Guerra no Irã põe em xeque investimentos das big techs dos EUA no Golfo Pérsico

 

Fonte:


Em 2019, a Amazon construiu seu primeiro data center no Golfo Pérsico, no Bahrein. Três anos depois, expandiu suas operações para os Emirados Árabes Unidos. Em 2024, iniciou investimentos de mais de US$ 10 bilhões em novos projetos na Arábia Saudita.

Chatbots vão à guerra: como IA generativa e drones kamikazes transformaram a guerra no Oriente Médio

Alternativa: Choque de petróleo faz países se voltarem para energia nuclear

Esses movimentos ajudaram a Amazon a consolidar sua posição em uma das regiões que mais crescem no mundo, onde governos e investidores com vastos recursos financeiros desejavam participar da corrida pela economia digital e pela inteligência artificial.

— Estamos ansiosos para contibuir com a inovação e o desenvolvimento de talentos em todo o reino — disse Andy Jassy, CEO da Amazon, durante uma visita à Arábia Saudita no ano passado com o presidente Donald Trump e outros executivos de tecnologia.

Mas os planos de Jassy foram por água abaixo em 1º de março, quando drones iranianos danificaram o data center da Amazon no Bahrein e atingiram outros dois nos Emirados Árabes Unidos. Muitos clientes que dependiam desses centros de dados para obter poder computacional permanecem em situação de incerteza.

Initial plugin text

Duas semanas após o início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, as empresas de tecnologia americanas enfrentam uma nova realidade no Golfo Pérsico. A região — vista como um porto seguro para investimentos, energia barata e egulamentação flexível — tornou-se um polo para a construção dos data centers necessários para criar e distribuir softwares de IA. Google, Microsoft, OpenAI e outras empresas dos EUA correram para a área atraídas pelas economias em crescimento e pelos convenientes links de transmissão online com a África e a Europa.

Em todo o Oriente Médio, os gastos totais com tecnologia para consumidores e empresas chegaram a cerca de US$ 65 bilhões no ano passado, um aumento em relação aos US$ 36 bilhões em 2020, segundo a consultoria IDC. Já os gastos com tecnologia para data centers e serviços de computação em nuvem cresceram 75% no ano passado, para US$ 895 milhões.

No entanto, à medida que a guerra se prolonga, as apostas das gigantes da tecnologia na região parecem cada vez mais vulneráveis.

Gasto extra: Conflito no Oriente Médio aumenta impacto do custo-Trump na economia global

Nesta semana, o Irã ameaçou ampliar os ataques contra a “infraestrutura tecnológica inimiga” pertencente a sete empresas americanas de tecnologia: Amazon, Microsoft, Google, Palantir, Nvidia, IBM e Oracle. Na quinta-feira, Mojtaba Khamenei, novo líder supremo do Irã, aumentou as preocupações com um alerta vago de que o país estaria “abrindo outras frentes onde o inimigo tem pouca experiência”.

Incentivadas por Trump, que ajudou a intermediar acordos entre gigantes de tecnologia dos EUA e países do Golfo, as empresas minimizaram os riscos geopolíticos de instalar infraestrutura crítica em uma das regiões mais instáveis do mundo. Agora, uma estratégia promovida pelo governo americano como uma vantagem fudamental na corrida pela IA corre o risco de se tornar um grande problema por causa de uma guerra iniciada pela própria administração.

Investimentos em xeque

Nas últimas semanas, o setor de tecnologia tem aprendido lições que produtores de petróleo e bancos globais enfrentam há décadas, com bilhões de dólares em investimentos em IA colocados em xeque.

— O setor de energia tem muito mais experiência em lidar com riscos geopolíticos tradicionais do que o setor de tecnologia — disse Steffen Hertog, professor da London School of Economics and Political Science e especialista nas economias do Golfo. — A maioria dos investidores não ligados à energia no Golfo subestimou o risco antes da guerra atual, incluindo as empresas de tecnologia americanas.

Impactos do conflito: Com escassez de petróleo, países asiáticos reduzem expediente do governo e já cogitam home office mandatório

Depois que os data centers da Amazon foram danificados por drones iranianos, muitas empresas da região perderam acesso às suas redes.

— Eles foram derrubados — disse Simon Williams, ex-funcionário da Amazon que hoje é executivo da empresa de IA Atelic AI, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. — Perdemos todo o acesso aos nossos servidores. Isso teve um grande impacto no nosso negócio.

Williams está otimista de que a região continuará sendo um polo de investimentos em tecnologia. Ainda assim, ele não conseguiu contato com representantes da Amazon para recuperar o acesso a materiais importantes armazenados na nuvem da empresa.

Gasolina ou etanol? Com disparada do petróleo, calculadora do GLOBO mostra o que é mais vantajoso

— Tem sido uma caixa-preta. Eles não tinham o melhor sistema de recuperação de desastres — disse.

A Amazon sugeriu que clientes no Oriente Médio transferissem suas cargas de trabalho para data centers em outras regiões. Em comunicado, a empresa afirmou que está “ajustando as operações em resposta à evolução da situação, incluindo pausas temporárias quando necessário”.

O Google afirmou que está monitorando a situação e que “nosso foco é a segurança e o bem-estar de nossos funcionários na região”. A Microsoft não quis comentar.

Gasolina vai subir? Vai faltar? Veja perguntas e respostas

Dave Komendat, ex-chefe de segurança da Boeing, disse que data centers se tornam alvos atraentes em um conflito por representarem uma nova forma de infraestrutura crítica. Após o ataque aos data centers da Amazon, as empresas darão maior atenção aos riscos de segurança antes de construí-los, afirmou.

— Este é um evento de baixa frequência e alto impacto — disse Komendat, hoje sócio da consultoria Corporate Security Advisors. — Pode não acontecer novamente ou pode acontecer mais dez vezes.

Dimensão do impacto

Os problemas ilustram a centralidade das gigantes de tecnologia dos EUA nas disputas geopolíticas, levando capacidades tecnológicas essenciais para áreas que podem se transformar em pontos de estrangulamento estratégico.

Xiaomeng Lu, diretora do Eurasia Group, uma consultoria de gestão de riscos que estuda a interação entre tecnologias emergentes e geopolítica, disse que a guerra com o Irã deve prejudicar os esforços dos países do Golfo para atrair grandes empresas de tecnologia, especialmente para os Emirados Árabes Unidos, que fazem fronteira com o Irã.

Expansão sob risco: Passagens aéreas ficarão mais caras após alta do petróleo

— As ambições deles são construídas sobre a premissa de estabilidade geopolítica — afirmou.

A dimensão do impacto final da guerra pode depender, em parte, de como ela será resolvida. Se o conflito levar a uma nova liderança no Irã menos confrontacional com os Estados Unidos e Israel, isso pode trazer mais estabilidade e investimentos, disse Lu. Mas, se o governo iraniano for enfraquecido e ainda assim permanecer no poder, isso poderá criar o risco de novas perturbações e conflitos nos próximos anos.

— O fator tempo é fundamental — disse. — Se a guerra terminar em um mês, as pessoas vão esquecer isso. Se durar meses e meses, estaremos em um cenário muito diferente.