Guerra no Irã pressiona inflação no Brasil, mas fortalece real e mantém perspectiva de cortes de juros, diz Bradesco
A guerra no Irã segue como principal fator de risco para a economia global, mas seus efeitos sobre o Brasil tendem a ser, em grande parte, temporários.
A avaliação faz parte de um relatório de cenário econômico divulgado pelo Bradesco nesta quinta-feira, que destaca impactos mistos: de um lado, pressão inflacionária, especialmente via combustíveis; de outro, valorização do real diante do aumento do fluxo de capital para mercados emergentes.
Segundo a análise, a expectativa base ainda é de encerramento do conflito no segundo trimestre, embora a incerteza permaneça elevada. Nesse contexto, houve revisão para cima das projeções de inflação: a estimativa para 2026 passou de 4,3% para 4,7%, refletindo principalmente o encarecimento de combustíveis e outros derivados de petróleo.
Os efeitos já começam a aparecer nos preços, destaca o texto. A gasolina acumulou alta de cerca de 7% desde o início da guerra, sendo responsável por uma parcela relevante da inflação recente. Além disso, o estudo aponta que a elevação dos preços de fertilizantes e do querosene de aviação deve pressionar alimentos e passagens aéreas nos próximos meses.
Queda do dólar ameniza cenário
Por outro lado, o Bradesco destaca que o Brasil tem sido beneficiado pelo cenário externo. O país voltou ao radar de investidores internacionais, impulsionando a valorização do real. A projeção da instituição é de que o câmbio permaneça ao redor de R$ 5 por dólar até o próximo ano, considerando a hipótese de que a moeda americana não se fortaleça globalmente. Esse fator seria um atenuante da pressão inflacionária.
No campo da política monetária, o documento indica que o Banco Central (BC) deve manter uma postura gradualista. A expectativa é de que o Comitê de Política Monetária (Copom) siga com cortes de 0,25 ponto percentual na Selic nas suas próximas reuniões, podendo acelerar o ritmo apenas no segundo semestre, caso os impactos inflacionários permaneçam restritos aos efeitos iniciais do choque.
A taxa básica de juros (Selic), que ontem foi reduzida a 14 5% ao ano pelo BC, deve encerrar o ano em 12,75%, na previsão do Bradesco.
Aceleração do PIB no 1º tri
A atividade econômica, por sua vez, mostra sinais de resiliência. De acordo com os economistas, indicadores apontam para aceleração do PIB no primeiro trimestre, puxada por setores menos sensíveis ao ciclo econômico, como agropecuária e indústria extrativa. Para o ano, a projeção de crescimento foi levemente revisada para cima, a 1,6%.
No cenário internacional, o material observa que a guerra segue pressionando o mercado de energia, com o fechamento do Estreito de Ormuz e restrições à navegação elevando os preços do petróleo. Ainda assim, o surgimento de canais diplomáticos entre Irã e Estados Unidos reduz o risco de um prolongamento indefinido do conflito, na visão dos analistas do Bradesco.
Duração do conflito é variável-chave
O principal risco destacado no relatório continua sendo a duração da guerra. Um conflito mais longo pode ampliar os efeitos sobre cadeias produtivas globais, deixando de impactar apenas preços e passando a afetar também a disponibilidade física de insumos.
Mesmo nesse ambiente, o Bradesco registra que economias emergentes têm se beneficiado do redirecionamento de fluxos globais de investimento. Esse movimento, aliado à resiliência da economia americana diante da turbulência, ajuda a sustentar os mercados — mas mantém a inflação e a política monetária no centro das atenções, escreveram os analistas.
