Guerra na Ucrânia: Zelensky diz que Rússia não atingiu objetivos militares após quatro anos, e Kremlin promete prosseguir com ofensiva
Um raro momento de concordância entre Rússia e Ucrânia foi registrado nesta terça-feira, quando uma comunicação do Kremlin e uma declaração por vídeo do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmaram separadamente que Moscou não atingiu seus objetivos militares após quatro anos da guerra mais sangrenta em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial. Zelensky mencionou o fato como uma prova do insucesso do líder russo, Vladimir Putin, e da resistência de seu próprio povo, voltando a pedir apoio internacional contra a invasão inimiga. A Presidência russa, por outro lado, admitiu que ainda tem objetivos em aberto — e que continuará a pressionar no campo-de-batalha até que cada um deles seja conquistado.
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— [Vladimir] Putin não alcançou seus objetivos. Não quebrou os ucranianos. Não venceu esta guerra. Preservamos a Ucrânia e faremos tudo o que for possível para conseguir a paz e para que se faça justiça — afirmou Zelensky em uma mensagem em vídeo, acrescentando que seu país está preparado para fazer "tudo" o que for possível para garantir uma paz sólida e duradoura.
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O posicionamento do Kremlin foi apresentado pelo porta-voz Dmitri Peskov, em resposta a uma pergunta da agência francesa AFP. O encarregado pelas comunicações públicas da Presidência russa afirmou que muitos objetivos do Kremlin na Ucrânia foram cumpridos, destacando que o principal objetivo de Moscou seria garantir "a segurança das pessoas" que vivem no leste da Ucrânia. Ele porém, admitiu que há metas em aberto.
— Os objetivos ainda não foram plenamente atingidos, por isso a operação militar continua — disse Peskov, afirmando que as atividades militares continuarão até que cada um dos objetivos seja atingido.
Os comentários oficiais na data em que a invasão russa ao território ucraniano completa quatro anos ocorrem em um momento em que Moscou e Kiev estão envolvidos em um lento processo diplomático mediado pelos EUA. Embora o presidente americano, Donald Trump, tenha tentado impor pressão para o avanço das negociações, a cessão de parte do território ucraniano à Rússia e as garantias exigidas pela Ucrânia para prevenir uma futura agressão russa permanecem como gargalos para qualquer acerto. Enquanto isso, o balanço dos prejuízos causados pela guerra só aumentam.
Centenas de milhares de pessoas morreram desde a invasão, embora o número total de mortos seja impreciso. Zelensky admitiu no início de fevereiro que 55 mil de seus soldados morreram desde 2022. A Rússia mantém silêncio, mas estima-se que sejam mais de 117 mil, segundo o serviço russo da BBC e o veículo de mídia russo Mediazona, com base em dados disponíveis publicamente. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), com sede nos EUA, citou até 325 mil soldados russos e entre 100 mil e 140 mil soldados ucranianos mortos.
A devastação nos territórios também é crítica. Ataques russos à infraestrutura energética devastaram a rede elétrica, privando milhões de pessoas de aquecimento e eletricidade. Cidades inteiras, onde a resistência ucraniana se concentrou, como Bakhmut, estão em ruínas. A ONU estima que cerca de 20% do território ucraniano esteja contaminado por minas terrestres. A Rússia controla 20% da Ucrânia, incluindo áreas que já estavam sob o controle de forças russas ou pró-russas antes de 2022 — incluindo cerca de 83% da região de Donetsk, de acordo com uma análise da AFP baseada em dados do Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês). O custo total de uma reconstrução do país é estimado em mais de US$ 558 bilhões na próxima década, segundo uma avaliação conjunta do governo ucraniano, da União Europeia, do Banco Mundial e da ONU.
Demonstrações de apoio e cobrança
A invasão de Moscou à Ucrânia tornou-se desde seu primeiro momento uma pauta central na Europa, onde países ocidentais assumiram uma posição amplamente pró-Kiev e avessa a Moscou. Líderes de países do continente, incluindo o presidente finlandês, Alexander Stubb, e o primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, chegaram à Ucrânia nesta terça-feira, em um marco pelos quatro anos de guerra.
