos pelas unidades hospitalares com os seguros é repassado às agências de turismo e guias. Outra parcela que também pode chegar a 25% é repassada, pelos hospitais, às operadoras de helicópteros, que encaminham os pacientes.

Dentro desse escopo de falsificações médicas, um assistente administrativo de um hospital admitiu aos investigadores ter usado seu próprio exame de raio-X, feito cerca de um ano antes em outro hospital, como se fosse de um turista estrangeiro; tudo isso para justificar um pedido de seguro.

Dimensões financeiras da fraude

Entre 2022 e 2025, 4.782 pacientes estrangeiros foram atendidos em hospitais participantes do esquema. Nesse universo, 171 casos foram confirmados como resgates falsos. O Hospital Internacional Era, localizado em Katmandu e investigado pelas fraudes, recebeu mais de US$ 15,87 milhões (R$ 81,9 milhões) em pagamentos de seguros nesse período. O Hospital Internacional Shreedhi recebeu mais de US$ 1,22 milhão (R$ 6,2 milhões).

Entre as operadoras de resgate, a "Mountain Rescue Service" faturou cerca de US$ 10,31 milhões (R$ 53,2 milhões) com 171 resgates fraudulentos em 1.248 voos. A "Nepal Charter Service" arrecadou US$ 8,2 milhões (R$ 43,3 milhões) em 471 voos.

Turistas 'resgatados' normalmente são levados para Katmandu, capital do Nepal

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Em um caso que ilustra a ousadia do esquema, quatro turistas foram resgatados no mesmo voo de helicóptero, na mesma data e com o mesmo registro, mas as cobranças foram feitas às seguradoras como resgates separados, totalizando uma dívida de US$ 31 mil (R$ 159,9 mil) com as operadoras de resgate e uma conta hospitalar de R$ 11,8 mil (R$ 60,9 mil).

Um médico do Shreedhi Hospital afirmou, durante interrogatório, que apenas em um caso seu hospital pagou cerca de 9,1 milhões de rúpias nepalesas em comissões à Nepal Charter Service, 1,5 milhão à Heli on Call e mais 1,5 milhão a operadores de trekking. “Meu hospital também pagou comissões para promover negócios”, declarou.

Por que é tão difícil verificar os pedidos de seguro?

Segundo os investigadores envolvidos no caso, as seguradoras não conseguem controlar os resgates na cordilheira do Himalaia. Mesmo que a maioria dos contratos exija autorização prévia para retirada dos turistas das montanhas, quando a seguradora é informada da necessidade de resgate, ele já ocorreu, o paciente já está em Katmandu e a documentação já está sendo preparada.

Além disso, seguradoras estrangeiras dependem de intermediários locais, que muitas vezes fazem parte do esquema. Esses intermediários validam documentos que eles próprios podem ter ajudado a produzir e burlam a capacidade de verificação das empresas de seguros. Nesse ecossistema, empresas de resgate tentam maximizar cobranças; agências ficam loucas por comissões; hospitais ficam "felizes" com mais internações. Nenhuma das relações prioriza os interesses das seguradoras.

Responsabilização

Em janeiro, seis executivos de três importantes empresas de resgate do Nepal foram presos como consequência das investigações. Em 21 de março, outros nove suspeitos participaram de uma audiência em tribunal. O governo do país ainda mira outras 23 pessoas para responsabilização, totalizando mais 32 possíveis envolvidos no esquema de fraudes.

Desconfiança

A atuação criminosa que, entre 2022 e 2025 movimentou cerca de US$ 20 milhões (R$ 103,2 milhões), traz preocupação para o governo do Nepal.

Neste ano, o país espera pelo menos 500 pessoas para a escalada do Everest. Nesse cenário, o diretor-executivo do Conselho de Turismo do país, Deepak Raj Joshi, disse em entrevista ao projeto que monitora casos de corrupção e atuação do crime organizado, a OCCRP, que "o Nepal tem a imagem de um espírito puro e de pessoas honestas, e algumas dessas práticas equivocadas não transmitiam uma boa imagem”. O representante acredita que as investigações podem reestabelecer a confiança no turismo do país: "Se isso for corrigido agora, a longo prazo trará benefícios. E, se for devidamente investigado, aumentará a confiança dos visitantes".

(*) Estagiário sob supervisão de Fernando Moreira