Guerra no Irã queimou munições estratégicas dos EUA projetadas para potenciais confrontos com China e Rússia
Desde que a guerra com o Irã começou no fim de fevereiro, os EUA usaram cerca de 1,1 mil mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance, projetados para uma eventual guerra com a China — número similar ao total restante no estoque americano. As Forças Armadas dos EUA dispararam mais de mil mísseis de cruzeiro Tomahawk, aproximadamente dez vezes a quantidade que o país compra anualmente. O Pentágono utilizou mais de 1,2 mil mísseis de defesa antiaérea Patriot na guerra, a mais de US$ 4 milhões cada (cerca de R$ 20 milhões no câmbio atual), além de mais de mil mísseis terra-terra Precision Strike e ATACMS, deixando os estoques em níveis criticamente baixos, segundo estimativas internas do Departamento de Defesa e autoridades do Congresso.
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A guerra com o Irã drenou grande parte do suprimento global de munições das Forças Armadas dos EUA e forçou o Pentágono a enviar rapidamente bombas, mísseis e outros meios militares para o Oriente Médio a partir de unidades na Ásia e na Europa. Essas transferências diminuíram a prontidão dos comandos regionais para enfrentar adversários em potencial, como Rússia e China, e obrigaram Washington a encontrar maneiras de ampliar a produção para compensar os gastos, segundo autoridades do governo Trump e do Congresso.
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O conflito também destacou a dependência excessiva do Pentágono de mísseis e munições extremamente caros, especialmente baterias de defesa antiaérea, além de levantar preocupações sobre a capacidade da indústria de defesa de conseguir desenvolver armas mais baratas — especialmente drones de ataque — com muito mais rapidez.
O Departamento de Defesa não divulgou quantas munições foram usadas nos 38 dias de guerra antes de um cessar-fogo entrar em vigor em 8 de abril. O Pentágono afirma ter atingido mais de 13 mil alvos, mas autoridades dizem que esse número mascara a enorme quantidade de bombas e mísseis utilizados, já que aviões de combate, aeronaves de ataque e artilharia normalmente atingem grandes alvos várias vezes.
Na semana passada, um alto funcionário do Departamento de Defesa afirmou que o conflito já custou aos cofres americanos cerca de US$ 25 bilhões, mas três fontes com conhecimento do assunto afirmaram à rede americana CNN que o número é subestimado. Segundo disseram, o custo real seria de US$ 40 bilhões a US$ 50 bilhões, pois incluiria gastos com a reconstrução de instalações militares e a reposição de equipamentos destruídos durante os ataques. Somente nos dois primeiros dias da guerra, disseram autoridades de defesa a parlamentares, os militares usaram US$ 5,6 bilhões (cerca de R$ 28 bilhões) em munições.
Imagens divulgadas pelo Comando Central dos EUA mostra disparo de mísseis Tomahawk contra navios lançadores de mina do Irã
Reprodução/CENTCOM/X
Para restaurar o estoque global dos EUA ao patamar anterior, o país terá que fazer escolhas difíceis sobre onde manter sua força militar nesse período. O senador Jack Reed, de Rhode Island, principal democrata no Comitê de Serviços Armados, estimou que, no ritmo atual de produção, recompor o que foi gasto “pode levar anos”.
— Os EUA têm muitas munições com estoques adequados, mas algumas munições críticas de ataque terrestre e defesa antimísseis já estavam em falta antes da guerra e estão ainda mais escassas agora — afirmou Mark F. Cancian, coronel aposentado do Corpo de Fuzileiros Navais e conselheiro sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), que recentemente publicou um estudo estimando a situação de munições-chave.
Karoline Leavitt, secretária de imprensa da Casa Branca, disse em comunicado que "toda a premissa desta reportagem é falsa". Ela acrescentou: "Os Estados Unidos da América têm as Forças Armadas mais poderosas do mundo, totalmente abastecidas com mais do que armas e munições suficientes, em estoques no país e ao redor do globo, para defender efetivamente o território nacional e cumprir qualquer operação militar determinada pelo comandante-em-chefe."
Mísseis terra-terra ATACMS, também usados pelos EUA no Irã
John Hamilton / DoD / AFP
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Contratos para a indústria bélica
Alguns republicanos, incluindo o senador Mitch McConnell, do Kentucky, presidente do subcomitê que financia o Pentágono, vêm pressionando por aumento nos gastos com produção de munições ao longo de várias administrações. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, tornou esse objetivo uma das principais prioridades durante seu mandato.
