Gui Santos fala sobre momento na NBA e diz ter vivido melhor temporada da carreira no Golden State Warriors: 'Tive oportunidade'

 

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Não foi uma quinta-feira qualquer na Escola Municipal Presidente João Goulart, no Andaraí, Zona Norte do Rio. Quando crianças de 9 a 16 anos poderiam imaginar que o único brasileiro em atividade na NBA participaria de uma aula de basquete com elas? Pois foi o que o projeto "M4 nas Escolas", idealizado pelo ex-jogador Marcelinho Machado, fez por inúmeros aspirantes a atletas e apaixonados por basquete.

— É daqui que saem os verdadeiros talentos — disse Gui Santos, ala do Golden State Warriors, da seleção brasileira e convidado especial do projeto.

O jogador de 23 anos encerrou recentemente a terceira temporada dele na NBA e, segundo o próprio, "a melhor da carreira". Durante as férias, o ala achou um tempinho para participar de uma das aulas de basquete do projeto do ex-jogador do Flamengo e da Seleção Brasileira Marcelinho Machado. Para Gui, são em lugares como esse que surgem grandes jogadores.

— Eu já estive na pele deles. Minha família nunca foi uma família que passou por dificuldades, mas também nunca foi uma família que esbanjou nada, era sempre tudo na risca ali. E, cara, é daqui que saem os melhores. Só eles têm o maior incentivo possível, que é chegar em casa, ver a mãe numa situação ruim e falar: 'cara, eu quero tirar minha mãe dessa situação'.

'É daqui que saem os talentos', disse Gui Santos em visita a escola no Rio

Patrick Chaia

O jogador reforçou que, pra ele, foi gratificante poder encontrar tantas crianças e encorajá-las a tentarem a carreira profissional.

— Vir aqui e falar 'ó rapaziada, eu saí do mesmo lugar, passei as mesmas dificuldades que vocês, mas se você trabalhar, fizer o que tiver que ser feito, você vai conseguir se dar bem' é realmente muito legal.

O atleta se mostrou empolgado com a recepção da garotada. Segundo ele, é muito bom vir ao Brasil e ser reconhecido pelo que faz na NBA.

— Eu acho que é para isso que a gente faz o que a gente faz, sabe? Lógico, tem o lado da família, de ganhar dinheiro e tudo mais. Mas, querendo ou não, eles me veem como inspiração e eu também recebo o carinho como inspiração.

Gui Santos participou de uma aula de basquete no projeto M4 nas Escolas nesta quinta-feira

Patrick Chaia

Além da imprensa, a criançada aproveitou para fazer as próprias perguntas. Curiosos, questionaram a respeito do primeiro jogo de Gui Santos na NBA. O atleta contou que jogou apenas dois anos como profissional no Brasil e, em 2023, foi draftado pelo Golden State. Quando entrou em quadra nos Estados Unidos, aquele frio na barriga de início de carreira ainda estava presente.

— Minhas pernas estavam tremendo. Quando o técnico me chamou para entrar, eu levantei do banco e elas bambeavam. Depois que fiz minha primeira cesta, lembrei: 'isso aqui é basquete, fiz isso a vida toda', aí me tranquilizei e consegui jogar bem — comentou com bom humor.

As crianças vieram com mais questionamentos: "Como você esfria a cabeça em momentos complicados? Como deixa a mente em paz num jogo difícil?".

O atleta de 23 anos respondeu a várias perguntas da garotada

Patrick Chaia

— Acho que sempre que eu me encontrava num momento difícil, pensava e falava pra mim mesmo: 'há quantos anos eu jogo basquete? Os caras aqui também têm duas pernas e dois braços, é tudo igual'. Isso me tranquiliza bastante também. Depois disso, partia para cima dos gringos, afinal, aqui é Brasil, né? — disse o atleta empolgado.

Ele também disse às crianças que o momento mais complicado da carreira foi a mudança para os Estados Unidos.

— Aprender inglês foi um grande desafio. Na maior parte do tempo, aprendia com músicas e filmes. Não conseguia falar com amigos porque não falava a língua, então demorei a me relacionar com mais pessoas. Se eu posso dar um conselho a vocês que desejam sair do país e jogar na NBA é: aprendam inglês. Vai fazer muita diferença — disse Gui.

