Guerra entre Hamas e Israel completa 1.000 dias, e Gaza enfrenta futuro incerto
O ataque liderado pelo Hamas contra Israel que desencadeou a guerra na Faixa de Gaza completa 1.000 dias nesta quinta-feira.
Desde então, outros conflitos surgiram na região, e tréguas frágeis carregam as marcas de ataques persistentes.
Tanto israelenses quanto palestinos demonstram desgaste diante do prolongamento da guerra.
Nesse cenário, o futuro de mais de 2 milhões de palestinos em Gaza, em sua maioria deslocados e vivendo em meio aos escombros, permanece incerto.
Durante o cessar-fogo iniciado em 10 de outubro, as forças israelenses já controlavam mais da metade do território.
De lá para cá, o governo de Israel ampliou essa área e afirma que pretende manter sob seu controle 70% da faixa.
O conflito, desencadeado pelo ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, matou cerca de 1.200 pessoas em Israel e resultou no sequestro de 251 reféns.
Todos os sequestrados, vivos ou mortos, já foram devolvidos, e muitos dos sobreviventes relataram ter sofrido longos períodos de fome, abusos físicos e psicológicos e, em alguns casos, violência sexual durante o cativeiro.
A ofensiva israelense em Gaza, por sua vez, matou 73.066 palestinos até terça-feira, segundo o Ministério da Saúde do território.
Embora o cessar-fogo mediado pelos EStados Unidos esteja em vigor desde outubro de 2025, a circulação de pessoas continua severamente restrita e as etapas seguintes do acordo — entre elas o desarmamento do Hamas e o início da reconstrução da faixa — seguem travadas.
Desde o início da trégua do ano passado até terça-feira, a pasta contabilizou 1.053 palestinos mortos, incluindo mais de 350 mulheres e crianças.
Segundo reportagem da Associated Press, entre as vítimas dos últimos dias estavam uma adolescente a caminho da escola e uma mãe com sua filha de um ano.
Além disso, o ministério informou que mais de 3.400 pessoas ficaram feridas no período.
Embora o órgão faça parte do governo controlado pelo Hamas, ele mantém registros detalhados das vítimas, que são considerados confiáveis por agências da Organização das Nações Unidas (ONU) e especialistas independentes.
O ministério, porém, não distingue civis de combatentes, mas afirma que mulheres e crianças representam cerca de metade dos mortos.
As Forças Armadas de Israel, por outro lado, dizem que seus alvos são os combatentes do Hamas e de outros grupos armados, frequentemente afirmando que eles planejavam ataques, e acusam o Hamas de usar civis como escudos humanos.
Na quarta-feira, a ONU chegou a alertar que a expansão das operações israelenses em Gaza aumenta os riscos fatais para civis em "áreas sem delimitação clara no terreno".
"Muito mais precisa ser feito para que ao menos uma aparência de normalidade possa voltar, e ainda estamos muito, muito longe disso", afirmou nesta semana Nicolas von Arx, diretor regional do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
Nickolay Mladenov, principal diplomata responsável por supervisionar o cessar-fogo, alega que o principal entrave à implementação do acordo continua sendo o desarmamento do Hamas.
O presente imbróglio, inclusive, se tornou o principal teste para o Conselho da Paz criado pelo presidente Donald Trump.
Lançado no início deste ano com bilhões de dólares em promessas de financiamento internacional para liderar a reconstrução de Gaza, o órgão praticamente desapareceu do debate público.
O desarmamento do Hamas abriria caminho para uma nova administração da faixa e para o envio de uma força internacional de estabilização encarregada da segurança e da reconstrução.
Embora o grupo não descarte entregar parte de seu arsenal, ele insiste em manter algumas armas e exige novas concessões de Israel.
Pessoas bloqueiam uma rua em protesto em frente ao Knesset, o Parlamento israelense, enquanto israelenses se mobilizam por todo o país para marcar os 1000 dias do ataque mortal liderado pelo Hamas a partir de Gaza , em 7 de outubro de 2023 , e exigem uma investigação estatal, em Jerusalém, 2 de julho de 2026
REUTERS/Ronen Zvulun
Eleições de Israel e ruínas em Gaza
Dezenas de manifestantes de Israel reuniram-se nas proximidades do Parlamento do país nesta quinta-feira para exigir que o governo crie uma comissão estatal de investigação sobre o ataque de 7 de outubro, algo que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que busca a reeleição, vem tentando evitar.
Segundo pesquisa do Instituto para a Democracia de Israel divulgada no mês passado, mais de 60% dos israelenses acreditam que Netanyahu não deveria disputar um novo mandato.
Pesam contra o premiê as falhas de segurança que antecederam o episódio que deu início à guerra, a recusa em criar uma comissão estatal para investigar o episódio e as impopulares isenções do serviço militar concedidas aos partidos ultraortodoxos que integram sua coalizão.
Além disso, nos últimos 1.000 dias, os israelenses foram profundamente traumatizados por outros conflitos que se seguiram, como o contra o Hezbollah, apoiado pelo Irã, no Líbano; contra os rebeldes houthis, também apoiados por Teerã, no Iêmen; e contra o próprio Irã.
Enquanto isso, os palestinos em Gaza afirmam estarem próximos do limite.
Abrigados em enormes campos de tendas, com pouca ou nenhuma infraestrutura básica, ou nos esqueletos de edifícios bombardeados, eles continuam vivendo sob o zumbido constante dos drones israelenses e sob a ameaça diária de novos ataques.
Soma-se a isso, o fato que as passagens de ajuda humanitária pela fronteira de Gaza continuam fortemente restritas e, em alguns momentos, chegaram a ser completamente fechadas.
A ONU informou no mês passado, por exemplo, que 17 hospitais continuam sem funcionar.
Em agosto do ano passado, a fome foi oficialmente declarada na Cidade de Gaza em agosto do ano passado, embora especialistas em segurança alimentar tenham apontado posteriormente "melhoras significativas" após a entrada em vigor da trégua com Israel.
Na quarta-feira, o Cogat, órgão militar israelense responsável pela coordenação de assuntos civis em Gaza, afirmou que "a quantidade de alimentos que está entrando supera amplamente as necessidades nutricionais da população civil de Gaza".
Na prática, porém, os moradores afirmam que a situação continua dramática.
Além da expansão das operações israelenses, pesam sobre a população as acusações de que militantes do Hamas executaram palestinos suspeitos de colaborar com Israel ou de cometer crimes como saques.
Thaer Abu Daraz carrega o corpo de sua filha pequena nos braços; ela morreu junto com a mãe em um ataque israelense a um campo de deslocados em Khan Younis, Gaza, em 30 de junho de 2026
AP/Abdel Kareem Hana