Tornando a situação mais arriscada, dizem autoridades, o Departamento de Defesa aguarda a aprovação do Congresso para financiamento adicional antes de poder pagar fabricantes de armas para repor o estoque. Em janeiro, o governo anunciou que havia firmado acordos de sete anos com grandes contratantes de defesa, incluindo a Lockheed Martin, para aumentar a capacidade de produção de sistemas de defesa como interceptadores de mísseis.
O acordo previa quadruplicar a produção de munições guiadas de precisão e interceptadores de mísseis THAAD. Os fabricantes de defesa, por sua vez, concordaram em financiar a expansão de fábricas em troca de pedidos garantidos de longo prazo. Mas autoridades disseram que não houve avanço para iniciar de fato a produção ampliada, porque o Pentágono tentava encontrar os recursos financeiros.
Sistema de defesa aérea THAAD
Chang W. Lee/The New York Times
Queima de munição
Enquanto isso, os militares estão utilizando seus estoques atuais de armas em ritmo acelerado para atender necessidades imediatas. Alguns níveis de munição estão diminuindo mais rapidamente do que outros.
O Pentágono, por exemplo, comprometeu a maior parte do estoque de mísseis de cruzeiro furtivos de longo alcance Joint Air-to-Surface Standoff Missile–Extended Range (JASSM-ER). Lançados por caças e bombardeiros, eles têm alcance superior a cerca de 965 km e são projetados para penetrar alvos fortificados fora do alcance das defesas aéreas inimigas. Desde o início da guerra, os militares usaram cerca de 1,1 mil mísseis JASSM-ER, que custam aproximadamente US$ 1,1 milhão cada, restando cerca de 1,5 mil nos estoques, segundo estimativas internas do Pentágono.
Comando Central dos Estados Unidos (CENTCOM) divulga como ocorreram os disparos contra Irã
Os Tomahawk, que custam cerca de US$ 3,6 milhões cada, são mísseis de cruzeiro de longo alcance amplamente utilizados pelos EUA desde a Guerra do Golfo de 1991. Eles continuam sendo uma munição-chave para possíveis guerras futuras, incluindo na Ásia.
"Embora existam munições suficientes para travar esta guerra, o alto consumo de Tomahawks e outros mísseis na Operação 'Fúria Épica' cria riscos para os EUA em outros teatros — particularmente no Pacífico Ocidental", concluiu um estudo do CSIS, que estimou os estoques restantes de Tomahawk em cerca de 3 mil unidades.
Mais de 1,2 mil interceptadores Patriot foram usados até agora, segundo estimativas internas do Pentágono e autoridades do Congresso. Em todo o ano de 2025, os EUA produziram cerca de 600 unidades.
Europa e Ásia em alerta
Todos os comandantes militares regionais estão sentindo a pressão da redução dos estoques de munição. Na Europa, a guerra levou à diminuição de sistemas de armas críticos para a defesa do flanco leste da Otan contra a agressão russa, segundo informações do Pentágono analisadas pelo The New York Times.
Um problema descrito como sério foi a perda de drones de vigilância e ataque. As demandas da guerra com o Irã também reduziram exercícios e treinamentos. Segundo autoridades militares, isso prejudica a capacidade de conduzir operações ofensivas na Europa, bem como a dissuasão contra possíveis ataques russos.
Entenda as capacidades do porta-aviões americano USS Abraham Lincoln
Arte GLOBO
Mas o maior impacto foi sobre as tropas na Ásia. Antes do início da guerra com o Irã, comandantes militares americanos redirecionaram o grupo de ataque do porta-aviões USS Abraham Lincoln do Mar do Sul da China para o Oriente Médio. Desde então, duas Unidades Expedicionárias de Fuzileiros Navais, cada uma com cerca de 2,2 mil militares, foram enviadas do Pacífico para a região. O Pentágono também deslocou sistemas avançados de defesa aérea da Ásia para reforçar a proteção contra drones e foguetes iranianos.
Entre os armamentos redirecionados estão mísseis Patriot e interceptadores do sistema THAAD da Coreia do Sul — o único aliado asiático que abriga esse sistema avançado de defesa antimísseis, implantado pelo Pentágono para conter a crescente ameaça de mísseis da Coreia do Norte. Agora, pela primeira vez, os interceptadores do sistema estão sendo retirados, segundo autoridades americanas.