Temporada e objetivos

A temporada 2025/26 serviu como uma afirmação da importância de Gui Santos no Golden State Warriors. No primeiro ano, Gui teve uma média de pouco mais de 8 minutos jogados por partida. Na segunda temporada, a média aumentou para 13 e, neste ano, passou para 20. Ele entrou em campo em 68 partidas e virou um dos três maiores pontuadores brasileiros em uma só partida na NBA.

Em março, ainda durante as partidas da temporada regular contra o Brooklyn Nets, Gui fez 31 pontos. Isso o deixou atrás apenas de Leandrinho, que fez 41 pontos em um único jogo defendendo o Phoenix Suns em 2009, e de Anderson Varejão, que marcou 35 pontos pelo Cleveland Cavaliers, em 2012.

Gui Santos revelou que tem o sonho de jogar com o irmão na seleção brasileira e na NBA; Edu Santos tem apenas 16 anos e hoje é atleta do Pinheiros na NBB

Davi Ferreira

Para Gui, a regularidade e oportunidades foram os grandes diferenciais desta temporada, que permitiram com que o atleta fizesse um bom ano e renovasse o contrato com o Golden State por mais três anos.

— Nas outras temporadas, havia momentos em que eu não jogava tanto. Essa temporada não teve essa desculpa. Eu tive oportunidade, consegui render e, automaticamente, consegui produzir números, ter uma visibilidade maior, tanto aqui no Brasil, quanto nos Estados Unidos. Isso me ajudou muito dentro de quadra e também fora de quadra. Agora eu estou sentindo um carinho muito maior quando eu venho para o Brasil e sendo reconhecido em todos os lugares que eu vou — contou animado.

O atleta também contou que tem o sonho de jogar com o irmão Edu Santos na NBA. O jovem de 16 anos também é ala e atualmente joga no Pinheiros, na NBB.

— Meu irmão está jogando muito bem, está destruindo. Acho que a única maneira da gente jogar junto agora é na seleção. Se Deus quiser, a gente vai jogar junto em algum momento.

O ala do Golden também mira títulos. Ele sonha com um campeonato na NBA e com medalhas pela seleção brasileira.

— Eu quero ganhar uma medalha pelo Brasil, seja olímpica ou em mundial. Qualquer medalha. Também sonho muito em ser campeão na NBA e, claro, continuar me desenvolvendo por lá e aproveitar essa extensão de contrato.

Desempenho e saúde mental

Gui Santos não acredita que teve que mudar muita coisa desde que chegou à NBA conseguir se consolidar no Golden State Warriors. O atleta disse que o chamam de "Gui trabalhador", porque ele valoriza muito a constância e o trabalho do dia-a-dia.

— Não tive que mudar muita coisa para a última temporada. Eu sempre continuei trabalhando, desde o meu primeiro ano. A única coisa que mudou foram as oportunidades, mais tempo de quadra. Quando você tem isso, automaticamente produz mais. E eu consegui aproveitar as oportunidades e mostrei um pouco mais do que eu posso ser dentro de quadra — afirmou.

"Quando ninguém está olhando, como um atleta de alto nível cuida da cabeça? Como manter a saúde mental em dia estando longe da família?", questionaram as crianças.

— Costumo jogar videogame pra relaxar e procuro manter o contato com meu irmão, fazer chamada de vídeo com a família, com a Ju, minha noiva. Mas é isso, a rotina é correria, treino e viagem o tempo todo. Minha fé também me ajuda muito em momentos difíceis. São basicamente esses pilares que me mantêm firme — revelou.

M4 nas Escolas

O projeto M4 nas Escolas começou em 2019 como iniciativa do ex-jogador Marcelinho Machado. O irmão e agora também ex-jogador de basquete, Duda Machado, também acompanha o projeto de perto e, todos os dias, dá aula para as crianças na Escola Municipal Presidente João Goulart, no Andaraí. Para Duda, é difícil colocar em palavras a importância do projeto.

— É difícil botar em palavras o que isso significa para a gente. É motivo de muito orgulho. Toda vez que gente entra aqui nas escolas e a gente vê as crianças com o uniforme do M4, percebemos que eles olham a gente e abrem um sorrisão. Aí correm, dão abraço. Isso deixa muito claro pra gente que o momento principal do dia deles é a aula do M4. Então isso é fundamental. É realmente o que a gente sempre almejou dentro das escolas. E como eu falei, se algum dia lá na frente alguma criança vier a conquistar alguma coisa na vida, e a gente sabe que muitas vão daqui vão, poderão dizer que o M4 ajudou de alguma forma; e isso aí não tem preço — disse emocionado.