"É com prazer que dou as boas-vindas aos líderes do grupo Nórdico-Báltico Oito, nossos verdadeiros e próximos aliados na defesa da liberdade, da justiça e da verdade" escreveu o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Sybiga em uma publicação no X.
Mesmo alguns líderes que não estiveram presentes em território ucraniano se pronunciaram sobre a data simbólica. O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que "a guerra de Vladimir Putin contra a Ucrânia é um triplo fracasso para a Rússia", enquanto o secretário-geral da Otan, o ex-premier holandês Mark Rutte, afirmou que os aliados ocidentais da Ucrânia devem intensificar a "ajuda militar, financeira e humanitária" para que Kiev prevaleça contra a Rússia.
— Esse apoio é essencial. A Ucrânia precisa de mais, porque uma promessa de ajuda não acaba com a guerra — disse Rutte em uma cerimônia na sede da Otan, acrescentando que o apoio ocidental era "imperativo" para permitir que a Ucrânia "se defenda do terror russo vindo do céu e mantenha as linhas de frente". — A Ucrânia precisa de munição hoje e todos os dias até que o derramamento de sangue cesse.
Ao lado do secretário-geral, a embaixadora da Ucrânia junto à Otan, Alyona Getmanchuk, afirmou aos diplomatas e oficiais militares dos 32 Estados-membros que cada sistema adicional de defesa aérea, cada entrega de munição, cada míssil interceptor "não apenas salva vidas, como também fortalece a posição da Ucrânia na mesa de negociações". A "Coalizão dos Dispostos", iniciativa europeia de apoio à Ucrânia, se preparava para se reunir na terça-feira para marcar os quatro anos da invasão.
Embora a entrada na Otan tenha sido um aspecto chave, sobretudo no início do conflito — a Rússia justificou a invasão à Ucrânia como uma resposta ao avanço da aliança ocidental em direção ao seu território, enquanto Kiev apresentou a adesão ao grupo como única solução de segurança aceitável —, não há qualquer previsão de que a Ucrânia seja integrada militarmente. Rutte, porém, fez menção a "forças ucranianas fortes, prontas para dissuadir e defender, e com garantias de segurança efetivas por parte dos parceiros da Ucrânia" ao fim deste conflito.
Em um discurso por vídeo no Parlamento Europeu, Zelensky pediu que a União Europeia estabeleça um cronograma claro para a adesão do país ao bloco — uma forma de integração à Europa ocidental que se não oferece às garantias de segurança pretendidas, posicionaria Kiev sob uma economia pujante e uma aliança estratégica.
— É importante para nós recebermos uma data clara para a adesão à UE — disse Zelensky. — Se não houver essa garantia, [Putin] encontrará uma maneira de bloquear a Ucrânia por décadas, dividindo vocês, dividindo a Europa.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, chegou com a delegação que viajou a Kiev nesta terça-feira, resumindo o objetivo da visita em um vídeo:
— Ressaltar nosso compromisso duradouro com a luta justa da Ucrânia — afirmou. — [Enviar] uma mensagem clara, tanto ao povo ucraniano quanto ao agressor: não vamos ceder até que a paz seja restaurada. Paz nos termos da Ucrânia.
Impasse nas negociações
A Rússia bombardeia diariamente áreas civis e infraestruturas estratégicas ucranianas, o que provocou a pior crise energética no país desde o início da invasão, agravada por um inverno rigoroso no Hemisfério norte. Os aliados ocidentais de Kiev adotaram sanções fortes contra Moscou, o que obrigou a Rússia a redirecionar suas exportações de petróleo para novos mercados, sobretudo na Ásia.
Apesar do impacto das sanções, as tropas russas avançaram lentamente nos últimos meses, em particular na região leste do Donbass, epicentro de combates violentos e que Moscou deseja anexar. Ao mesmo tempo, as negociações continuam sob mediação dos Estados Unidos.
Zelensky insiste em suas exigências de garantias de segurança por parte de Washington antes de assinar qualquer acordo com Moscou. A Rússia rejeitou as propostas de Kiev sobre o envio de forças europeias à Ucrânia após um eventual acordo de cessar-fogo.
O presidente russo advertiu que alcançará seus objetivos pela força, caso a diplomacia fracasse. (Com AFP)
